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Um tipo de lugar de privilégio que eu não sabia que existia separava as pessoas que eu tinha conhecido pelos livros e entrevistas do mundo onde eu habitava. São Paulo era cosmopolita, mas não era inclusiva, não acolhia


19 de junho de 2018 - 10h48

Crédito:Grens87/Qvasimodo/Istock

Novembro ainda era um mês frio em 1996. O avião desceu em Guarulhos vindo de Curitiba, eu havia morado lá por um tempo, trabalhando em uma campanha eleitoral onde mais de cem pessoas, de todos os lugares do País, de diferentes idades e habilidades, andavam pelos corredores de um antigo cortiço discutindo ideias, trocando opiniões, falando alto, se emocionando, reclamando, gargalhando, brigando. Não era incomum encontrar pessoas chorando aqui e ali depois de uma discussão que perdeu o rumo e terminou aos gritos. Na verdade, naquele tempo, com quase dez anos em agências de publicidade e empresas de pesquisa, eu não conhecia lugares onde gritos não fossem um lugar-comum.

Quando cheguei em São Paulo naquela noite de novembro não tinha ninguém me esperando no aeroporto. Eu não conhecia praticamente ninguém aqui, mas tinha certeza de que esse era o lugar onde eu queria viver. A campanha eleitoral de Curitiba foi onde ganhei o dinheiro que precisava para chegar aqui. Naquele momento, eu só pensava que cada hora sem dormir trabalhando me deixava mais perto de São Paulo, daquelas pessoas incrivelmente talentosas que escreveram os livros que eu li na faculdade e que tinham criado aquelas ideias incríveis que eu via nos comerciais e que viviam daquele jeito maravilhoso que elas descreviam nos artigos e entrevistas. Quase todas elas já tinham visto neve, esquiado, sentado pra conversar debaixo da Torre Eiffel, assistido o Bolshoi, conhecido o Parque Güell, tomado café no mesmo lugar que a Simone du Beauvoir.

O apartamento onde eu morei nos primeiros meses tinha uma minúscula varanda com vista para a Santo Amaro. Lembro-me de ter ficado ali por um tempo logo que cheguei do aeroporto. Não me lembro de nada me parecer tão assustador. No dia seguinte, acordei sem voz e assim foi por dias. As palavras que habitavam minha mente haviam perdido sua capacidade de significar e se retiraram por um tempo em busca de novos sentidos. Junto com o silêncio, uma febre que veio sei lá de onde e me deixou tão fraca que eu não sabia o que fazer. Resolvi agradecer pelo medo ter se materializado e tomei uma dipirona.

Eu tinha feito 30 anos há alguns meses e já tinha andado muito. Em 1988, participei da minha primeira campanha presidencial aos 23, seis anos depois de deixar Manhuaçu, a cidade onde eu nasci. Em 1990, aos 25, trabalhei na primeira eleição direta para governador de Roraima, que deixou de ser Território Federal em 1988. Aos 27 anos, me tornei diretora na Vox Populi, na época a segunda maior empresa de pesquisa política do País. Eu entrei na faculdade aos 17 e saí aos 27 porque tranquei matrícula todas as vezes que tinha algo mais excitante e desafiador acontecendo em algum lugar. Ou seja, o tempo todo. Mesmo assim, chegar em São Paulo me deixou em pânico e logo eu descobri o porquê.

Um tipo de lugar de privilégio que eu não sabia que existia separava as pessoas que eu tinha conhecido pelos livros e entrevistas do mundo onde eu habitava. São Paulo era cosmopolita, mas não era inclusiva, não acolhia. O valor da diferença estava em sua capacidade de se adaptar, de fazer o que fosse preciso, de lutar para se tornar igual. Pessoas como eu chegavam aqui todos os dias com uma urgência enorme de dizer quem eram. Dentre os que chegavam, alguns conquistavam o direito de mudar de nível e alcançavam um lugar disponível para muito poucos.

Não era simples, um conjunto enorme de códigos precisava ser aprendido. Era como um videogame, você precisava ir ganhando poderes, descobrindo armas escondidas, aprendendo a pular obstáculos. A diferença era que, dependendo da ponte da qual você caísse enquanto cruzava o lago de jacarés, você estava realmente morto.

Nos primeiros anos ouvi tantas vezes que tudo o que eu já havia feito não significava nada perto da maravilha que faziam aqui que parei de escutar. Segundo todo mundo com que eu conversei naquele momento eu precisava voltar a fazer estágio. Eu não estudei inglês desde criança e ninguém estava à procura de um insight nos lugares onde eu trabalhei. O que mesmo era um insight? Nem quando me explicaram eu entendi. Lembro-me de fingir que sabia o que era tanta coisa que até hoje me pergunto como consegui chegar tão longe. Um dia, já trabalhando para a Philip Morris como diretora de planejamento da Leo Burnett, estávamos em uma grande mesa quando uma pessoa falou: “Se o candidato não estudou no Santa nem na GV eu nem leio o currículo.” Santa quem? Depois que eu entendi, perguntei se era sério, se eles entendiam que eu não estaria ali e a resposta foi a que ouço até hoje: você é uma exceção.

Meu melhor defeito na vida é não desistir e acreditar que o tempo de fingir que nada está acontecendo acabou. Nós somos as pessoas, a hora é agora e o lugar é o que ocupamos nesse momento. Meu melhor defeito, nesse segundo, é estar presente

Eu não sou. Existem milhões de pessoas como eu, crescendo em pequenas cidades, estudando em escolas públicas, sem dinheiro para frequentar cursos de idioma antes dos 30 anos, trabalhando para pagar os estudos e guardando dinheiro para chegar em São Paulo e aprender com as pessoas que admiram. Existem milhões de pessoas como eu aqui ao lado, nas comunidades, nas periferias, em um mundo que ainda parece invisível.

Há quatro semanas, enquanto estávamos lá na AQKA trabalhando no desafio colocado pelo Papel&Caneta, ouvimos um grupo de jovens, onde a pessoa mais velha tinha 22 anos, dizer “é muito ruim quando você tem a sensação que o lugar de onde você veio é um defeito, que a sua pele é um defeito”. Não foi só, eles também disseram: “nós sabemos que estamos na moda porque somos pretos, trans, nascemos em comunidades. Nós sabemos porque temos sido procurados. Se esse é o caminho, tudo bem, nós vamos andar por ele, mas não vamos aceitar quando tentarem nos transformar no que não somos”.

Não está tudo bem. Nossa capacidade de criação e de aprendizado é o que nos torna humanos, relevantes, necessários. Está na hora de usar o que vivemos para criar novos sistemas, novos métodos, novos caminhos. Não está tudo bem. Enquanto achamos que o mundo está ficando chato, que o sofrimento das pessoas que estamos ajudando no shortlist do Glass Lions é mais importante do que o sofrimento de um jovem que caminha nos corredores das nossas empresas, tem muita gente pagando o preço, sendo infeliz e parando de acreditar. Não está tudo bem, mas só enquanto não fizermos nada. Meu melhor defeito na vida é não desistir e acreditar que o tempo de fingir que nada está acontecendo acabou. Nós somos as pessoas, a hora é agora e o lugar é o que ocupamos nesse momento. Meu melhor defeito, nesse segundo, é estar presente. E o seu?

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