A representatividade no conteúdo

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A representatividade no conteúdo

É muito redutivo chamar negros, gays, deficientes físicos e qualquer outra minoria para falar só sobre os problemas deles


21 de setembro de 2020 - 17h47

AmarElo Prisma, projeto produzido em parceria da Ampère com a Lab Fantasma e a Mutato, que toma como base o disco AmarElo do Emicida (Crédito: divulgação)

Durante o começo dos protestos do Black Lives Matter nos EUA, muita gente da mídia me chamou para debates, matérias e entrevistas sobre negritude e representatividade. Outro grupo que me chamou demais, foram os amigos que trabalham em grandes empresas ou no mercado de comunicação. Em resumo eles tinham a mesma pergunta: E aí? O que a gente faz?

Mas eu não devia estar ali falando disso. Eu tive uma vida confortável. Viajei e estudei. Tinha teto e comida. Mesmo que quase sempre eu era o único negro nos lugares em que eu frequentava — e isso ainda persiste –, não tinha a vivência de uma luta de cor e raça como aqueles que a vivem todos os dias nas quebradas e vielas do mundo todo.

Acho que todo mundo tem um super poder. Alguns fazem bolo, outros conversam, outros fazem coisas inumanas praticando esportes. O meu super poder é contar histórias.

Como sócio e estrategista narrativo da Ampère, tenho como meta não só contar as melhores histórias que podemos contar, mas que essas histórias sejam contadas pelas melhores pessoas e pontos de vista que podemos ter.

Mesmo com a pandemia, tivemos a chance de fazer alguns projetos incríveis com parceiros que compraram a nossa narrativa de que quem conta a história é tão importante quanto quem ouve.

Um dos projetos foi o AmarElo Prisma. Lançado no começo da quarentena e produzido em parceria com a Lab Fantasma e a Mutato, o Prisma é um projeto que toma como base o disco AmarElo do Emicida, mas que, na verdade, é um guia de sobrevivência para a galera que mais precisava de ajuda naquele momento. Com isso, a gente baseou o projeto em quatro movimentos, como em uma sinfonia, onde cada um ajuda você a cuidar do corpo, da mente, da sua comunidade e assim ter força para mudar a sua própria história. Mais do que ter eu dirigindo e escrevendo e até o Emicida apresentando, a gente tinha de trazer soluções reais feitas por pessoas reais que já estão mudando suas histórias e fortalecendo suas comunidades hoje. Assim, entrevistamos mais de quarenta pessoas do norte ao sul do país. De artistas de renome, passando por ativistas, líderes comunitários e desconhecidos que são mestres locais de conhecimentos milenares. Eles estavam lá para ser apenas eles e falar do que eles já sabem. E isso deu uma força para o projeto, que me emociona até hoje só de lembrar. Nem vamos entrar em como o projeto foi recepcionado pelo público, que aí eu ainda não sei digitar, chorando de emoção.

Nós também produzimos os podcasts oficiais das séries internacionais da HBO. Essa parceria da Ampère com um dos canais mais renomados do mundo está sendo construída de uma maneira incrível. Além de termos um conteúdo absurdamente legal de falar com as séries, também temos uma liberdade imensa de o que vamos falar e principalmente quem vai falar em nome da HBO. Assim, em um podcast sobre Katy Keene, uma série sobre jovens vivendo a vida em Nova Iorque, podemos trazer duas mulheres e um ator gay, além de diversos convidados especialistas, para comparar suas experiências com aquelas da série. Isso fica ainda mais forte nesse momento, quando falamos de séries como Watchmen e Lovecraft Country, onde seus criadores colocaram o racismo e a luta racial no ponto central das suas narrativas. Tive a honra de apresentar os dois podcasts. Em Watchmen, estava acompanhado do sócio Alexandre Maron, que trouxe todo seu conhecimento do mundo pop e de quadrinhos. Mas em Lovecraft Country, uma série de terror onde o real monstro é o racismo, decidimos que tínhamos de colocar pessoas comigo que tem o famoso “lugar de fala”. E não estou falando apenas no lugar de fala de serem negros, mas que sejam nerds, manjem de TV e sejam viciados em literatura. Assim, toda semana tenho a companhia incrível da Milena Souza — uma booktuber de marca maior — e do Valter Rege — “um cineasta preto, gay e favelado”, como ele mesmo fala — que além de nos mostrarem que muitas situações que são mostradas na série são reproduzidas aqui no Brasil, eles nos entregam um conteúdo de altíssima qualidade sobre todo o resto por que ele são sabem do que eles estão falando e consomem esse conteúdo como qualquer branco de classe média.

É muito redutivo chamar negros, gays, deficientes físicos e qualquer outra minoria para falar só sobre os problemas deles. Representatividade é a galera estar lá falando de qualquer coisa. É mulher falando de futebol. É preto falando de série de TV. É deficiente físico falando de videogame.

Representatividade é isso. É simples. É tratar as pessoas como pessoas, e não como suas descrições. E, como pessoas, elas devem estar em todos os lugares, não apenas quando lhes dão cotas ou permissão de estar em algum lugar.

Na próxima vez que sua marca, produtora ou empresa pensar em como deixar seu ambiente mais inclusivo e diverso, lembre-se disso.

Que se minha trajetória até aqui mostrar alguma coisa, é que quanto mais gente, mais vozes e mais pontos de vista, mais cheia de histórias maravilhosas ficam a vida e como um contador de histórias profissional, lhes digo que vale muito a pena.

**Crédito da imagem no topo: Alexas Fotos/Pixabay

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