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Sua agência já discutiu inclusão transgênero?

Publicitários promovem o primeiro curso de conteúdo digital para pessoas trans; iniciativa amplia discussão sobre os desafios encontrados dentro e fora do mercado

Luiz Gustavo Pacete
17 de agosto de 2016 - 15h01

trans

Curso de conteúdo digital para profissionais trans, que ocorreu em 5 de agosto, em São Paulo

Do lado das marcas, a discussão sobre diversidade tem avançado. Da parte das agências, o assunto também está na pauta. Porém, a abordagem é muito mais teórica do que prática. Exemplo: encontrar profissionais transgêneros atuando no mercado é um desafio. Pensando em elevar essa discussão, um grupo de publicitários decidiu partir para ações concretas ao realizar um curso de conteúdo digital para pessoas trans.

O publicitário Ian Black, da agência New Vegas, em parceria com Luzinha Noleto e colaboração de Camila Gadelha, da Artplan, Pedro Jansen, da Flag e Pedro Perurena e Thais Fabris, do coletivo 65/10, realizaram um curso no início do mês para vinte profissionais trans. “A questão da representatividade vem sendo muito falada, mas pouco praticada. Só acontece a mudança quando existe ocupação – ou seja, mais mulheres, negros, gays e transgêneros trabalhando nas agências e nos clientes”, diz Ian Black.

Os anunciantes vêm ampliando a discussão sobre inclusão transgênero. Na semana passada, a Nike apresentou uma campanha celebrando a carreira do atleta norte-americano Chris Moiser, primeiro transgênero a ingressar a equipe masculina dos EUA. Em março, no Dia da Mulher, a L’Oréal Paris escalou a modelo trans Valentina Sampaio como representante feminina.

“Uma forma de ajudar nesse processo é compartilhando o conhecimento e facilitando o acesso através da capacitação desses profissionais. Algumas agências já me procuraram para saber como ajudar, inclusive oferecendo oportunidades de trabalho”, diz Black. De acordo com Thais Fabris, fundadora do coletivo 65/10, o curso é uma quebra de paradigma por que desconstrói o argumento de que não há profissionais transgêneros disponíveis no mercado. “Se a questão é qualificação, vamos qualificar. Não adianta ficar sentado reclamando. O mercado precisa dessas pessoas, seja um trans, um negro, um gay, o mercado precisa de diversidade”, diz Thais.

A publicitária explica que existe dificuldade de acesso dos transexuais ao mercado. “Eles enfrentam preconceitos e dificuldades em várias áreas, até para ir a um médico é difícil. Imagine em uma entrevista de emprego numa agência. Eu já passei por situações constrangedoras, imagine um trans. É uma questão de trato e sensibilidade”, diz Thais.

“Em 2016, ainda lutamos por lugares que deveriam ser ocupados por todos”

renatabastos

Renata Bastos

Um exemplo entre tão poucos, Renata Bastos é produtora de moda na agência Lema, área em que ela trabalha desde os quinze anos. Ela foi uma das participantes do curso promovido para trans. Nesta entrevista, Renata fala sobre sua experiência no mercado e os desafios inerentes ao tema.

Meio & Mensagem – O que você acha de iniciativas como essa recente do curso de conteúdo digital para trans?
Renata Bastos – Acho maravilhoso, mas seria incrível se fosse para todos, pois em 2016 ainda estamos lutando por lugares que já passaram do tempo de estar ocupados por todos sem restrição de gênero, sexo, cor. Todos esses rótulos que ainda estão inventando para tentar explicar algo que se chama ser humano. Mas já que ainda lutamos por sermos aceitos, creio que é uma semente que ainda vai se espalhar em várias áreas.

M&M – A discussão sobre inclusão não se restringe a um grupo, ela serve para várias minorias, mas, especificamente no caso de profissionais trans onde mora o preconceito e as dificuldades em relação ao mercado publicitário?
Renata – Ainda existe um grupo que prefere colocar as pessoas em subcategorias. Ainda lutamos para mulheres terem os mesmos salários que os homens, por negros não serem apenas a ‘working class’ , por trans não serem apenas prostitutas, temos todos sonhos iguais, queremos realizá-los. Não somos menores que ninguém e sim, podemos ter escolha, podemos ter o livre arbítrio. As pessoas ainda acreditam nas lendas de que ‘trans é ladra’, que é traficante, que vai te cortar com um gilete, que vai te passar HIV. Vivemos em 2016 uma grande ignorância pública e generalizada .

M&M – Qual a sensibilidade, o cuidado e a atenção que as agências devem dar ao tema?
Renata – Durante o curso, fiquei sabendo de empresas que quando selecionam seu funcionário, não pedem fotos, não querem saber sexo, idade, cor, nada que vai mudar a escolha do profissional em questão. Nas agências temos que lembrar que trabalhamos com o público, com a sociedade, com o que está nas ruas no que acontece agora, e que sim temos muitos nichos nessa sociedade. Olha que bom poder ter a visão de cada um para levar essa experiência para seu cliente, para seu público alvo. Ainda mais hoje em dia em que as pessoas estão olhando tanto para o ‘pink money’. O nosso cliente quer estar em alta se mostrar jovem, antenado…

M&M – Há algo mais que você queira acrescentar sobre o tema?
Renata – Queria ressaltar que ser trans não me diferencia de nenhuma pessoa, sempre lutei muito pra não me rotularem por ser uma, mas hoje entendo que ainda precisamos dar a cara e mostrar quem somos, ainda existem trans que precisam saber que a felicidade e os sonhos estão aí para todos, que estamos aqui para dar certo.

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