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CPF ou CNPJ?

As empresas não operam apenas como entidades legais, e sim como comunidades de pessoas; são as ações dos líderes que influenciam e dão forma e contexto do que acontece


16 de dezembro de 2019 - 11h12

(Crédito: Skynesher/ iStock)

Desde quando você se lembra de pensar sobre o que é certo e errado? Até os quatro ou cinco anos de idade, seguimos regras mais pelo hábito do que pela consciência e somos guiados por nossas necessidades básicas. O bebê com fome chora até ser atendido e pouco importa o que está acontecendo à sua volta. Esse tema me fez lembrar o diálogo entre minha filha e meu marido, quando ela tinha por volta dos três anos de idade. Ela com o chocolate na mão e ele com vontade de comer o chocolate, pede: “Me dá um pedacinho do chocolate?” Ela responde: “Não”. “Só um pedacinho…” “Não”. “Se você não der, o papai vai ficar triste”. Ela, sem nenhuma dúvida, diz (já colocando o chocolate na boca): “Mas, se eu te der, quem vai ficar triste sou eu.”

Conforme crescemos, começamos a nos descentralizar do eu e adquirir habilidade para começar a julgar o que as pessoas pensam e sentem e também de prever consequências. É a partir daí que os conceitos de ética e moral começam a ser aprendidos. Por mais de dois mil anos, a filosofia, a antropologia e a sociologia estudam o assunto, o que já nos mostra que a questão não é simples. É no território da ação, e não da teoria, que a complexidade do tema se manifesta. “Somos resultados das nossas escolhas”, já dizia Aristóteles. O fato é que a maioria de nós tem menos dificuldade de separar o que é certo e errado do que manter essas considerações éticas ao tomar decisões. Somos influenciados pelo contexto e pelos outros que nos cercam. Diante de uma possível emergência, por exemplo, é mais provável que as pessoas intervenham se estiverem sozinhas do que se outros espectadores estivessem por perto — imaginam que os demais vão lidar com a situação, que estão mais qualificados para agir ou não reconhecem a emergência porque as pessoas não parecem alarmadas. Pequenas mudanças de contexto podem ter efeito significativo no comportamento.

No mundo organizacional, nunca se discutiu tanto o tema. Na obra Business Ethics: good intentions aside, Laura Nash destaca que quase todos os valores compreendidos pela conduta ética nos negócios — honestidade, justiça, respeito pelos outros, serviço, palavra, prudência e confiabilidade — vêm sofrendo uma desintegração no mercado. A ética nos negócios não se trata apenas de leis escritas. E as leis, muitas vezes, não conseguem acompanhar o ritmo do comportamento.

O estudo Global Business and Ethics (GBES), da Ethics and Compliance Initiative (ECI), indica que os líderes estão indo nesta direção. Porém, um em cada cinco empregados ainda declara observar comportamento abusivo no ambiente de trabalho e 60% dos casos foram relatados como não isolados. E quando lei e a atitude se descasam, a quem cabe o título de ético ou antiético?

Ao CPF ou ao CNPJ? A verdade é que as empresas não operam apenas como entidades legais, elas operam como comunidades de pessoas. São as ações dos líderes que influenciam e dão forma e contexto do que acontece. É a integridade do líder que constrói a imagem e o ambiente seguro dentro da empresa. O psicólogo Stanley Milgram desenvolveu diversos experimentos sobre obediência e um deles conclui que os participantes que recebiam, da parte de uma figura de autoridade, o comando para aplicar choques elétricos cada vez mais fortes em outra pessoa, avançaram para voltagens muito mais altas do que a previsão de outras pessoas para a voltagem que elas mesmas aplicariam.

Nos primórdios do nosso desenvolvimento, nos sentíamos seguros para dormir à noite quando tínhamos convicção de que o outro, com a responsabilidade de ficar alerta, garantiria a segurança da tribo. Se as condições não estiverem acertadas, somos forçados a gastar nossa energia nos protegendo uns dos outros, o que enfraquece nosso potencial de entrega e, por consequência, a organização. Quando nos sentimos seguros no ambiente de trabalho, juntamos nossas forças e talentos para nos defendermos do mundo lá fora e aproveitarmos as oportunidades. A liderança é uma escolha, não um título. E com toda escolha vem uma responsabilidade.

*Crédito da foto no topo: Reprodução

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