Dear advertising people, black lives matter every day

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Dear advertising people, black lives matter every day

Parece que somente após a morte de George Floyd, que completa um ano esta semana, as grandes marcas e o mercado publicitário nacional descobriram que o Brasil é um país negro


25 de maio de 2021 - 7h54

(crédito: munshots/Unsplash)

Inicio este artigo com a linguagem universal que o mercado publicitário brasileiro tanto valoriza, mas a que poucas pessoas, de fato, têm acesso – o inglês.

Foi nesse idioma que, há um ano, George Floyd externalizou suas últimas sensações. Infelizmente, “I can’t breath” foram as últimas palavras ditas por ele antes de passar longos minutos completamente sem ar e sucumbir no asfalto, asfixiado pelo joelho de um policial em Mineápolis, estado de Minnesota, nos Estados Unidos.

A imagem, que viralizou rapidamente mundo afora, fez com que grandes marcas se posicionassem e buscassem um diálogo imediato com pessoas negras, e a forma encontrada, horas depois da morte de Floyd, resultou na mobilização que percorreu o mundo com o mote Black Lives Matter – movimento internacional com origem na comunidade afro-americana, fundado em 2013 e que, desde então, luta contra a violência a pessoas negras em todo o mundo.

Correria para substituir os avatares das redes sociais por uma tela preta, tradução para português do posicionamento global das marcas, black lives matter pra cá, black lives matter pra lá, posições públicas – muitas vezes não condizentes com a realidade adotada no cotidiano –, discursos vazios e com pouco compromisso real e responsável com a comunidade negra brasileira que, por mero acaso, representa quase 60% da população de acordo com o IBGE e que é impactada todos os dias pelo trabalho da publicidade.

É como se somente após esse lamentável episódio as grandes marcas brasileiras e o mercado publicitário nacional descobrissem que o Brasil é um país negro. A reflexão que quero propor, aqui, é sobre os aprendizados obtidos (se é que foram), um ano após o assassinato de Floyd.

Quanto as telas pretas e as hashtags mudaram de fato a vida de pessoas? Quanto dos investimentos em mídia foram direcionados para empresas lideradas por pessoas negras? Quantos dos filmes publicitários trouxeram pessoas negras como protagonistas e sem papéis estereotipados ou simplesmente para cumprir uma cota? Quantas pessoas negras passaram a compor os times das grandes agências que criam as maiores campanhas publicitárias que invadem as casas brasileiras? Quanto os profissionais negros foram valorizados? Quanto estes profissionais se sentem seguros de trabalhar em suas empresas?

Sinto informar, mas as pessoas negras que atuam no mercado de comunicação continuam trabalhando em ambientes muitas vezes violentos, com pouca – às vezes inexistente – diversidade, sem inclusão, com remuneração inferior à de pessoas não negras no mesmo cargo e, muitas vezes, até mesmo com menos experiência. É sobre o bom dia não respondido, a falta de convite para o almoço ou happy hour (nos tempos remotos), a crítica constante ao trabalho muitas vezes impecável, o sticker ou a mensagem racista no grupo de WhatsApp que todo mundo cai na risada, o comentário sobre o cabelo, a barba, a roupa, o calçado ou mesmo o seu nome simples mas que nunca acertam: “Renato? Rodrigo? Rafael? Ronaldo? Tiago? Como é mesmo o seu nome?”, que denotam a pouca questão que fazem da nossa presença.

Como está o nosso KPI de diversidade e representatividade atualmente? Ele foi alcançado até aqui? Qual o ROI obtido com todas as nossas ações?

Quantos colegas de trabalho negros você tem? E os amigos negros, quantos são? Cá entre nós, vidas negras realmente importam? As vidas negras brasileiras importam?

**Crédito da imagem no topo: Mariana Mikhailova/iStock

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