Cannes

O sotaque que diziam ser barreira está embarcando

O que antes parecia distância hoje se traduz em pertencimento, estratégia e oportunidade

Vinícius Machado

CEO e fundador da Sotaq Creators 17 de junho de 2026 - 11h40

Em quase toda reunião nova, nos primeiros anos da empresa, em algum momento aparecia a mesma pergunta, sempre com um quê de preocupação gentil: o sotaque não vai limitar muito a sua empresa? Minha resposta também era quase sempre a mesma, e vinha em forma de outra pergunta: sabia que você tem sotaque, mesmo achando que não tem? Quando eu falo de sotaque, as pessoas presumem na hora que estou falando só do Nordeste, e não estou. Todo mundo tem sotaque, do carioca ao paraense, do gaúcho ao paulista, que jura que fala neutro. Sotaque não é o desvio de uma norma, é a prova de que a fala veio de um lugar. Disseram que o nome seria uma barreira, mas foi ele quem comprou a passagem.

Cannes, para mim durante muito tempo, foi aquilo que passava na televisão quando mostravam os resumos do maior festival de publicidade do mundo. Estar lá era uma ideia distante, e não principalmente pelo dinheiro. O distanciamento era mais de pertencimento do que de bilhete, a sensação que aquele lugar era de outras pessoas, de outro circuito, de quem já tinha nascido por dentro. Por isso ainda soa surreal escrever este texto. Por mais um ano a Sotaq, o segundo, a Sotaq estará em Cannes e vamos levar cinco clientes para viverem o festival por dentro.

O que mais me toca nessa história (e também o que tem mais estratégia) é conseguir incluir os clientes, e não só o time, e oferecer, a quem confiou na gente (quando ainda era risco) uma semana de troca sem a pressa de encerrar a call, resenhando depois de uma palestra o que dá pra trazer pra marca e o que a gente já faz e nunca tinha parado para valorizar direito. Pode soar como luxo visto de fora, mas a ideia de que sotaque e Brasil regional são um assunto simpático, porém de nicho, envelheceu rápido. A Sotaq vem ganhando concorrências diretas carregando exatamente o sotaque que diziam que ia nos limitar, e o próprio festival passou a dedicar um espaço inteiro ao Business of Influence e à Creator Economy nesta edição, segundo a programação oficial. O que durante anos foi tratado como conversa de quem estava fora do circuito agora tem horário marcado no Palais.

No fundo é tudo a mesma coisa que me perguntavam lá no começo, só que agora com uma resposta mais clara. O sotaque nunca foi ruído, ele vem como uma marca de que aquilo veio de algum lugar e fala com uma vida concreta, e num momento em que o mercado está aprendendo a desconfiar do que soa perfeito demais e genérico demais. Ter origem deixou de ser peso e virou credencial. O que chamavam de barreira é, na prática, um passaporte. E todo mundo tem o seu. A diferença está em quem escolhe carregar e quem ainda finge que não tem.

Este texto é só o aquecimento. O festival começa em 22 de junho, e a partir dele vou escrever análises e principalmente falar do repertório que volta e vira decisão no segundo semestre, em campanha e em conversa com cliente. O que eu mais quero que fique, do primeiro texto ao último, é uma cena simples de imaginar: a empresa do nome que diziam ser barreira desembarcando em Cannes com os próprios clientes ao lado, porque o que tornava aquele lugar distante nunca foi só o dinheiro, era o acesso, este que se divide com quem acreditou na gente não por gentileza, mas na forma mais honesta de fazer esse mercado crescer.