Canja: “Criatividade aliada à execução é o diferencial”
Produtora tem 14 anos e ficou em segundo lugar no ranking das empresas de som que se destacaram em 2025
Com 14 anos de história, a Canja, atualmente, é formada por 20 pessoas, com estúdios em São Paulo, Curitiba e Nova Iorque. O início da operação internacional ocorreu dois anos após a fundação, o que permitiu construir relevância internacional de forma robusta, com projetos nos cinco continentes.

Filipe Resende, CEO da Canja, diz que nível exigido de entrega é um dos maiores desafios da produção brasileira no exterior (Crédito: Divulgação)
A Canja ficou em segundo lugar no ranking das produtoras de som mais premiadas de 2025, com 2 Grand Prix, 10 Ouros, 8 Pratas e 8 Bronzes nos festivais de criatividade. Para o CEO, Filipe Resende, o desempenho tem a ver com consistência, a partir da escolha por trabalhar em projetos em que o áudio tivesse um papel realmente estrutural na narrativa.
“Isso significa dedicar tempo ao craft, experimentar linguagens diferentes e tratar cada trilha, cada sound design e cada voz como parte da construção da ideia criativa”, comenta. Além de “47”, da Klick Health Toronto para Café Joyeux, outro case importante do ano foi “Gol Interrompido”, da Leo para a Fiat.
Conforme o executivo, cerca de 40% das campanhas foram destinadas ao mercado externo, com os Estados Unidos representando mais da metade da demanda. Mesmo assim, a atuação internacional tem se pulverizado, com recentes trabalhos para Alemanha, Espanha, Holanda, Inglaterra, Singapura e Índia.
Na entrevista, Resende detalha como a atuação da Canja no exterior e avalia quais os desafios centrais para a produção brasileira em outros mercados.
Meio & Mensagem – Como os prêmios influenciam o posicionamento da produtora no mercado internacional?
Filipe Resende – O nosso desempenho neste ciclo tem muito a ver com consistência. Nos últimos anos, buscamos trabalhar projetos em que o áudio tivesse um papel realmente estrutural na narrativa, e não apenas decorativo. Isso significa dedicar tempo ao craft, experimentar linguagens diferentes e tratar cada trilha, cada sound design e cada voz como parte da construção da ideia criativa. Também contamos com parceiros (agências e clientes) que entendem o valor do som e nos dão espaço para ir além do óbvio. Quando isso acontece, o resultado costuma aparecer. Para uma produtora brasileira, prêmios ajudam a colocar o trabalho em circulação global e a mostrar que a qualidade do áudio produzido aqui pode dialogar de igual para igual com qualquer outro mercado. Muitas vezes é por meio desses projetos premiados que novos parceiros nos descobrem e começam uma conversa.
M&M – A atuação internacional tem crescido? Como a produtora trabalha o equilíbrio entre projetos nacionais e internacionais?
Resende – Nos últimos anos, cerca de 40% dos nossos projetos foram destinados ao mercado internacional. Dentro desse volume, cerca de dois terços vêm dos Estados Unidos, que, hoje, é o mercado externo mais relevante para nós. O mercado norte-americano tem uma tradição muito forte de trabalhar o áudio como parte estratégica da ideia criativa, e isso acaba abrindo espaço para colaborações interessantes. A atuação internacional não tem somente crescido, como tem se dispersado bastante. Recentemente, fizemos projetos para a Alemanha, Espanha, Holanda e Inglaterra, além de trabalhos para Singapura e Índia. Múltiplos idiomas que nos pediram soluções distintas, mesmo na universalidade que é a música. Ao mesmo tempo, o Brasil continua sendo um mercado fundamental para a Canja. Muitas das ideias mais interessantes nascem aqui e acabam circulando globalmente através dos festivais e da própria dinâmica das agências internacionais. Hoje, há equilíbrio saudável. Os projetos nacionais seguem muito relevantes, com riqueza e insights únicos daqui, enquanto o mercado internacional amplia nosso alcance e traz novas trocas culturais e criativas.
M&M – Na sua opinião, quais características da produção brasileira mais de destacam no mercado internacional?
Resende – O fator mais relevante é a criatividade aliada com a capacidade de execução. O Brasil se destaca muito nisso, não à toa somos um dos mercados mais relevantes do mundo mesmo sendo um país subdesenvolvido. Custo nunca foi o fator determinante para trabalharmos em projetos no exterior, temos consciência de mercado e fazemos parte das associações que têm a régua para nossa atividade continuar sendo sustentável em tempos de IA, fusões e reduções de custos.
M&M – Existem dificuldades que ainda limitam o crescimento internacional das produtoras brasileiras?
Resende – O maior deles, sem dúvida, é a competitividade e nível exigido de entrega. Ter um processo 360º, prêmios globais e uma marca robusta é apenas o começo. É comum entrarmos em concorrências em que também participam compositores de cinema consagrados, produtores musicais de artistas globais e estúdios icônicos. Outra coisa é entender a temperatura, cultura e workflow de cada mercado em específico. Nos Estados Unidos, por exemplo, é comum que a produtora de áudio seja contratada para apenas uma etapa do som (sound effects, trilha ou mixagem), algo diferente do que acontece aqui, onde a produtora é responsável pela entrega total do áudio. No Brasil, há uma grande interação e sinergia entre o diretor criativo de áudio e o diretor do filme. Por lá, o processo é outro. É a agência que faz a intermediação nas aprovações e os criativos têm bastante crivo em relação ao áudio. Já em alguns países da Europa, a decisão da produtora de áudio ou trilha original já cabe bastante ao diretor do filme.
M&M – Quais são os planos da produtora para os próximos anos? Há novos mercados, formatos ou tecnologias no radar?
Resende – Nos próximos anos, vamos continuar fortalecendo a presença internacional da Canja, ampliando relações com agências e clientes em mercados onde já atuamos, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, mas também explorando novas oportunidades em outras regiões. Ao mesmo tempo, vamos continuar nos mantendo como produtora consistente e de referência aqui no Brasil. É o que fortalece nossa identidade e nos dá orgulho. A velocidade e o dinamismo do mercado local são difíceis de igualar e exigem uma capacidade constante de adaptação. Acompanhar esse ritmo acaba sendo saudável, porque nos obriga a nos reinventar o tempo todo. Também seguimos atentos à evolução das ferramentas baseadas em inteligência artificial. Elas devem transformar bastante a forma como experimentamos e produzimos som, porém, acreditamos que o diferencial continuará sendo a capacidade humana de escolher, editar e dar intenção ao que é criado.