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Internacionalização de bancos digitais eleva disputa no setor

Marcas envolvidas ganham em reputação e confiança, enquanto pressionam instituições tradicionais

i 4 de fevereiro de 2026 - 6h00

Na última semana, duas empresas financeiras brasileiras anunciaram movimentações rumo à internacionalização. De um lado, o PicPay abriu seu capital nos Estados Unidos e levantou cerca de US$ 434,3 milhões com a oferta pública inicial (IPO). Do outro, o Nubank recebeu a aprovação condicional do Escritório do Controlador da Moeda dos Estados Unidos (OCC) para operar como banco naquele país.

Internacionalização de bancos

IPO do PicPay e conquista da aprovação condicional do Nubank foram anunciadas na última semana (Crédito: Reprodução)

Apesar da proximidade, os analistas apontam diferenças entre as duas movimentações. Enquanto o IPO do PicPay age sobretudo do ponto de vista financeiro, o anúncio do Nubank marca mais um passo para o início de uma nova operação nos Estados Unidos com contato direto com o consumidor final, processo que também acontece em outros mercados, como o México.

Guardadas as diferenças, os dois anúncios impactam as marcas com ganhos ligados a reputação e confiança. Para Filippo Vidal, sócio-diretor da FutureBrand São Paulo, o IPO do PicPay deve gerar aumento no valor de marca e menor percepção de risco. Já a entrada do Nubank no mercado norte-americano valida a capacidade operacional do banco.

“PicPay e Nubank, desde sempre reconhecidas como fintechs, deixam de ser associadas prioritariamente a esse universo e amplificam suas propostas de valor com ganhos em solidez, escala e relevância”, aponta Vidal.

O executivo também explica que esses ativos já vêm sendo trabalhados na comunicação das duas marcas. Nubank, hoje, enfatiza atributos como segurança e a oferta de um ecossistema. “Se isso gera um distanciamento da abordagem mais ousada dos anos passados, ao mesmo tempo prepara a marca para operar em mercados com novos regimes regulatórios”, explica o sócio-diretor da FutureBrand.

A financeira também se tornou parceira global da Mercedes- AMG Petronas F1 e, para o analista, deve investir em outras propriedades globais. O PicPay, por sua vez, estaria ampliando o discurso para construir a proposta de valor de uma plataforma.

“Eles têm muito um foco no crescimento da oferta de produtos e serviços: consórcios, seguros, crédito consignado. O foco vai muito no mercado nacional e nessa ampliação da base de serviços financeiros. Então, a estratégia é diferente e o foco da comunicação também deve ser”, compara Luciano Deos, fundador e CEO do Gad’.

Acirramento da concorrência

A internacionalização desses bancos digitais também pressiona seus concorrentes diretos. Ao ganharem autoridade e robustez na operação, eles se aproximam dos bancos tradicionais.

“Tudo se endereça para termos uma corrida de posicionamento de liderança entre Itaú e Nubank. Vemos pelo número de clientes, valor de ativos, marcas mais valiosas. Esses dois grandes bancos apontam para serem, no futuro, os dois líderes de mercado”, opina Deos.

De acordo com dados do Banco Central, divulgados em janeiro, o Nubank atingiu mais de 112 milhões de clientes. Hoje, em número de clientes, a financeira fica atrás apenas da Caixa Econômica Federal e do Bradesco.

Com a internacionalização, uma das principais ameaças para os bancos tradicionais estaria no setor de private, o segmento de alta renda do mercado financeiro. “Antes eles não se preocupavam com o correntista que ia para o Nubank porque, normalmente, era uma pessoa de renda mais baixa, que tinha produtos mais simples e, portanto, mais difícil de extrair valor”, aponta Marcos Bedendo, professor da ESPM e sócio da consultoria Brandwagon.

Ele continua: “Agora, o Nubank mostra claramente que quer trazer um grupo de clientes que tem uma posição de renda, investimento e necessidade de serviço financeiro diferentes”.