A velocidade como novo valor agregado
Em um mercado em movimento, a vantagem está cada vez mais em testar, adaptar e responder primeiro
Para quem trabalha acelerando negócios, Cannes é um bom termômetro das mudanças que começam a redefinir a forma como empresas competem e crescem. Durante uma das discussões mais interessantes que acompanhei, um exemplo chamou minha atenção. Na Índia, algumas empresas já conseguem entregar um MacBook ou um iPhone em cerca de dez minutos. Parece exagero. Mas talvez o mais impressionante não seja a capacidade logística. É o fato de que existe demanda para isso.
A explicação talvez esteja no próprio comportamento do consumidor. As pessoas não querem esperar cinco minutos por um carro de aplicativo. Não aceitam sites lentos. Abandonam jornadas de compra longas. Desistem de processos complicados.
A espera deixou de ser uma inconveniência. Passou a ser uma barreira.
Esse foi um dos temas centrais de uma round table sobre a Ásia da qual participei durante o festival. A discussão girava em torno da velocidade com que as mudanças estão acontecendo e de como tecnologia, inteligência artificial e escala estão criando uma nova percepção de tempo.
Em muitos mercados asiáticos, velocidade deixou de ser um diferencial para se tornar uma expectativa básica.
Essa lógica ajuda a explicar outro tema recorrente em Cannes, a transformação das marcas chinesas.
Durante muito tempo, elas foram associadas principalmente à competitividade de preços. Hoje, o foco está cada vez mais na experiência e na capacidade de gerar valor para o consumidor.
O setor automotivo é um dos exemplos mais evidentes desse movimento. Além dos avanços em eletromobilidade, marcas como a GAC vêm incorporando funcionalidades pensadas para resolver necessidades concretas do dia a dia. Um dos exemplos apresentados foi o Thermo Vault, recurso capaz de aquecer mamadeiras ou resfriar bebidas dentro do próprio veículo. Parece um detalhe, mas representa uma mudança importante. A inovação deixa de ser apenas tecnologia e passa a criar valor real para as pessoas.
O mesmo raciocínio aparece em outras categorias. O fenômeno Labubu ganhou destaque justamente por desafiar a ideia de perfeição que dominou por tanto tempo a indústria de brinquedos. Em vez de seguir padrões tradicionais, a marca encontrou relevância ao representar algo mais próximo das expectativas e comportamentos atuais dos consumidores.
Na moda, o movimento segue uma direção semelhante. Marcas chinesas vêm conquistando espaço ao priorizar funcionalidade, design e valor agregado em vez da simples ostentação de logotipos.
O que conecta todos esses exemplos é a capacidade de identificar mudanças de comportamento e transformá-las rapidamente em produtos, serviços e experiências relevantes.
O mercado sempre foi direcionado para construir processos seguros, previsíveis e bem estruturados. Mas o consumidor atual não espera o fim do planejamento. Ele muda enquanto o planejamento ainda está sendo feito.
Isso vale para empresas, marcas e também para agências.
Inteligência artificial, automação e metodologias ágeis passaram a ocupar um papel cada vez mais importante nesse contexto. Não porque substituem criatividade ou estratégia, mas porque ajudam organizações a aprender, adaptar e responder mais rápido.
Hoje, a vantagem competitiva parece estar migrando para quem consegue entender primeiro, testar primeiro e responder primeiro. Esse movimento vai ao encontro da forma como entendemos uma aceleradora de negócios: antecipar mudanças, reduzir o tempo de resposta e transformar estratégia em crescimento.