Entre a teoria e a prática
Por que abandonamos nossas resoluções de saúde para o ano novo — e o que a comunicação tem a ver com isso?
Todo início de ano, o roteiro se repete. As resoluções de saúde dominam conversas, redes sociais e até grupos de família.
Emagrecer, dormir melhor, praticar exercícios, cuidar da saúde mental, comer de forma equilibrada, parar de fumar.
As intenções são legítimas, bem-informadas e, na maioria dos casos, sinceras. Ainda assim, raramente sobrevivem ao primeiro trimestre.
Poucas semanas depois, a rotina vence. O trabalho aperta, o tempo encurta, a disciplina falha.
Um estudo conduzido pelo psicólogo Richard Wiseman, da Universidade de Bristol, com cerca de 3 mil pessoas, mostrou que apenas 9% conseguem cumprir suas resoluções ao longo do ano. O dado é conhecido. O desconforto também.
O que talvez ainda não esteja suficientemente claro é que esse fracasso coletivo não acontece por falta de informação.
Nunca soubemos tanto sobre saúde.
Pesquisas, recomendações médicas, conteúdos especializados e dados confiáveis estão amplamente disponíveis.
O DataSenado 2024 confirma isso: quando perguntadas sobre o que consideram mais importante para cuidar da própria saúde, as pessoas apontam alimentação saudável, acompanhamento médico, saúde mental, atividade física e redução do consumo de álcool e cigarro.
Ou seja, o diagnóstico é conhecido. As prioridades estão claras. O problema está em outro lugar.
Onde as resoluções se perdem
Na minha visão, o “x” da questão está no espaço entre saber, escolher e sustentar. É aí que a comunicação entra — ou falha.
Historicamente, tratamos a comunicação em saúde como algo episódico: campanhas pontuais, datas simbólicas, mensagens bem-intencionadas, mas desconectadas da vida real. Informamos muito, acompanhamos pouco. E comportamento não muda por impacto isolado.
A vida acontece no modo contínuo. Decisões de saúde também. Por isso, comunicação eficaz hoje precisa operar na lógica do always on: presente, recorrente, coerente e, claro, próxima. Não apenas para informar, mas para lembrar, reforçar, incentivar e sustentar escolhas ao longo do tempo.
Quando bem desenhada, a comunicação funciona como uma infraestrutura invisível. Uma espécie de “cola” que mantém vivas intenções que, sozinhas, não resistiriam à rotina. É nesse intervalo, entre a boa intenção e o hábito real, que a maioria das resoluções se perde.
Mudar comportamento é difícil. Transformar intenção em hábito exige mais do que força de vontade. Exige contexto, estímulo, repetição e suporte. Exige comunicação como estratégia, não como acessório.
Comunicação como alavanca de comportamento
Não por acaso, instituições públicas e privadas têm investido cada vez mais em estratégias de comunicação que aproximam a informação do cotidiano das pessoas.
O uso de criadores de conteúdo como porta-vozes, por exemplo, tornou-se recorrente em temas complexos como saúde e cidadania.
Não porque substituam especialistas jamais! Mas, porque ajudam a traduzir mensagens em linguagem compatível com a vida real, com o mundo hoje.
Outra frente relevante é levar especialistas para os ambientes digitais, adaptando conteúdos técnicos ao comportamento das plataformas e à atenção fragmentada do público. Formatos curtos, visuais, compartilháveis e recorrentes tendem a ser mais eficazes do que discursos longos e isolados.
Esse movimento vem acompanhado, naturalmente, de uma atuação mais ativa no combate à desinformação: respostas rápidas, esclarecimento de dúvidas frequentes e direcionamento claro para fontes confiáveis. Comunicação em saúde hoje também é gestão de risco.
Informação não basta
Na saúde, comunicar não é apenas explicar. É criar condições para que a escolha certa seja lembrada, considerada e repetida.
É reduzir a distância entre o que sabemos que devemos fazer e o que, de fato, conseguimos sustentar ao longo do tempo.
Por isso, comunicação não é um complemento do cuidado. É parte (importante) do cuidado!
É ela que transforma informação em ação, intenção em permanência e desejo em hábito. Não depende apenas do que as pessoas querem fazer, mas de como ajudamos, todos os dias, para que consigam fazer.
E esse é, talvez, o maior desafio das resoluções de saúde para 2026: menos promessas grandiosas e mais comunicação presente, inteligente e humana.
Porque cuidar, no fim, também é saber comunicar. Com consistência. Com estratégia. E com paixão por cuidar.