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Projeto reforça representatividade no conteúdo jornalístico

Juliana de Faria, criadora do Think Olga, avalia trajetória da ferramenta "Entreviste uma mulher", que estimula diversidade de fontes na pauta de veículos brasileiros

Thaís Monteiro
8 de março de 2019 - 6h00

Em novembro de 2018, o Financial Times, jornal norte-americano voltado à economia, lançou um bot para prover informações sobre a diversidade de fontes entrevistadas pela empresa. Denominado “She Said He Said”, o bot alerta os jornalistas se suas reportagens usam muitos homens como fontes. O jornal constatou que apenas 21% dos entrevistados em suas matérias eram mulheres.

 

O Monitoramento Global de Meios constatou que, em 2015, mulheres eram 19% dos especialistas entrevistados em matérias jornalísticas (GMMP(Crédito: Reprodução/Pexel)

A ferramenta foi criada para tentar reverter o quadro e atrair mais leitoras à publicação, pois, segundo pesquisas do veículo, existe uma correlação entre o engajamento entre leitoras mulheres e fontes do gênero — e a área econômica é uma indústria dominada por homens.

Além dessa iniciativa, o Financial Times usa, desde 2017, o JanetBot, outra tecnologia criada para identificar mulheres em imagens da homepage do site do veículo. Também segundo a publicação, as mulheres são mais propensas que os homens a clicar em uma matéria ilustrada por uma mulher e menos propensas a clicar em uma imagem somente com homens. O jornal também se esforça a incluir mais colunistas mulheres. Entre março e agosto do ano passado o número subiu de 20% para 30%.

No Brasil, não há iniciativas do gênero entre a maioria dos grandes jornais e editoras de revistas. Nesta sexta-feira, 8, está sendo lançada a plataforma Celina pela Infoglobo, projeto que envolve site, impressos e eventos e convida toda a redação a trabalhar em prol da diversidade.

Além deste, os projetos mais próximos desse tipo de empreitada para equidade de fontes são criados por ongs ou grupos de intelectuais. O Entreviste Uma Mulher, projeto criado em 2015 pela ong feminista Think Olga, visa facilitar o trabalho do jornalista oferecendo uma planilha com uma série de mulheres de diferentes áreas, que possam contribuir, como fontes, para matérias. O arquivo, disponível no Google Drive, pode ser acessado por qualquer pessoa e tem curadoria das mulheres do Think Olga para oferecer autenticidade às fontes. O Think Olga também é parceira da lista Entreviste Um Negro, criada pela jornalista Helaine Martins, no final de 2015, inspirada no Entreviste Uma Mulher.

Um grupo de cientistas sociais, comunicadoras, historiadoras e filosofas criou, em 2017, o Mulheres Também Sabem, inspirado no projeto estadunidense “Woman Also Know”, em que especialistas nessas e áreas correlatas podem se inscrever e organizadores de eventos, palestras e jornalistas podem buscar por área ou termos específicos. Também nessa seara, o Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras, da UFRJ, organizou também em 2017 um catálogo disponível gratuitamente online com o perfil de 180 profissionais negras de campos e regiões variadas.

Juliana de Faria, fundadora do Think Olga, teve a ideia para o Entreviste Uma Mulher a partir de pesquisas como a do Financial Times. “A ideia surgiu a partir de contatos que eu tive com algumas pesquisas que mostravam que as mulheres não eram nem 25% das fontes em matérias. Eu mesma sou jornalista e sei que é difícil achar fonte. Então quando nós criamos essa ferramenta, nós empoderamos mulheres no sentido de que elas podem ser fontes, podem falar sobre temas em que são especialistas, nas áreas que elas estudam e trabalham. O projeto fala muito com o que é o Think Olga. Mais do que apontar o problema, nós queríamos trazer uma solução”, conta. A pedido do Meio & Mensagem, ela faz um balanço dos quatro anos de projeto, o mais antigo entre os citados, e como o mercado da informação lida com essa questão:

Juliana teve passagens pelo Jornal da Tarde, na Editora Abril e também é co-fundadora do Think Eva (Crédito: Divulgação)

Meio & Mensagem — Desses 4 anos para cá, você consegue notar alguma diferença na quantidade de mulheres e negros ouvidos em matérias?
Juliana de Faria — Sim, eu consigo sentir alguma diferença, mas eu falo da minha percepção, porque nós não temos uma medição de impacto. Mas eu acho que esse trabalho que o Think Olga e outros grupos estão fazendo ao apontar essa necessidade de ter uma maior presença feminina não só como fonte, mas como jornalista, como colunista, em funções importantes, com o feminismo ganhando força, trouxe alguma diferença. Não consigo te falar que esse problema foi totalmente resolvido, mas eu sinto muito jornalistas com cuidado e olho aberto para isso e uma vontade de mudança.

O quão importante é ter essa equidade de vozes nos veículos?
É importante ter essa equidade de vozes nos veículos porque só assim nós conseguimos de fato fazer um desenho completo de cenários. Se apenas um grupo homogêneo está contanto histórias de pessoas diferente deles, essas histórias podem sair com um viés. Se a pessoa não tem uma bagagem ou uma experiência… Não significa que só mulher pode escrever sobre mulher e só homem pode escrever sobre homem, mas é importante que nós tenhamos participação dessas pessoas e que essas pessoas podem contar suas histórias, medos e ansiedades com suas próprias vozes. Isso é de extrema importância.

Acha que o mercado dá a devida importância dessa discussão?
Me parece que não. Eu acho que tem grupos de jornalistas mulheres, jornalistas feministas que são parceiros e aliados que sim, continuam batendo nessa tecla, fortalecendo esse debate, mas as empresas de mídia são espaços que esse debate não está sendo bem aceito. Eu acho que isso anda meio em paralelo. Tem pessoas que entendem a importância e abraçam a necessidade desse debate e fortalecem essa pauta e tem aqueles que ignoram.

Como os jornais e editoras de revista podem trabalhar essa equidade em seus entrevistados/conteúdos? Há espaço para evolução?
Primeiro eles devem fazer um trabalho de viés inconsciente e, de fato, estar atento a quem são as fontes que eles entrevistam, entender que é necessário buscar pessoas de background diferentes, de vivências diferentes, que representem grupos diferentes. Existe espaço para evolução sim, mas esse olhar precisa ser trabalhado, apurado, ser educado. Então debates sobre diversidade em ambientes de trabalho são de extrema importância e trazer parceiros para capacitar e educar a equipe.

**Crédito da imagem no topo: Reprodução/Think Olga

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