O outro lado do Festival

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O outro lado do Festival

No mundo do Cannes Lions, a maior proximidade com os hackathons são as apresentações dos Innovation Lions. Lá quem manda são as demonstrações e a capacidade de contar uma história ao vivo


28 de junho de 2016 - 9h49

Qual é a semelhança entre um festival e um hackathon? Vou arriscar meu palpite: o hackathon está para o café assim como o festival está para o leite, antes da invenção do pingado. É que um nasceu para o outro, só que eles ainda não sabem disso. Um festival é o fim de uma jornada de sucesso, é a celebração coletiva das ideias que nos inspiraram e emocionaram durante o ano. É também a consagração dos talentos excepcionais que as criaram. Acontece necessariamente depois dos fatos. O festival chega no fim da linha.

Um hackathon semeia ideias, é um ritual de origem onde a energia tem que ser adicionada em tempo real e os resultados demonstrados ao vivo. É feito para descobrir potenciais rompimentos, novas definições. O hackathon vem no começo de tudo.

O Cannes Lions, por exemplo, é quando tudo se alinha lá no topo, quando o sarrafo fica definido por mais um ano inteiro. Como disse nossa colega Juliana Constantino, é o Ano Novo da propaganda — quando nos damos um tempo para olhar para trás, criar novos standards e buscar novas ideias. Assim como nossas resoluções de exercícios de Ano Novo, alguns planos funcionam, outros, não. Mas continuamos neste ciclo criativo por mais um tempo, alimentando nossa imaginação e nossa ansiedade.

Já um hackathon, não é dia primeiro, é dia zero. Não abre um ano, talvez abra uma vida toda. Ou pelo menos é assim que os participantes encaram a situação. É um pequeno momento de tudo ou nada, a virada rolando logo ali. É inventar e refletir e construir, tudo ao mesmo tempo.

Peter Thiel, criador do Paypal e investidor em Sillicon Valley, provavelmente discordaria da imagem do pingado. Ele acha que as indústrias criativas gostam de praticar mudanças incrementais, fazendo mais do mesmo com misturas diferentes, escalando horizontalmente soluções semelhantes. Do outro lado, coloca a cultura de startups como criadoras de soluções inéditas por missão e natureza. Para falar dos criativos, em seu livro De Zero a Um, menciona uma suposta redatora de Hollywood vendendo uma ideia nunca antes vista que mistura Jay Z, Hackers e Tubarão: “um rapper superstar junta- se a um grupo de hackers para caçar o tubarão que matou seu amigo”. Sentiu? Segue argumentando que os sistemas de estrelas como Michelin enquadram os maiores chefes do mundo em uma competição tão intensa que quase os leva à loucura. Usa os exemplos para defender que indústrias criativas muito competitivas não se permitem sair fora da caixa.

Pode ser, mas nosso festival é bem mais divertido, já que os próprios chefes decidem qual é o melhor dos melhores pratos que colocamos em suas mesas. Cannes Lions continua em expansão, atraindo cada vez mais participantes da indústria, focando cada vez mais numa definição ampla de criatividade. Muda tão rápido quanto pode, apesar da reclamação de muitos colegas, mas fica cada vez mais interessante.

Agora, é bem verdade que a concentração de energia criativa em um hackathon é enorme, a intensidade e a evolução rápida das ideias são impressionantes. Vale a pena participar de uma dessas festas, onde não cabem fantasmas de nenhuma natureza — tudo tem de ser demonstrado ali mesmo, ou já era. Criatividade correndo solta, numa espécie de jogo de Pokemon onde todas as cartas vão para a mesa. O processo foi configurado para o risco, para a velocidade, para a intensidade. Eles estão ali para desfiar a audiência, não para agradá-la.

No mundo dos festivais, a maior proximidade com os hackathons são as apresentações dos Innovation Lions. Lá quem manda são as demonstrações e a capacidade de contar uma história ao vivo. De novo, o final da história. Mas quem sabe a gente se empolga, perde algumas festas e uma hora faz um hackathon de verdade durante o Festival? Enquanto isso, ficamos com aquela história: três criativos entram em um bar na Riviera, dois pedem rosé e o terceiro pede um café com leite. Os dois primeiros olham indignados para o último e o desafiam: “O que é isso?” Ele reflete um segundo e dispara: “Nada não, só um rosé”.

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