Minha primeira vez em Cannes
Minha primeira vez em Cannes acontece justamente quando os criadores deixam de ser coadjuvantes
Tem coisas que a gente espera com aquela mistura boa de ansiedade e expectativa. A estreia em um cargo novo, a primeira grande viagem a trabalho, o momento em que você percebe que está prestes a vivenciar algo que sempre acompanhou de longe. Para mim, o Cannes Lions 2026 é exatamente isso.
Vou ao festival pela primeira vez. Mas o que mais me chama atenção não é apenas a experiência de estar na Riviera Francesa cercada pelas maiores mentes da indústria criativa. É o fato de que essa estreia acontece justamente no ano em que a creator economy ganha, de vez, um espaço próprio no principal festival de criatividade do mundo.
A criação do LIONS Creators, com programação e ambiente dedicados aos criadores de conteúdo, é mais do que uma novidade. É um sinal claro de que o mercado mudou. Criadores deixaram de ser acionados apenas no fim da campanha para amplificar mensagens. Hoje, eles ajudam a construir cultura, influenciam decisões de compra, desenvolvem produtos e criam negócios.
E essa mudança traz discussões que o Brasil precisa acompanhar de perto.
A primeira delas é a evolução das métricas. Se antes o sucesso era medido por alcance e engajamento, agora a conversa é sobre resultado: vendas, consideração e impacto real nos negócios. A era das métricas de vaidade parece estar ficando para trás.
A segunda é o avanço da inteligência artificial. Em um cenário em que consumidores recorrem cada vez mais a ferramentas de IA para buscar recomendações, a autoridade construída pelos criadores ganha uma nova camada de relevância. A confiança passa a ser um ativo ainda mais valioso.
Por fim, há a ascensão dos creators como empreendedores. A creator economy já não se resume à monetização da audiência. Ela gera marcas, propriedade intelectual e empresas relevantes. Não é apenas uma estratégia de marketing; é uma tese de negócio.
E é justamente por isso que quero estar em Cannes.
Não para voltar com uma coleção de tendências, mas com respostas para desafios concretos: como inserir criadores desde o início das estratégias? Como desenvolver modelos de mensuração mais robustos? Como usar inteligência artificial sem comprometer a autenticidade, que continua sendo o maior ativo de qualquer creator?
O Brasil tem uma das comunidades de criadores mais criativas e influentes do mundo. O que precisamos agora é fortalecer a estrutura que sustenta esse potencial: métricas mais inteligentes, relações mais estratégicas entre marcas e talentos e uma visão de longo prazo para esse mercado.
Talvez a melhor definição para a minha primeira vez em Cannes seja esta: não estou indo para descobrir o futuro da creator economy. Ele já começou. Estou indo para entender como podemos garantir que o Brasil ocupe o lugar que merece nessa conversa global.
Porque os criadores não estão mais pedindo espaço. Eles estão ajudando a redesenhar a indústria. E quem ainda os enxerga apenas como mídia corre o risco de chegar atrasado ao próximo capítulo do marketing.