O que Elon Musk denuncia sobre o futuro das redes sociais

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O que Elon Musk denuncia sobre o futuro das redes sociais

Empresários aproveitam insatisfação social com restrições a liberdade de expressão e em relação as constantes denúncias às plataformas vigentes para empreender no mercado

Thaís Monteiro
1 de abril de 2022 - 6h00

Na semana passada, Elon Musk, empresário fundador da Tesla e da fabricante de sistemas e transporte espacial SpaceX, aterrisou suas intenções em outro mercado: o de redes sociais. O empresário usou seu perfil no Twitter para criticar a plataforma, acusando-a de vetar a liberdade de expressão. Ao ser questionado por um usuário se consideraria construir uma nova plataforma de mídia social com um algoritmo de código aberto na qual a liberdade de expressão teria prioridade, o CEO respondeu: Estou pensando seriamente nisso. A interação, embora breve, é apenas um exemplo do descontentamento de empresários com as restrições impostas pelas plataformas vigentes e de empreendedores buscando espaço diante da insatisfação do público em relação aos escândalos envolvendo as big techs, como Meta.

 

(Crédito: Kathy Hutchns/Shutterstock)

Apesar da publicação de Elon Musk parecer descontextualizada, as críticas do bilionário ao Twitter são antigas. Em 2018, ele fez uma série de publicações sobre as ações da Tesla, o que causou tensão e mudanças irregulares no mercado. Na ocasião, o executivo teve que deixar o conselho da montadora e a Comissão de Valores Mobiliários exigiu que o seu uso do Twitter fosse supervisionado por advogados da Tesla. Em 2021, novamente uma série de tweets de Musk sobre vender sua participação da Tesla fez os valores das ações alterarem. O empresário argumenta que essa supervisão inibe sua liberdade de expressão.

Head de marketing e comunicação na Galena e de uma longa trajetória trabalhando com o mercado de redes sociais, Inaiara Florêncio faz um alerta para o ponto que concerne a liberdade de expressão. Segundo ela, alguns usuários utilizam essa crítica para justificar a restrição ou o cancelamento decorrente de publicações que expõe discursos de ódio contra grupos politicamente minoritários. “A discussão importante é qual o limite para expressar uma opinião ou ideia, e o quão essa ação é considerada uma punição seletiva e subjetiva. A liberdade de expressão vem do pluralismo de opiniões, mas também da abertura ao diálogo. É preciso mais profundidade na interpretação do respeito às leis e constituições versus interesses de figuras públicas e empresas privadas, afinal a linha é muito tênue”, adverte.

Uma plataforma social criada por Elon Musk deve ser, assim como as demais redes, um espaço de conexão entre pessoas de interesse em comum, compartilhamento de informações, conhecimentos e experiências, e que, enventualmente, venha a formar comunidades que interagem entre si. Para Inaiara, as comunidades funcionam como uma moeda de troca, mesmo que não necessariamente fomentem concordância e harmonia. Pensando em como se desenharia uma rede fundada pelo bilionário, a executiva acredita que as trocas seriam mais distantes de pontos como diversidade, inclusão, equidade e questões voltadas à movimentos sociais de maneira mais genuína e sem interesses individuais atravessando o debate. “Afinal, falar de marte é algo bem distante na vida de boa parte do mundo”, pontua.

Se Musk empreender na jornada de se tornar fundador de uma plataforma social, ele fará parte de um grupo de indivíduos que saíram das maiores redes para criar um espaço próprio onde pudessem defender seus ideais. Fazem parte desse grupo o ex-presidente Donald Trump, que tem a Truth Social, e o CEO da MyPillow, Mike Lindell, que criou o Frank Speech. Outras redes, como Parler, Gab e Gettr têm ganho atenção de conservadores sob o mesmo discurso referente a liberdade de expressão.

Porém, as críticas do empresário e esse surgimento de plataformas paralelas denunciam um movimento muito maior envolvendo as redes sociais vigentes. Conforme Eric Messa, coordenador do Núcleo de Inovação em Mídia Digital da FAAP, as big techs estão cada vez mais pressionadas a assumir compromissos em relação à regulamentação do que é publicado, o que esbarra na classificação de liberdade de expressão, desinformação, discurso de ódio ou crimes de injúria, difamação ou calúnia.

“Casos como esse, bem como o crescimento de outras redes como Telegram ou o próprio TikTok, apontam que há possivelmente espaço para novas plataformas sociais, especialmente se investirem em nichos comportamentais ou segmentos de perfil de usuários. A segmentação por nichos é uma tendência bem forte e essa pode ser uma aposta de Elon Musk”, indica.

Soma-se a questão da liberdade de expressão a necessidade dos usuários por melhor moderação de conteúdo diante da disseminação de notícias falsas e o crescente desejo entre a população de seguir a carreira de influenciador. As novas plataformas, com menos usuários, possibilitam que novos entrantes escalem seus seguidores. “Nenhuma rede social está protegida de cair em desuso, vide o nostálgico Orkut que foi perdendo espaço para o Facebook. Vivemos a era da TikTokização e vemos um movimento de diversas redes sociais tentando simular seu modelo. Os vídeos curtos nunca foram tão populares, por exemplo”, contribui Inaiara.

Há, ainda, a descrença com as big techs diante das constantes acusações de vazamento de dados, manipulação de informações e descuido com a saúde mental dos usuários, como Frances Haugen, whistleblower da Meta (ex-Facebook Inc.) denunciou em outubro de 2021. No festival South by Southwest deste ano, um painel intitulado “Bem-vindo à utopia subterrânea das mídias sociais” apresentou plataformas menores, mais lentas, que prometem conexão e menos polarização, como o Plant Life App, uma rede social para amante das plantas se conectar, comprar e compartilhar com semelhantes, e o Lips Social Media App, para expressão sexual.

Na Ascend, plataforma criada por David Richeson (foto), o conteúdo publicado é baseado em avaliações da comunidade para que desinformação e violência sejam pontuados negativamente e tenham seu alcance reduzido (Crédito: Thaís Monteiro)

No aguardo para o painel de Tristan Harris, fundador do Center for Humane Technology, um dos criadores do documentário O Dilema das Redes e ex-cientista de computação do Google, o Meio & Mensagem conheceu David Richeson, que criou uma rede social alternativa, a Ascend, e estava no festival absorvendo conhecimento e promovendo seu negócio. David é mais um de vários empreendedores que viram oportunidade na saturação das plataformas de big techs e acredita que há espaço para novos negócios nesse campo.

“Antes do Facebook tinha o MySpace e antes do Google tinha o Yahoo. Se você me dissesse que o Yahoo iria cair, eu ia falar ‘Fala, sério, o Yahoo é incrível! Do que você tá falando?’. As coisas evoluem. Nós todos estamos aqui porque as pessoas estão preocupadas com o dilema social e o que as plataformas estão fazendo com nossa sociedade e, se há uma alternativa, esperançosamente as pessoas vão querer mudar para essa alternativa”, afirmou.

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