Escândalo na Fifa envolve marketing

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Escândalo na Fifa envolve marketing

Investigação que prendeu dirigentes da entidade aponta propinas na Libertadores, Copa do Brasil e Copa América e implica Traffic, TyC e Full Play

Felipe Turlao
27 de maio de 2015 - 7h30

Atualizada às 8h47

Em colaboração com a Justiça dos Estados Unidos, autoridades policiais da Suíça conduziram uma operação na manhã desta quarta-feira, 27, em Zurique, para prender executivos do futebol que se reuniam para um evento da Fifa. Dentre eles, José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Os dirigentes estão na mira de uma investigação do FBI, a polícia federal americana, que os acusa de corrupção generalizada nas últimas duas décadas, especialmente envolvendo escolha das sedes da Copa do Mundo em 2018 (Rússia) e 2022 (Catar).

As prisões foram decretadas por uma corte federal do Brooklyn, Nova York, que informou em comunicado que os valores desviados no esquema seriam de até US$ 150 milhões.

Os presos, inclusive Marin, podem ser extraditados para os Estados Unidos a qualquer momento. Eles já estão na condição de réus.

Outros dirigentes esportivos detidos na Suíça foram Jeffrey Webb (presidente da Concacaf, entidade que comanda o futebol da América Central e Caribe), Eugenio Figueredo (ex-presidente da Conmebol, federação da América do Sul), Jack Warner (federação de Trinidad e Tobago), Eduardo Li (Costa Rica), Julio Rocha (Nicarágua), Costas Takkas, Rafael Esquivel e Nicolás Leoz (ex-presidente da Conmebol).

Em comunicado, emitido na manhã desta quarta-feira 27, a FIFA disse que é a parte prejudicada nas investigações e está cooperando com a Justiça. “Ficamos satisfeitos que a investigação está sendo levada com seriedade para o bem do futebol e acreditamos que ela reforça as medidas já tomadas pela entidade para combater a corrupção”

 

Propina na Libertadores e Copa do Brasil

Além da escolha das sedes das Copas, a investigação aponta pagamento de propina e comissões em cima de propriedades de marketing e direitos de transmissão de competições organizadas pela Concacaf (federação de futebol da América Central e Caribe), Conmebol (que cuida do esporte na América do Sul) e CBF.

Assim, além dos dirigentes de futebol, estão sendo acusados profissionais ligados ao marketing esportivo e mídia. Dentre eles José Hawilla, dono da Traffic. O executivo, inclusive, é considerado réu confesso, já que foi condenado nos Estados Unidos em 12 de dezembro de 2014 por lavagem de dinheiro e obstrução de Justiça e concordou em pagar multa  de US$ 151 milhões. Além de Hawilla, também já se declararam culpados anteriormente o norte-americano Charles Blazer, ex-secretário-geral da Concacaf, e Daryan e Daryll Warner, filhos do ex-vice-presidente da Fifa Jack Warner.

Segundo um comunicado emitido nesta quarta-feira, 27, pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o caso, os eventos esportivos que teriam sido parte do esquema de pagamento de propinas e comissões são Taça Libertadores, Copa América (organizadas pela Conmebol), Copa do Brasil (CBF), Eliminatórias da Concacaf para a Copa do Mundo, Copa Ouro e Copa dos Campeões da Concacaf (todas das Concacaf). 

O comunicado também cita "alegados esquemas relacionados a pagamento e recebimento de comissões e propinas em conexão com o patrocínio à CBF por uma grande marca de sportswear dos Estados Unidos (NR: a Nike não é citada, mas é a fornecedora de uniformes da seleção brasileira), a escolha da sede da Copa de 2010 e a eleição presidencial da Fifa em 2011".

Além de Hawilla, estão na mira da Justiça americana outros executivos do setor de marketing esportivo e mídia da região, como Alejandro Burzaco, presidente do canal esportivo argentino TyC, Aaaron Davidson, presidente da empresa de marketing esportivo Traffic Sports nos Estados Unidos, companhia que comercializa direitos de transmissão das competições da Concacaf (Davidson também é dirigente da liga de futebol NASL, concorrente da mais tradicional MSL, e na qual joga o time Fort Lauderdale Strikers, que tem Ronaldo Nazário entre os sócios). 

Também são investigados Hugo Jinkis e Mariano Jinkis, donos da Full Play Group, contratada da Conmebol para comercializar direitos de transmissão de competições da região, e o intermediário José Margulies, que é brasileiro e também conhecido como José Lázaro.

"Eles (os executivos), sistematicamente, pagaram mais de US$ 150 milhões em propinas e comissões para obter direitos lucrativos de mídia e marketing em torneios de futebol", aponta comunicado. "Duas gerações de dirigentes de futebol abusaram de suas posições de confiança para ganho pessoal, através de aliança com executivos de marketing inescrupulosos que barraram concorrentes e mantiveram contratos lucrativos para si mesmos através do pagamento sistemático de propinas", conclui o texto.

Palavras duras

"O processo alega corrupção sistêmica e profunda nos Estados Unidos e no exterior", afirmou no comunicado do Departamento de Justiça Loretta Lynch, que é General Attorney daquele país. O cargo é de extrema relevância no país, similar ao de ministro da Justiça no Brasil, embora suas funções sejam executadas por aqui também pela Procuradoria Geral da República e a a Advocacia Geral da União.

"O esquema envolve ao menos duas gerações de dirigentes esportivos que, como se alega no processo, abusaram de sua posição de confiança para conseguir milhões de dólares em comissões e propinas. Isso ocasionou inúmeras vítimas, desde as ligas juvenis e países em desenvolvimento, que poderiam se beneficiar das receitas geradas pelos direitos comerciais, aos fãs em casa e ao redor do mundo, cujo apoio ao futebol torna esses direitos tão valiosos", escreveu Loretta. 

Todos os réus:

Alejandro Burzaco, Argentina
Aaron Davidson, Estados Unidos
Rafael Esquivel, Venezuela
Eugênio Figueredo, Uruguai
Hugo Jinkis, Argentina
Mariano Jinkis, Argentina
Nicolás Leoz, Paraguai
Eduardo Li, Costa Rica
José Margulies (José Larazo), Brasil
José Maria Marin, Brasil
Julio Rocha, Nicarágua
Costas Takkas, Reino Unido
Jack Warner, Trinidad and Tobago
Jeffrey Webb, Ilhas Cayman
Charles Blazer, Estados Unidos (réu confesso)
José Hawilla, Brasil (réu confesso)
Daryan Warner, Trinidad e Tobago (réu confesso)
Daryll Warner, Trinidad e Tobago e EUA (réu confesso)

Além das empresas Traffic Sports International e Traffic Sports USA, também rés confessas.

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