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Efeitos de um novo tempo

Depressão, hiperatividade e síndrome de burnout são sintomas da sociedade do desempenho


11 de março de 2019 - 15h45

 

(crédito: reprodução)

A sociedade disciplinar, dos presídios, quartéis e fábricas ficou para trás. Vivemos na sociedade do desempenho, como muito bem coloca o filósofo Chul Han, em uma Sociedade do Cansaço. Uma era de academias de fitness, de shopping centers, prédios e aeroportos, onde todos correm de um lado a outro com foco na produção. Se na sociedade disciplinar a grande questão é “o não ter o direito”, na sociedade do desempenho “Yes, we can” reflete a relação com o poder ilimitado, a ideia de positividade excessiva em que acreditamos que podemos tudo.

Depressão, hiperatividade ou síndrome de burnout por exemplo, são os sintomas desse tempo. A tecnologia nos trouxe o acesso sem fim às informações (e o sentimento de que estamos sempre perdendo algo), dúvidas diante de milhares de opções de escolha, mas, mais do que isso, a possibilidade de avaliarmos e mensurarmos as opiniões dos outros a nosso respeito. Ou seja, a pressão social elevou-se à enésima potência.

Greg Mckeown, em Essentialism, descreve o que muitos de nós, em algum momento, já presenciamos no dia a dia em nossas empresas. Quando acreditam que não têm mais por que se esforçarem no trabalho, as pessoas reagem de duas maneiras: desistem e param de tentar ou vão para o extremo oposto e ficam hiperativas. Aceitam tudo o que lhes é proposto, atiram-se a cada tarefa que surge como forma de garantir a si mesmas o quanto são essenciais. Tudo na busca de uma aceitação interna e externa que não tem limite.

O curioso é que, aplicada a qualquer outro paralelo, nosso modus operandi em relação ao cuidado com a nossa mente não poderia ser mais óbvio. Se você estivesse em uma estrada, o marcador de gasolina apontasse no vermelho e o carro começasse não responder, você agiria como se nada estivesse acontecendo ou mudaria o comportamento, buscando rapidamente um posto para abastecer? Sem dúvida nenhuma, a alternativa dois. Muito lógico. Porém, muitas vezes, um comportamento nada comum quando nosso corpo insiste em nos dar sinais de falta de energia — insônia, cansaço excessivo, dificuldade de concentração são apenas alguns dos tantos alarmes — parece ser menos importante do que a certeza de que podemos ir além dos limites.

E não me excluo deste exemplo, não. Aliás, confesso que não poucas vezes me pego nesse dilema, desafiando a mim mesma, acreditando que sempre dá para ir um pouquinho mais longe. Amo o que eu faço e pouco separo momentos em que estou trabalhando dos que estou me divertindo. O que só reforça minha conversa íntima comigo mesma: como algo assim tão positivo poderia causar algum mal?

De acordo com a OMS, globalmente, mais de 300 milhões de pessoas sofrem com a depressão, sendo a principal causa de incapacidade. Mais de 260 milhões vivem com transtornos de ansiedade. Muitas dessas pessoas vivem com ambos os transtornos. Não para por aí. Segundo levantamento do INSS, as doenças psicossociais (depressão, ansiedade e burnout) estão entre as cinco principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. E mais, a OMS estima que a depressão será a doença mais incapacitante até 2020.

Mas a responsabilidade por este fenômeno é de quem? Do empregado que mergulha na rotina? Da empresa que exige produtividade? Da sociedade da informação? Hoje, há caminhos para que as empresas ajudem as pessoas a se prevenirem dos transtornos mentais no ambiente de trabalho. O guia publicado pelo Fórum Econômico Mundial traz alguns conselhos entre os quais estão o conhecimento sobre o ambiente de trabalho e sobre como ele pode ser adaptado para promover uma melhor saúde mental para diferentes empregados; aprender com as motivações de líderes e empregados que tomaram atitudes nesse sentido; não tentar “reinventar a roda” e descobrir o que outras empresas fizeram para solucionar problemas desse âmbito.

De uma forma ou de outra, passamos mais uma vez pela diferença que um olhar mais humanizado nas organizações trás. Precisamos prestar atenção uns nos outros, observar mudanças de comportamento, deixar as portas abertas para o diálogo e, antes de mais nada, respeitar o momento de cada um.

Além isso, fundamental seguirmos no processo (nem sempre fácil) de voltar a atenção para nós mesmos, conhecendo nossos medos e motivações. Eles dizem muito. Tentar corrigir pensamentos e sentimentos em vez de simplesmente vivê-los é como a frustrada tentativa de, no meio de uma dieta, dizer a você mesmo para não pensar em bolo de chocolate. Pode ter certeza de que, onde quer que você vá ou para onde quer que olhe, lá estará ele.

É preciso sensibilidade e coragem, como indivíduos e organizações, para lidar com o tema. Fora do Brasil até mesmo as marcas já estão assumindo seu papel diante do problema. Como diz o slogan do Sip of Hope, um café em Chicago cujo propósito é educar a respeito de saúde mental: “It’s ok not to be ok”.

 

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