Peças raras
Entre minerais críticos e campanhas premiadas, encontrei paralelos inesperados sobre valor e criatividade
Ok, tudo bem, começo assumindo que ando numa fissura daquelas pelo tema das Terras Raras.
O algoritmo deita e rola me oferecendo conteúdos sobre minerais críticos, questões geopolíticas e produção de chips, a parte que menos ganha meus cliques.
Fato é que esse ano me aconteceu algo raro, um muito desejado convite para ser jurado em Cannes, algo que não só me encheu de orgulho e satisfação como me abasteceu de outros tipos de “minerais críticos”, vitais para a produção das grandes ideias – elementos positivamente carregados como inspiração, originalidade e coragem.
Fui avisado para me preparar, separar tempo, algo como duas horas diárias de mineração pesada e refino. As peças chegam em lotes, grandes lotes, e o trabalho vai bem além de chacoalhar a rede da peneira de um lado pro outro.
O que me conforta no processo é ver que aquele monte de material extra, além do obrigatório, que também preparamos com afinco quando inscrevemos do Brasil, é realmente muito valioso para decidir se aquele achado da Tailândia, China ou de algum País Nórdico, permanece na rede ou volta pro barro.
Informações como momento do país, heranças culturais, questões específicas da economia e mais um monte de assuntos pro algoritmo voltar a pirar, ajudam a enxergar brilho incomum onde antes parecia existir apenas material ordinário.
Um fato curioso, que também me ajuda a defender o tema deste artigo e não deixar a comparação assim tão estúpida é o número de campanhas avaliadas que não existiriam, não fossem os elementos raros da natureza em sua composição. É o caso dos veículos elétricos, smartphones, computadores, equipamentos médicos de última geração. Novos ricos da indústria e da propaganda investindo para construir reputação, engajar, vender e, no Cannes Lions, tentar fechar o ciclo perfeito de vida – de terra rara a peça rara.
No fim, o tesão de participar, além da inspiração, é ver com os próprios olhos, não só o que reluz, mas também o que está ali em estado bruto, quase cinza, o funcionamento do processo em si, que dá condições ideias para mineradores espalhados por todo o planeta, usarem também seus critérios pessoais, ajudando os verdadeiros donos das jazidas a encontrarem o que tanto buscam: ouro, prata ou bronze.