Mulheres e seus diferentes tempos

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Mulheres e seus diferentes tempos

Embora tenham personagens tão diversas, vivendo em tempos muito diferentes, há muito da mulher contemporânea tanto em Big Little Lies como em Sex and the City


29 de julho de 2019 - 6h00

Reese Witherspoon, Zoe Kravitz, Laura Dern, Shailene Woodley, Nicole Kidman e Meryl Streep, atrizes de Big Little Lies (Crédito: Dia Dipasupil/ Getty Images)

Com algumas características que as aproximam: serem produções da HBO, protagonizadas por mulheres poderosas retratando a intimidade do cotidiano feminino e ótimos figurinos, Sex and The City e Big Little Lies são produtos que retratam seu tempo, mas que guardam entre si enormes diferenças. Treze anos separam o fim da última temporada de

e o início da primeira de Big Little Lies. Parece uma eternidade se levarmos em conta as profundas transformações pelas quais o universo feminino e a agenda do planeta passaram nesse intervalo de tempo. O fim da segunda temporada de BLL no domingo, 21 de julho, deixou uma daquelas deliciosas sensações de como uma boa trama pode ser bem amarrada com toda a densidade e carga emocional que carrega.

Aí reside a primeira grande diferença. Sex and The City está na categoria comédia romântica. BLL, por sua vez, é muitas vezes soturna e esbarra em momentos de thriller policial ao retratar de forma pouco florida as dores e os sofrimentos tanto de casamentos entediantes quanto de relacionamentos abusivos com um assassinato como pano de fundo. Assisti e curti bastante às duas séries. Até porque o arco narrativo e temporal de ambas coincidiram com minha jornada existencial. Sex and the City retratou mulheres na casa dos 30 anos, solteiras e seus dilemas amorosos quando eu vivenciava exatamente esses mesmos impasses.

O traço em comum da amizade das “Cinco de Monterey”, como são chamadas as protagonistas da trama rodada na linda cidade do sul da Califórnia é a maternidade. Todas têm filhos na faixa de sete, oito anos que estudam juntos. Também tenho filhos nessa faixa de idade e especialmente na primeira temporada, a escola é o ponto de contato de diversas tramas que se cruzam. Minhas afinidades pessoais com BLL param por aí. O resto é pura diversão diante de excelente obra de ficção.

Enquanto as moças solteiras de Sex and the City narram suas aventuras sexuais pelas ruas e bares de Nova York regadas a muitos Cosmopolitan, em BLL as mães se reúnem em cafés na praia ou até mesmo dentro de carros sempre às pressas para dar conta de seus inúmeros afazeres. É quase como se as bonitonas de Nova York tivessem ido para a Costa Oeste, se estabeleceram, encontraram seus companheiros e… o sonho não deu muito certo.

No período entre 1998 e 2004, os seis anos que durou a franquia Sex and The City (a série, já que alguns anos depois foram produzidos dois longas-metragens) com suas seis temporadas e 94 episódios, não existia Netflix nem Instagram e as discussões em torno da pauta feminina ainda eram incipientes. Isso fica claro em inúmeras cenas e situações que demonstram desde a forma inapropriada como os homens pressionavam as mulheres no ambiente de trabalho até como as mulheres pressionavam as outras a fazer atos sexuais que as deixavam desconfortáveis só para segurar um parceiro.

Por outro lado, a própria concepção de BLL, em termos de arcos narrativos, é mais complexa e enxuta ao mesmo tempo. Suas duas primeiras temporadas tiveram sete capítulos cada e fazem parte da carga de munição da HBO na forte batalha por audiência que enfrenta com a chegada da Netflix, na última década, e toda a mudança que provocou na forma como pessoas consomem entretenimento hoje por meio do streaming e conteúdo on demand.

Talvez seja a série que mais bebeu da fonte do movimento #Metoo, uma vez que a primeira temporada ganhou quatro Globos de Ouro na edição 2018, incluindo o de melhor série de TV.

Treze anos separam o fim da última temporada de Sex and the City e o início da primeira de Big Little Lies. Parece uma eternidade se levarmos em conta as profundas transformações pelas quais o universo feminino e a agenda do planeta passaram nesse intervalo de tempo

Marcada pela grande mobilização iniciada a partir das denúncias contra o ex-todo-­poderoso produtor Harvey Weinstein, com as mulheres vestidas de preto, a cerimônia entrou para a história por pontuar os abusos cometidos em Hollywood e denunciar a desigualdade de gênero. Esta sim uma nova pauta na agenda global (pelo menos a ocidental), que introduziu na sociedade conceitos como masculinidade tóxica e sororidade. Ao lado de um elenco estelar composto por nomes como Nicole Kidman, Shailene Woodley, Zoë Kravitz, Laura Dern, a também produtora executiva Reese Witherspoon acabou virando um dos rostos do #MeToo.

O sucesso da primeira temporada foi tão avassalador que o projeto ganhou fôlego e rendeu a segunda temporada com a participação especial de Maryl Streep. Capitaneando a produção, Reese foi mais longe por ser também a principal influencer da série. Aliás, influenciador digital é outra categoria de pessoas que não existia na época de Sex and The City. O perfil no Instagram da intérprete da personagem Madeleine em BLL, com 18,5 milhões de seguidores, compartilhou nos meses anteriores à estreia da segunda temporada fotos de suas colegas de elenco em situações cotidianas como jogando boliche e assistindo a filmes até que na semana da estreia, no início de junho, a foto do esquadrão tinha a legenda: “O poder da irmandade e amizade é ilimitado! Tão orgulhosa de trabalhar com essas senhoras notáveis.”

 

Sarah Jessica Parker na abertura de Sex and the City (Reprodução)

Reese também não perde a oportunidade de vender sua própria grife de roupas, a Draper James, postando no seu perfil no Insta os looks utilizados por ela nas filmagens. Outra diferença da série protagonizada por Sarah Jessica Parker, que se alimentava de nomes consagrados do mundo fashion em seus modelos de roupas e sapatos como Galliano, Versace e Vivienne Westwood. A paixão das mulheres por looks não mudou muita coisa entre as duas séries. Porém, o que se transformou foram as opções de cruzar os universos e plataformas digitais para mostrar, e vender, as marcas nos tempos atuais.

A segunda temporada de BLL explora os conflitos e traumas da personagem de Zoë Kravitz, com a participação de sua mãe, interpretada pela atriz Crystal Fox, adicionando outro elemento à trama quando questiona a filha pelo fato de ela ser a única negra na cidade. Mais um contraste com Sex and The City, série dominada em todas as suas fases apenas por pessoas brancas, mesmo tendo como cenário a cosmopolitana Nova York. Diversidade é outra agenda imposta pela sociedade atual e que marca bastante as mudanças entre as duas séries.

O mais encantador ao fazer essa comparação e análise — e aí reside o grande fascínio da dramaturgia — é se ver retratada por uma obra no seu tempo. Para mulheres da minha geração, a contemporaneidade de ambas as séries é imensa e sua beleza está justamente nesse zeitgeist. Resta-me agora torcer pela terceira temporada de Big Little Lies.

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