Economia da felicidade

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Economia da felicidade

Conviver gera stress porque envolve nosso sistema de confiança ativado por critérios de valorização e medidas de desempenho e sucesso aos quais nos submetemos por necessidades econômicas e de sobrevivência


18 de junho de 2019 - 16h10

(Crédito: Tera Vector/iStock

Se, por muito tempo, a definição de desenvolvimento foi ligada diretamente a critérios econômicos, hoje percebemos que esta é uma visão demasiado estreita para que se defina a evolução de uma sociedade. Amayrta Sen, indiano, professor de Harvard e Prêmio Nobel de Economia em 1998, acredita que o desenvolvimento deve ser visto de forma multidimensional: para além de indicadores econômicos, deve estar atrelado ao bem-estar social e, em especial, às liberdades — tanto instrumental (o direito que o cidadão tem de levar a vida como quiser, sem que lhe seja imposto um estilo de vida específico), quanto constitutiva (o direito ao voto e ao exercício da cidadania).

Anos depois, em 2005, o Centre for Bhutan Studies desenvolveu um instrumento de pesquisa para medir o nível de bem-estar geral da população considerando diferentes dimensões: saúde física, mental e espiritual, equilíbrio temporal, vitalidade social e comunitária, vitalidade cultural, educação, qualidade de vida, bom governo e vitalidade ecológica. Em 2010, a Universidade de Oxford lançou o Índice da Pobreza Multidimensional (MPI) para a ONU considerando cinco dimensões: qualidade de trabalho, capacitação, segurança física, capacidade de circular sem vergonha, bem-estar psicológico.

A ideia de que o desenvolvimento deve ser avaliado de forma multidimensional é uma grande inspiração para as corporações que ainda avaliam sucesso, clima e desenvolvimento organizacional por meio de dimensões simplificadores e limitadas como satisfação com o ambiente de trabalho, fidelidade, espírito de equipe, cumprimento de metas financeiras e satisfação com salário e benefícios.

Em abril de 2012, a felicidade passou a ser considerada pela ONU como um “novo paradigma econômico”. Também em 2012, o estudo The Business Case for Happiness da Stanford Business School descobriu que a felicidade aumenta a produtividade e gera inovação. A pesquisa sugere quatro princípios com foco na promoção de felicidade:

Propósito superior: sentir-se parte de algo significativo
Autonomia: perceber-se no controle de seu caminho futuro, capaz de trabalhar em coisas em que se é bom e aprender novas habilidades.
Relacionamentos: cultivar relacionamentos significativos por meio de experiências compartilhadas e colaboração.
Impacto: considerar o impacto que seu trabalho causa na vida dos outros.

Há quase 80 anos, a Harvard Medical School realiza o Grant & Glueck Study, um estudo longitudinal que acompanha 456 homens pobres que cresceram em Boston e 268 homens ricos formados nas classes de Harvard, buscando identificar os preditores psicossociais do envelhecimento saudável. Em 2017, a análise desse estudo afirmou que a essência de uma vida satisfatória é sobre amor e relacionamentos, e não sobre dinheiro e realização profissional.

Praticamente todas as empresas do mundo afirmam que seus funcionários são seu maior patrimônio, mas quantas, de fato, estão preocupadas em fazer com que esse patrimônio cresça de forma saudável e gere dividendos positivos? Não existem mais dúvidas sobre o quanto pessoas felizes são mais produtivas, mas não é apenas sobre isso. Pessoas felizes constroem uma sociedade melhor.

Na idade adulta, as jornadas de trabalho ocupam cerca de oito horas, um terço dos nossos dias, mas sabemos que, de fato, o trabalho ocupa um tempo bem maior de nossa vida diária, inclusive na chamada “nova economia” que tem apresentado como inovadores modelos de trabalho onde atravessar noites produzindo e se colocar disponível de qualquer lugar do mundo a qualquer hora são modos de agir valorizados — a defesa desses modelos é baseada em vários pontos, o mais importante deles talvez seja a ideia de que não é o trabalho que gera stress, mas a forma e as condições nas quais ele é realizado.

Segundo diferentes linhas de pesquisa, o stress e as tensões geradoras de doenças como depressão, ansiedade e pânico raramente são provocados apenas pela quantidade de trabalho, mas por uma dinâmica que tem como fatores geradores de conflito a falta de um propósito maior, o ambiente e a convivência. Conviver gera stress porque envolve nosso sistema de autoestima e confiança ativado tanto por critérios de valorização e por medidas de desempenho e sucesso — aos quais nos submetemos pressionados por necessidades econômicas e de sobrevivência — quanto por nosso baixo autoconhecimento e pelo quanto isso reduz nossa capacidade de fazer escolhas mais adequadas a quem somos e ao que acreditamos ser condizente com nossos valores, crenças e limites.

No último dia 30 de maio, a Nova Zelândia se tornou o primeiro país do mundo a definir a distribuição de seus recursos governamentais tendo a geração de bem-estar como princípio. As prioridades apresentadas incluem o apoio ao bem-estar mental; a redução da pobreza infantil e o bem-estar das crianças incluindo o combate à violência familiar; o apoio à criação de uma nação próspera na era digital por meio da inovação e de oportunidades sociais e econômicas; a educação, o desenvolvimento de competências e o crescimento dos rendimentos das populações maori e pacific; a criação de oportunidades para a transição da economia para um modelo sustentável e de baixa emissão. Um exemplo tanto para outros governos do mundo quanto para corporações.

Uma nova realidade, capaz de construir um mundo muito melhor do que este em que estamos vivendo agora, está em curso. Resta a cada um de nós escolher o lugar da história que deseja ocupar, como e o quanto queremos colaborar para que essa realidade aconteça em escala, para todos, mais rapidamente. Mesmo que, às vezes, não pareça, acredite, é uma escolha e, em breve, todos nós seremos cobrados por ela.

*Crédito da foto no topo: Rawpixel-iStock

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