Diário de Cannes

Na cova dos leões

Longe dos palcos e painéis, a verdadeira magia de Cannes acontece nos encontros e conversas de corredor

Giovana Grigolin

Managing Director da MAGMA 17 de junho de 2026 - 15h14

E lá vamos nós para mais uma Olimpíada da criatividade.

Toda indústria tem seu grande campeonato, e Cannes talvez seja o mais próximo que chegamos de um evento esportivo. Existem favoritos, apostas, análises, comemorações, decepções e, claro, os troféus. Os Leões, a nossa taça.

Ainda não existe uma bet oficial, que eu saiba, mas com tanta agência fazendo campanha do vício da vez, logo mais deve rolar.

Desde a primeira vez que fui para lá, entendi que quase tudo o que acontece em Cannes eu consigo acompanhar daqui. As palestras são gravadas, as premiações viram notícia em tempo real e os trabalhos premiados circulam pela internet antes mesmo de eu desembarcar no Brasil.

Claro, existe uma parte da experiência que continua impossível de reproduzir à distância.

Caminhar pela Croisette e ver cada metro da praia transformado por marcas disputando atenção é uma delas. Os estandes crescem a cada ano, ocupam praticamente cada metro livre de areia e acabam se tornando uma espécie de retrato físico do momento da indústria.

Observar como as marcas escolhem se apresentar, os temas que dominam as conversas e as experiências que criam por ali, também é uma forma interessante de entender para onde estamos indo.

Mas a cada ano que vou fica mais claro que uma das partes mais interessantes do festival acontece justamente longe dos microfones, telões e plateias.

Vivemos uma época em que quase tudo funciona sem presença física. Fazemos reuniões sem sair da cadeira, resolvemos assuntos por mensagem e acompanhamos a vida alheia por uma sequência interminável de stories e carrosséis. Às vezes até dá a sensação de que estamos próximos de todo mundo. Um fenômeno curioso desse tempo que vivemos. E Cannes tem um talento especial para provocar reencontros. Você esbarra naquela amiga criativa que não vê há meses ou anos, encontra alguém com quem trabalhou em um projeto especial, cruza com uma pessoa que admira ou finalmente conversa ao vivo com quem só conhecia pelas redes sociais.

É aí que acontece algo que nenhuma tecnologia conseguiu reproduzir por completo. As ideias começam a circular. Uma conversa leva a outra. Um comentário despretensioso vira insight. De repente, quinze minutos de conversa rendem mais do que horas de apresentações, vídeos e relatórios.

Talvez por isso eu sempre volte de Cannes com a sensação de ter aprendido mais nos corredores do que nas palestras. Os palcos mostram tendências. Os encontros revelam as pessoas por trás delas. No fundo, criatividade nunca foi um esporte individual. Ela nasce da observação, da troca, da curiosidade e daquele impulso quase irresistível de compartilhar uma boa história.

Por isso vou animada para mais uma semana de festival. Pelos trabalhos que vou ver, pelas discussões que vou acompanhar e pelas ideias que surgirão pelo caminho. Mas principalmente pelas conversas.

Porque, entre um auditório lotado e uma caminhada pela Croisette, existe uma verdade que Cannes me faz lembrar todos os anos. Algumas das melhores ideias nascem de um encontro improvável, de uma conversa sem roteiro e de pessoas que, por alguns minutos, decidiram trocar histórias.