Com uma geração hiperconectada, como a imprensa se reinventou?

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Com uma geração hiperconectada, como a imprensa se reinventou?

Desde a ascensão e proliferação da internet, a mídia conhecida como tradicional avançou pouco no seu processo de inovação e adequação a um novo contexto de consumo de informação. A audiência mudou. Já as empresas, não


18 de outubro de 2018 - 16h09

Crédito: LeoPatrizi/iStock

Há quatro anos, quando eu era repórter de um dos principais jornais impressos do país, participei de um encontro com leitores assinantes, todos já na casa dos 50 anos ou mais – claramente um grupo acostumado a acordar pela manhã e dispor de um bom tempo para saborear seu café enquanto folheia as páginas de um jornal. Na ocasião, um dos editores-executivos do veículo foi o responsável por mediar a conversa.

Em meio a explicações sobre os meandros técnicos da apuração das notícias, curadoria, diagramação – papo chato para a maioria ali presente -, uma leitora, inquieta, levantou a mão, pediu a palavra e indagou ao editor-executivo:

– Mas o que vocês estão fazendo para conquistar esta nova geração? – perguntou ela, apontando para o filho adolescente ao seu lado, que mantinha seus olhos fixados na tela do celular ignorando qualquer movimentação ao redor.

– Não estamos preocupados com os novos leitores. Nossa audiência, hoje, deseja o jornal impresso, ainda tem prazer com o impresso. É com isso que estamos preocupados. Se essa preferência mudar um dia, temos competência para entregar um jornalismo de qualidade em qualquer outra plataforma – garantiu o representante do veículo.

Nesse dia, saí do encontro e retornei à redação com a certeza de que os veículos da imprensa caminhavam conscientemente para a autodestruição do seu negócio.

De 2012 até a primeira semana de agosto de 2018, 7.817 profissionais foram demitidos em empresas de mídia. Desses, 2.327 jornalistas, segundo o levantamento “A conta dos Passaralhos”, desenvolvido pela agência independente de jornalismo Volt Data Lab.

A audiência mudou. Já as empresas, não

Desde o início dos anos 2000, com a ascensão e proliferação da internet, a mídia conhecida como tradicional avançou pouco no seu processo de inovação e adequação a um novo contexto de consumo de informação. A audiência mudou. Já as empresas, não. Ao passo que novos produtos digitais de comunicação – redes sociais, aplicativos de mensagens, blogs, etc – começaram a tomar conta das entranhas da vida cotidiana de milhões de pessoas, tornando-se cada vez mais fundamentais para uma efetiva relação de troca e escancarando possibilidades de rápido compartilhamento, interação e colaboração em toda a cadeia de produção.

A imprensa tradicional, hoje, sofre as consequências da sua própria negligência diante da necessária inovação de seus produtos e métodos de trabalho. A mídia em geral, sobretudo a televisiva, já sente, há alguns anos, os efeitos de uma diminuição de sua importância. Mais que isso, passaram a ser alvo constante de questionamentos acerca de seu trabalho de formar e informar com equidade e qualidade, principalmente após as manifestações de 2013. Mas ninguém, nenhum grande gestor, direcionou um olhar autocrítico para esse movimento sintomático.

Alguns comentaristas políticos, por exemplo, ainda insistem em tecer análises sobre o sucesso ou insucesso de candidatos com base em tempo de propaganda na TV. Parecem ignorar que os 46% de votos conquistados por Bolsonaro, no primeiro turno das eleições, não se devem aos irrisórios oito segundos de TV aos quais o candidato teve direito.

Não surpreende, portanto, que o ambiente virtual tenha se transformado no principal púlpito de debate e batalha nas eleições deste ano. E os esforços da imprensa em criar grupos de checagem de notícias não fizeram mais que apagar incêndios de desinformação. O cenário que há anos vem se consolidando nunca esteve tão evidente: a imprensa tradicional já não figura mais como ponto único e central de produção e disseminação de informação.

De acordo com dados do Datafolha, 44% dos eleitores no Brasil utilizam o WhatsApp para ler informação de cunho político. Os eleitores do candidato Bolsonaro são os que mais utilizam as redes sociais como fonte de informação: 6 a cada 10 eleitores. Destes, 61% afirmam ler notícias pelo WhatsApp e 40% garantem que compartilham informações políticas por meio da plataforma. De onde vem esse conteúdo? É certo que parte nasce da imprensa profissional, mas outra boa parte surge de produtores desconhecidos e variados, cujas intenções e interesses servem ao bem ou ao mal.

Sem mudança, sem sentido!

Não se trata de preterir um meio em benefício do outro. Muito menos, trata-se de negar a importância do papel fundamental do jornalista profissional em meio ao caos da desinformação. Veículos impressos, assim como televisivos e radiofônicos, continuarão existindo e comemorarão mais 70, 80, 90 anos de trabalho árduo, realizado cotidianamente. A discussão que se impõe de forma avassaladora é: como será feito esse trabalho?

A crise financeira que bate à porta dos principais veículos – exteriorizada pelo enxugamento das redações e cortes de gastos internos – acena para alterações de formatos e linguagem frente ao novo contexto da sociedade hiperconectada. Essa crítica visa, somente, trazer à tona mecanismos tão enraizados nos modos de produção que até mesmo profissionais de comunicação se veem fechados dentro de uma estrutura engessada e sem a possibilidade de desenvolvimento de ações propositivas.

A comunicação contemporânea exige um ajustamento e a resistência a essas urgentes mudanças ajuda a empurrar o jornalismo para um cenário de constante instabilidade, tanto para as empresas quanto para os seus funcionários. É preciso aperfeiçoar o fazer jornalístico nos âmbitos teórico e técnico, permitindo, assim, que jornalistas, veículos e público estejam em posição mais horizontalizada na produção de conteúdo.

O fluxo de informação está mudando e a cada dia surgem novas ferramentas tecnológicas que podem contribuir para a evolução crítica da sociedade. O que já se sabe é que a participação ativa que a internet confere ao público levará ao descobrimento de novos padrões para o exercício da profissão. Ainda não há uma fórmula consolidada, mas, sem dúvida, o público terá um papel fundamental nas decisões desses padrões daqui para a frente.

Para servir como alerta a todos os profissionais de comunicação que desejam manter sua profissão e seu negócio sustentáveis e verdadeiramente representativos, a pergunta que deve ecoar diariamente em nossas cabeças é: “Mas o que vocês estão fazendo para conquistar esta nova geração?”

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