A evolução natural dos jornais

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A evolução natural dos jornais

Em 99,9% dos casos de quem mudou a forma de editar um jornal, a causa da “inovação” foi puramente econômica


19 de novembro de 2019 - 8h57

(Crédito: Pixabay)

Se alguém por acaso ainda não se deu conta, os meios impressos foram os mais impactados — por tabela — pela revolução digital das comunicações. O motivo é simples de se entender: por que alguém vai querer pagar por um produto fechado (não interativo), cujo fechamento ocorreu pelo menos 8 horas antes da chegada na casa do assinante, quando outros meios são mais ágeis, mais atualizados e até grátis? Difícil competir, se jornais e revistas seguirem considerando-se os donos da notícia.

Ou mudam, ou morrem.

As fórmulas de sobrevivência são muitas, bem como as explicações para os passos a seguir. Em 99,9% dos casos de quem mudou a forma (e a frequência) de editar um jornal ou uma revista, a causa da “inovação” é puramente econômica — ainda que se tente vender o peixe da modernidade, da evolução natural.

A primeira marca relevante do Brasil a abrir mão da edição diária em papel e apostar em um semanal impresso, com forte operação digital durante a semana, foi a Gazeta do Povo, de Curitiba (PR), em 2017. Verdade que antes, em 2010, o histórico Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, RJ) abandonou o papel e adotou o 100% digital. Mas não houve qualquer preocupação com a linguagem digital, era o papel sem papel (PDF).

Sim, a Gazeta do Povo inovou. Mas calma: a Gazeta vinha em queda livre de receitas, circulação pífia e Ebitda negativo desde alguns anos. Tentou a fórmula mágica da economia de papel com um desastrado projeto de redução de formato (standard a berliner), no final de 2015. Fracassou. Até que abandonou o papel de segundas a sextas, criou uma edição robusta de fim de semana e apostou em bom jornalismo digital. O resultado econômico ainda não veio, mas os indicadores prometem que se pense em azul a partir de 2021.

Sem dúvidas a pressa nas mudanças e a falta de planejamento comprometeu o sucesso da Gazeta. Com um pouco mais de estudos e movimentos responsáveis, talvez essa conta já teria sido paga. Foi a mesma falta de planejamento – e movimentos acelerados – que prejudicou grupos outrora fortes como A Cidade, de Ribeirão Preto (SP). Um movimento de troca de modelo de negócios não pode, definitivamente, ser feita sem que os clientes saibam e concordem. Ou não funcionará.

Um bom exemplo de como fazer a transição papel-digital com inteligência e planejamento vem do Grupo Gazeta, de Vitória (ES). Durante mais de um ano se trabalhou internamente para que o conteúdo digital tivesse a mesma (ou maior) relevância do que o impresso. Investimento, análise de performance, ferramentas de dados, jornalismo de primeira. Depois o plano, ainda secreto, começou a ser dividido com os maiores anunciantes. Por fim o anúncio público, com prazo de 40 dias até descontinuar o impresso diário e vitaminar a edição semanal.

Um mau exemplo dessa mesma transição chega agora do Grupo NSC, de Florianópolis (SC), que acaba de interromper a circulação diária de Diário Catarinense, A Notícia (Joinville) e Jornal de Santa Catarina (Blumenau), todos líderes em suas regiões. Antigo braço catarinense da gaúcha RBS, a NSC não soube fazer dos impressos um bom negócio. E, de repente, com um olho no balanço e outro no precipício, anunciou o fim das edições diárias de suas três marcas. Dois anos antes havia feito um carnaval para lançar uma edição conjunta das três marcas aos fins de semana, hoje sepultada. Sobrevive uma edição arrevistada de cada marca aos fins de semana. Parece um filme com final (infeliz) anunciado.

Enfim, as transformações das empresas de comunicação acontecem, acompanhando o comportamento da sociedade. Não está escrito em nenhuma parte que os impressos vão morrer. Mas quem não entender o comportamento de sua audiência precisará acender uma vela antes do tempo. Diversos exemplos apareceram no evento WAN-Ifra Digital Latam, semana passada no Rio.

Analisar, estudar, arriscar e tomar decisões na hora certa. Trata-se da evolução natural dessa indústria. Mas correr para apenas fechar a torneira do custo-papel, sem planejamento, é suicídio.

*Crédito da foto no topo: Paket/istock

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