A criatividade é muscular e sempre será humana
A vida real segue como a maior base para a criatividade
No meu segundo ano como jurada em Cannes, percebi que a Inteligência Artificial já não ocupa mais o lugar de um território desconhecido, que assusta ou coloca em xeque a capacidade humana.
Há alguns anos, a discussão girava em torno da pergunta: “A IA vai substituir a criatividade?”. Agora, estando novamente no centro das conversas sobre inovação, tecnologia e criatividade, tenho mais certeza do que nunca de que a criatividade é muscular e, justamente por isso, sempre será humana.
Acompanhei de perto o papo do Steve Huffman, cofundador e CEO do Reddit com o Brian Sozzi, e ouvi uma reflexão que resume muito esse momento. Segundo ele, “as pessoas estão cada vez mais frustradas com a ineficiência da IA e seus resumos inúteis, e estão migrando para conversas mais longas e humanas”.
Huffman ainda destacou um dado interessante: mais da metade das pessoas que pesquisam em ferramentas de IA buscam, depois, validar aquelas informações em comunidades reais, ou seja, há esperança.
A fala dele responde a muitas das inquietações que surgiram com a ascensão da Inteligência Artificial. Mas comunicação é atenção, e atenção exige repertório, curiosidade e criatividade. E essas características são profundamente humanas.
Eu sempre defendi que precisamos viver experiências reais para sermos criativos. O desafio da IA é justamente o oposto: ela pode acessar tudo, mas não experimenta nada. E, quando falamos de arte e criatividade, essa diferença se torna ainda mais evidente.
Grandes autores como Machado de Assis e Clarice Lispector criaram obras que atravessam gerações a partir de vivências, observações, conflitos e sensibilidades humanas próprias. São experiências que uma máquina jamais viverá e, portanto, jamais poderá compartilhar com a mesma verdade.
A IA pode criar experiências sedutoras, oferecer respostas rápidas e facilitar processos. Seja Gemini, Claude, ChatGPT ou qualquer outra ferramenta, seu uso já não é mais uma escolha: é uma realidade.
Mas, nesse novo cenário, aquilo que é genuinamente humano passa a valer ainda mais. Nossa capacidade de interpretar o mundo, construir repertório, fazer conexões improváveis, sentir, questionar e imaginar continua sendo o maior diferencial criativo que existe. A vida real segue como a maior base para a criatividade.
Como criativos, fazemos parte de quem produz cultura, arte e significado. E não existe inovação verdadeira sem o toque humano.