Moscou: de cidade histórica a capital do futuro

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Moscou: de cidade histórica a capital do futuro

Projeto de smart city começou logo após o anúncio da sede da Copa deste ano e reconfigurou a capital urbana, incluindo parcerias com anunciantes

Igor Ribeiro
15 de junho de 2018 - 7h00

Além das diversas seleções e seus atletas, das festas e das torcidas, uma grande atração quer se revelar para o mundo a reboque da Copa do Mundo: a cidade de Moscou. A capital russa vem atravessando um intenso processo de transformação que se iniciou logo após o anúncio da Rússia como sede da Copa deste ano, ainda em 2011.

 

Crédito: Divulgação

Hoje, a cidade é muito diferente daquela e uma boa parte disso se deve ao Moscow Smart City Lab, um dos principais projetos de inovação e desenvolvimento de tecnologia da capital. À frente da iniciativa desde 2016, Eldar Tuzmukhametov já estava familiarizado com o programa graças ao Active Citizen, portal de engajamento cívico do qual havia sido consultor. Hoje, o hub está migrando para blockchain, após ter sua vulnerabilidade questionada — crackers russos, é bom lembrar, são reconhecidos por seu talento para burlar as mais rigorosas seguranças digitais.

Em entrevista ao Meio & Mensagem, o executivo comenta essas e outras melhorias, como a reurbanização do centro, a tecnologia nos estádios e o sistema de segurança em vídeo de Moscou, que conecta 160 mil câmeras (para efeito de comparação, Rio de Janeiro e São Paulo têm pouco mais de três mil câmeras conectadas, no total).

Eldar Tuzmukhametov, head do Moscow Smart City Lab (Crédito: Divulgação /Andrey Nikolskiy)

Meio & Mensagem — Quais foram os principais objetivos do Moscow Smart City Lab em sua implementação?
Eldar Tuzmukhametov — Em 2011, quando começamos, Moscou tinha no máximo cinco serviços públicos online. Para todo o restante era preciso ir a escritórios públicos com papéis para fazer registros, pegar carimbos, assinar… Hoje, 75% dos serviços públicos são digitais, 250 no total, acessíveis por desktop ou celular. Investimos cerca de US$ 800 milhões anualmente em desenvolvimento de ICT (tecnologia de informação e comunicação) para Moscou. O centro da cidade, por exemplo, costumava ter grande aglomeração de pedestres e carros e faltavam vagas de estacionamento. Fizemos um grande redesign da região amparados em dados. Hoje, as calçadas são, em média, duas vezes mais largas e, logo, as ruas duas vezes mais estreitas. Apesar disso, a capacidade de tráfego aumentou até 25%, graças à otimização das ruas, eliminando afunilamentos e diminuindo o número de mudanças de faixas. Criamos muitos corredores, passarelas, semáforos inteligentes. E hoje temos duas vezes mais gente trabalhando no centro. Surpreendeu até mesmo a nós, pois são políticas voltadas ao pedestre e a expectativa era que a velocidade dos carros diminuísse, mas não foi o que ocorreu. Mais gente se desloca pela cidade em bicicletas e antes nem havia lugares próprios para estacioná-las. Hoje, além do sistema de ride sharing, o usuário pode planejar sua viagem integrada a metrô, ônibus e estações de devolução de bikes, tudo por meio de um só app.

Sobre a Copa do Mundo, há uma grande preocupação com terrorismo e hooligans, entre outras questões de segurança. Como Moscou tem endereçado esses problemas?
Temos 160 mil câmeras espalhadas pela cidade num sistema único de monitoramento, usado para manutenção do município e prevenção de crimes. Qualquer fiscal tem acesso a qualquer câmera a partir de seu dispositivo para verificar se tudo está bem. Nossas pesquisas mostram que as câmeras foram muito bem recebidas pela maioria da população, como uma medida importante para prevenir acidentes e combater criminalidade, que, de fato, chegou a cair. É uma cidade muito mais segura do que há dez anos. Além disso, nossos times de resgate estão conectados em uma única plataforma e cada um deles tem um tablet no qual recebe imediatamente informação sobre acidentes, incluindo imagens em tempo real de câmeras. A chegada do resgate hoje ocorre em menos de sete minutos, quando antes a média era acima de nove. Esses dois minutos e meio podem ser o suficiente para salvar uma vida.

Como havia suspeitas de que a plataforma era suscetível a invasões, iniciamos com ela um teste de blockchain para enquetes públicas, para saber se poderíamos contar com os próprios cidadãos para fazer parte da rede distribuída, garantindo a transparência dos processos e sua verificação. Deu certo e agora nossa meta é transportar todo o banco de dados para blockchain

Apesar do Smart City Lab não ser focado em Copa, vocês colaboraram com projetos de tecnologia nas duas arenas de Moscou que estão no torneio. Pode comentar um pouco sobre eles?
Acredito que, primeiramente, uma das grandes diferenças que temos neste caso é que, em muitas cidades, principalmente as menores, arenas para a Copa podem ficar sem muita utilidade posteriormente, porque não têm demanda. No nosso caso, não, já que temos muitos times grandes em Moscou que deverão usar as estruturas. Foram, portanto, desenvolvimentos perfeitos para o Mundial, mas que também envolvem diversos projetos para a cidade em geral. A arena Luzhnik foi totalmente renovada para a Copa do Mundo e outro estádio de Moscou é um projeto completamente privado, de um dos mais tradicionais e populares times da cidade, o Spartak. Algo específico que trabalhamos para a Copa foi facilitar, para ambas as arenas, melhorias de wi-fi, assim como nas fan zones, na Vorobyovy Gory (onde está uma das Fifa Fan Fest), hotéis, transportes públicos, shopping centers e outras áreas de interesse. Criamos uma das maiores redes públicas de banda larga do mundo. E um wi-fi de alta densidade foi implantado nos estádios do Spartak e Luzhnik para a Copa, assim como para as áreas de fan fest. Segundo as exigências da Fifa, a rede deve oferecer a possibilidade de uso simultâneo de 15% do total do número de visitantes com uma banda larga de pelo menos 2Mbps por segundo. Também testamos, junto a algumas operadoras de mobile, redes 5G para o torneio, que ainda têm muitas questões técnicas. As redes 4G, no entanto, estão muito evoluídas e bem distribuídas. Também temos muito mobiliário equipado com QR Codes, para informar sobre lugares, prédios, monumentos, trajetos. Toda navegação pela cidade está traduzida em inglês, incluindo as locuções de estações do metrô e outros avisos.

Houve muitas parcerias público-privadas para obras e investimentos na cidade nesse ciclo? Como isso ocorreu?
Certamente. O CCTV (sistema de câmeras), por exemplo, foi construído por uma empresa de telecom, que investiu nos aparelhos, canais de comunicação e hardware. Colaboramos com eles em termos legais, para agilizar as aprovações para instalação. E ela também usa essa infraestrutura instalada para entregar fibra ótica de alta velocidade para assinantes de seus serviços, então é uma relação ganha-ganha. Hoje temos cerca de 99% da cidade abastecida por banda larga rápida graças a esse programa. Ao mesmo tempo, a empresa só recebe pelo serviço se garantir a integridade, manutenção e a qualidade das imagens. A construção da rede wi-fi obedeceu o mesmo princípio e recebeu investimento de outra telecom, mas também tem de garantir o funcionamento para manter o contrato, que prevê a oferta de uma pequena publicidade a quem quiser internet gratuita. Também trabalhamos muito com dados e temos um departamento só para gerir isso, que compartilha informações com empresas na cidade. Fornecemos, por exemplo, ao Yandex — que é tipo um Google russo — dados de transporte público, como horários, GPS, rotas… Hoje, todo usuário pode usar o sistema de busca para saber sobre o tempo de espera de um ônibus ou quanto tempo vai demorar determinado trajeto. Outro exemplo é que, em 2015, começamos um programa de estacionamento pago na cidade para reduzir o número de veículos particulares no centro e estimular o uso de transporte público. Fizemos parcerias com empresas de compartilhamento de carro para oferecer a seus motoristas estacionamento gratuito nessa área. Para um motorista comum parar no centro custa por volta de US$ 3 a hora, o que é bastante caro para a Rússia. Mas se for um serviço de veículo compartilhado, não custa nada. Hoje, 5% dos cidadãos já usam carro compartilhado e dezenas de empresas operam esse sistema na cidade.

Ainda que a Rússia não seja inteiramente afetada pelo GDPR, privacidade de dados tem sido uma preocupação crescente em todo o mundo. Como a cidade tem considerado essa questão?
Basicamente, desde o início do projeto, uma das decisões era centralizar o desenvolvimento de dados. Isso era um grande desafio. Pense nas escolas, por exemplo: cada uma tinha um servidor próprio e é óbvio que seria difícil reunir tudo isso. Mas caminhamos nesse sentido e centralizamos todos os dados públicos numa só base, na qual a interferência humana é mínima. Levamos isso a tal ponto que nossa plataforma local está muito mais digitalizada do que a federal. Surpreendentemente, agora que está tudo centralizado, nosso próximo passo será a descentralização. Na plataforma Active Citizen, os cidadãos de Moscou podem decidir sobre uma série de assuntos públicos, desde o nome da nova estação de metrô, apoio a novas leis e até avaliação dos resultados de projetos. Como havia suspeitas de que a plataforma era suscetível a invasões, iniciamos com ela um teste de blockchain para enquetes públicas, para saber se poderíamos contar com os próprios cidadãos para fazer parte da rede distribuída, garantindo a transparência dos processos e sua verificação. Deu certo e agora nossa meta é transportar todo o banco de dados para blockchain em menos de dez anos. Então, primeiro nós centralizamos todos os dados para ter melhor controle e proteção, e na próxima década vamos descentralizá-los, garantindo transparência e verificação dos processos.

Em diversos eventos de grande impacto em comunidades e cidades, há uma preocupação com legado. Acredito que para Moscou, além disso, ainda tem uma questão de inclusão, já que não raro investimento em tecnologia é caro e seu acesso pode ser desigual entre a população. O que o Smart City Lab faz para garantir legado e desenvolvimento acessível?
A consequência direta da Copa do Mundo são, claro, os novos estádios. E Moscou é uma cidade grande, temos vários times com muitos torcedores, então isso deverá evitar qualquer problema sobre pouca utilização dessas instalações no futuro. Outra coisa é que o projeto para a cidade criou uma estrutura de banda larga que tornou a nossa internet uma das mais baratas da Europa. Mesmo pessoas com baixa renda podem se conectar e usufruir dos sistemas e serviços públicos. Para quem não tem celular ou não confia no digital, ou mesmo idosos menos adaptados à tecnologia, todos esses serviços também estão disponíveis em centros “one-stop-shop”, nos quais os cidadãos podem fazer tudo num só lugar, como renovar a habilitação, tirar um passaporte… Também investimos muito em educação, e não só para crianças, mas inclusive mais velhos. Nos mesmos centros multifuncionais, há salas equipadas com terminais onde são realizados cursos para adultos sobre internet, letramento digital e outros assuntos tecnológicos, para que eles se sintam confortáveis para usufruir das novidades. São iniciativas muito progressivas mas, ao mesmo tempo, tivemos o cuidado de tentar incluir diversas camadas da população nesses processos.

*Crédito da imagem no topo: Clive Rose/GettyImages

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