Cofundador da Zombie: “Animação reduz barreiras geográficas”
Produtora de animação ficou em segundo lugar no ranking do Meio & Mensagem, com 37 prêmios em festivais
A combinação de força narrativa e minúcia técnica é o que a Zombie Studio procura agregar em cada trabalho nos 14 anos de operação, afirma Paulo Garcia, cofundador e diretor de cena. A produtora ficou em segundo lugar no ranking das mais premiadas de 2025, com 4 Grand Prix, 9 Ouros, 13 Pratas de 11 Bronzes em diferentes festivais dentro e fora do Brasil.

Paulo Garcia, da Zombie, diz que craft é core criativo da produtora (Crédito: Divulgação)
Entre os cases de destaque, que combinam stop motion e CGI, estão o filme “47”, com a Canja, criado pela Klick Health Toronto para Café Joyeux, que desde o ano anterior vem conquistando prêmios; e “18 Months”, da mesma agência para Second Nurture. A produtora, especializada em animação, tem escritórios em São Paulo, Nova Iorque e Lisboa.
O plano central de crescimento da Zombie, segundo Garcia, mira na ampliação da presença internacional. Além disso, no radar estão tecnologias imersivas, pipelines mais integrados e novas colaborações globais, que “ampliem escala sem comprometer essência”.
“Também estamos atentos aos novos movimentos do mercado, como fusões, reorganizações de agências e grupos. Esse ambiente gera instabilidades, mas, também, oportunidades. Nos mantemos vigilantes e ágeis para nos adaptar rapidamente a novos desafios e formatos de produção”, ressalta.
Na entrevista, o cofundador da Zombie Studio fala sobre a atuação internacional da produtora e analisa o espaço que a produção brasileira tem conquistado fora do Brasil.
Meio & Mensagem – A atuação internacional tem crescido? Que mercados são mais relevantes hoje? A animação é mais “fácil” de não ter fronteiras territoriais?
Paulo Garcia – Sempre operamos majoritariamente nos principais mercados internacionais, desde o início do estúdio. A receita internacional representa, de forma consistente, cerca de 90% do nosso faturamento, com América do Norte e Europa como mercados primários, além de presença recorrente em países como Austrália, China e Índia. Trabalhamos de forma global e remota, o que amplia significativamente o acesso a talentos. A animação naturalmente reduz barreiras geográficas, embora projetos manuais, como stop motion, ainda exijam estrutura física local, o que adaptamos conforme a demanda de cada projeto.
M&M – Falando de negócios, como foi o desempenho da produtora no ano passado em termos de crescimento e novos clientes?
Garcia – Um projeto é sempre vitrine para o próximo. Em 2025, mesmo diante das inúmeras transformações do mercado, crescemos de forma consistente, mas, deliberadamente, sem escalar em excesso, para não comprometermos nosso core: projetos tailor-made, desenvolvidos com curadoria criteriosa. Essa escolha nos permite selecionar os trabalhos nos quais nos envolvemos de verdade, o que preserva a qualidade e a identidade do estúdio.
M&M – Qual é o olhar da produtora para a tecnologia e quais novas frentes ou técnicas estão sendo exploradas?
Garcia – A inteligência artificial nunca substituirá artistas de verdade, mas ela tem sido uma aliada importante na aceleração de processos. Ela aproxima diretores, artistas e clientes de resultados mais tangíveis desde as fases iniciais, além de ter otimizado fluxos administrativos e internos. Ainda assim, nosso core criativo permanece lastreado no craft, seja ele manual ou digital. Em paralelo, investimos na integração de pipelines, na expansão de talentos internacionais e continuamos explorando técnicas híbridas que ampliam possibilidades criativas sem abrir mão da autoria artística. Buscamos sempre pessoas que vibrem na mesma sintonia, onde quer que elas estejam.
M&M – Ampliando a conversa, em projetos internacionais, qual costuma ser o diferencial percebido na produção brasileira? O custo continua sendo um atrativo central?
Garcia – O diferencial está muito menos no custo e muito mais no olhar criativo. Como estúdio habituado a operar internacionalmente, não nos posicionamos com base em competitividade de preço frente ao mercado brasileiro. Nos posicionamos de igual para igual com as melhores produtoras do mundo, tendo como diferencial a diversidade e a riqueza da cultura brasileira. O brasileiro é naturalmente plural, convivendo com múltiplas culturas, possuindo enorme capacidade de escuta e é, por essência, um grande contador de histórias. Os clientes nos buscam exatamente para enriquecer projetos que já têm em mãos. Empatia, sensibilidade cultural, flexibilidade e resiliência diante das inevitáveis mudanças ao longo de um projeto são atributos que cultivamos e que claramente são reconhecidos e valorizados por quem trabalha conosco.
M&M – Existem desafios que ainda limitam o crescimento internacional das produtoras brasileiras?
Garcia – Um desafio que ressurgiu nos últimos anos foi o retorno de clientes e agências ao modelo 100% presencial, o que gera, por vezes, a expectativa de que o estúdio opere da mesma forma. Na nossa visão, isso é contraproducente. A liberdade do trabalho remoto é justamente o que nos permite acessar talentos em qualquer lugar do mundo, não apenas localmente. Na prática, esse é um ponto que se resolve com clareza e alinhamento logo no início de cada projeto e raramente se torna um obstáculo real.