Dei um passo pra trás na carreira
Mas nunca me senti tão bem-sucedida
Faz tempo que venho refletindo sobre passos pra frente e passos pra trás, essa dança que entretém tão bem a sociedade ao mesmo tempo que aprisiona quem está no palco. O que muitos veem como sucesso, é realidade apenas para uma minoria. Quantas pessoas têm de fato um cargo com ‘’C” maiúsculo e um salário acima de cinco ou seis dígitos? Quase 70% da população ganha até dois salários mínimos por mês, de acordo com o Censo 2022/PNAD.
Não é de hoje que estabeleci como parâmetro que a medição do sucesso é individual, em especial o meu, e pra mim ser bem-sucedida é ter equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional. Além, claro, de não adoecer ou deteriorar questões mentais que estão bem cuidadas por causa do ambiente de trabalho.
E foi por isso que tomei a decisão mais fácil da minha vida: sair das agências de publicidade. Não quero parecer ingrata, as agências me deram muito também, é só uma questão de ônus e bônus e o ônus acabou pesando mais na balança. Há anos venho escrevendo aqui sobre problemas da dinâmica do ecossistema tóxico e abusivo com a esperança de mudanças que ainda levam muito tempo pra acontecer. Já publiquei artigo falando sobre as melhorias que percebi no sistema na manhã seguinte de uma noite virada. Tão ultrapassado e tão atual.
Junto com a saída das agências, abri mão da direção de criação também. Assumi a posição na expectativa de fazer diferente – e fiz até onde foi possível – mas acabei sendo conivente com o sistema em muitas ocasiões. Era um constante conflito acompanhado de contínuas frustrações.
Quando estava entre empregos, conversei com uma líder criativa que respeito muito e ela me disse pra eu insistir na direção de criação porque homens não dão passo para trás. Ela reforçou que eu tinha conquistado aquela posição. Entendo o que ela quis dizer, sempre fui a única mulher no cargo em todas as agências em que passei, e em todas elas um homem assumiu o meu lugar depois que eu saí. Mas chegou a um ponto em que eu não conseguia mais carregar essa responsabilidade comigo.
Pra deixar a história curta, voltei pra redação, fui pra cliente e passei a trabalhar na área da saúde – um propósito pessoal antigo que finalmente consegui transpor pra vida profissional. Há anos eu não me sentia tão feliz, criativa e leve. Acordo bem, não tenho mais pesadelos com entregas urgentes nem taquicardia no meio das reuniões, e estou rindo mais. Eu estou rindo mais. Voltei a me divertir durante o dia e a ter orgulho do que eu faço.
Baixei dois cargos e estou ganhando menos. Alguns diriam que eu dei um baita passo pra trás, mas nunca me senti tão à frente como agora. Mais do que pra trás ou pra frente, sinto que estou exatamente onde deveria estar e isso sim é sucesso.
Fiz um encontro de publicitários em casa recentemente e metade das pessoas não foi porque estava presa em entregas ou reuniões. Não sinto falta de ser uma dessas pessoas. Pros amigos que continuam nessa rotina, desejo sorte. E dedico todo o meu otimismo em dias melhores, em um futuro mais consciente e sustentável. Que as conversas nos bares e aniversários sejam uma ostentação sobre quem está na agência mais saudável e não sobre como todos estão medicados e exaustos.
E, por fim, me despeço por enquanto dos artigos inconformados. Também não sentirei falta deles.