Opinião

Legado e futuro

Esses conceitos podem até parecer paradoxais, mas estão intrinsecamente ligados – eu diria até que são, muitas vezes, interdependentes

Gabriela Onofre

CEO do Publicis Groupe Brasil 13 de janeiro de 2026 - 6h00

As mesmas raízes que embasam a cultura e nos fazem olhar para o passado constroem a credibilidade necessária para correr os riscos de desbravar novos caminhos e asfaltar o futuro. Por que tradição e inovação são vistas, então, como conceitos opostos?

Modernidade líquida, sociedade da impermanência, cultura do imediatismo. São muitas as tentativas de rotular a sensação coletiva de que tudo muda ou se dilui rápido demais. A inovação tecnológica multiplicou exponencialmente os estímulos aos quais estamos expostos, fragmentou nossa atenção e tornou decisões e relacionamentos muito mais fluidos ou instáveis. Afinal, são tantas as opções, por que alguém deveria ficar preso a uma só?

Mas a possibilidade de escolha, em princípio positiva, se tornou um fardo. Com o excesso de informação e a hiperconexão veio também uma exaustão geral, de consumidores e de marcas que tentam achar formas de se conectar a eles. E assim nasceram expressões como FOMO e FOBO (fear of missing out e fear of better options) – que se referem a essa angústia constante de que tem sempre algo melhor acontecendo sem a gente.

Uma pesquisa realizada em parceria pela BR Media, Publicis Brasil, Consumoteca e Nielsen mostra que as pessoas não estão mais desatentas. Elas simplesmente estão atentas a mais coisas. E, nesse cenário, só existe um caminho para entrar no radar do público-alvo, que gira cada vez mais rapidamente e em diferentes direções – a relevância. Eu sei, parece palavra batida. Mas não é. Muito anunciante ainda se perde nessa construção que se dá sobre três pilares, de acordo com o estudo.

O primeiro é o da “identificação”: marcas que espelham experiências já vivenciadas criam imediatamente um senso de proximidade com as pessoas, sem precisar forçar a barra da conexão. O segundo pilar é o da “reverberação”. Passamos de love brands inacessíveis e mergulhamos na era das conversas. Hoje, é preciso pulsar junto com a cultura para garantir um lugar na vida das pessoas. Em outras palavras, é a hora de descer do camarote para dançar na pista. Completa o trio de sustentação da relevância, o “repertório” que ajuda a fazer com que as marcas virem referência junto ao público, construindo memória.

Reunir tudo isso é o que blinda uma marca da volatilidade do mercado e garante que ela siga longeva e relevante. Ou, em transformação perene. Tenho refletido muito sobre essas dualidades: legado e futuro; tradicional e inovador. Esses conceitos podem até parecer paradoxais, mas estão intrinsecamente ligados – eu diria até que são, muitas vezes, interdependentes. As raízes que sustentam o legado e embasam a cultura de uma agência, grupo ou empresa também dão a solidez e a credibilidade necessárias para correr os riscos que o ato de desbravar novos caminhos cobra. Por que insistimos, então, em colocar tradição e inovação em caixinhas opostas?

O caminho para construir relevância de forma duradoura deveria passar pela manutenção de uma cultura de vanguarda, sustentada e reinventada, ano após ano. Estar no hoje sempre olhando para o amanhã. Isso é o que chamamos de “future-focused”. Somos focados no futuro desde 1926. Foi isso o que nos conduziu ao centenário que comemoramos neste ano que, nas páginas do Meio & Mensagem, começa agora. E é esse espírito que nos guiará pelos próximos cem anos.