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Menos opção, mais identidade: o poder do foco no varejo digital

No cenário atual, fazer menos — com mais intenção — pode ser a melhor forma de crescer

Alejandro Vázquez

cofundador e presidente da Nuvemshop 15 de janeiro de 2026 - 6h00

No varejo digital de 2026, o excesso virou problema. Opções demais confundem, mensagens genéricas afastam e experiências sem personalização perdem aquele calor humano tão importante. O que diferencia uma marca, cada vez mais, não é o tamanho da operação, mas a clareza de suas escolhas. As marcas que crescem com consistência são as que sabem quem são, o que representam e o que estão dispostas a não fazer.

Esse foi um dos pontos que mais se destacou nas discussões do segundo dia da NRF 2026. Em vez de escalar com tudo ao mesmo tempo, a provocação foi: como o foco estratégico pode ser o maior ativo de uma marca? Um dos insights mais fortes veio justamente do lugar menos esperado: a escassez pode ser vantagem. Ter menos tempo, menos recursos ou menos caminhos força decisões. E decisões claras constroem marcas claras.

No e-commerce e especialmente na venda direta ao consumidor, ou D2C (direct to consumer), marcas que operam com restrições — seja de orçamento, equipe ou tempo — frequentemente inovam mais. E, ao fazerem escolhas com mais intencionalidade, criam propostas mais nítidas. Isso ajuda o consumidor a entender rapidamente o que a marca entrega, o que ela representa e por que ele deve voltar.

Na Nuvemshop, vemos isso todos os dias. Entre as mais de 180 mil marcas que apoiamos no Brasil e na América Latina, é comum ver negócios de moda que optam por trabalhar com coleções cápsula, limitando o mix de produtos intencionalmente para reforçar identidade, reduzir excesso de estoque e aumentar a percepção de exclusividade. Marcas de cosméticos que, em vez de lançarem dezenas de itens, concentram-se em poucos produtos com formulações mais limpas, posicionando-se com clareza em torno de bem-estar e cuidado real. Muitas dessas marcas integram sua loja online com redes sociais como Instagram e TikTok, unificando mensagem e canal — o que reforça identidade e consistência de presença.

Fluidez com humanidade: o novo padrão de experiência

Outro ponto importante do debate foi o entendimento de que frictionless — conceito muito debatido em outras edições da feira e que fala em como aplicar uma jornada de compra sem atritos — é relevante para a criação de conexão emocional nas etapas de experiência de compra do consumidor. Tornar a jornada mais simples e rápida não deve apagar a possibilidade de acolher, de responder com empatia ou de demonstrar atenção. A melhor experiência é aquela que é fácil por fora, mas humana por dentro. E nós sabemos que é possível fazer isso mesmo dentro de processos automatizados e mantendo o tom de voz da marca.

Empresas de beleza, por exemplo, têm usado canais diretos como o WhatsApp para oferecer atendimento rápido, mas com toque humano, ampliando a eficiência sem sacrificar a relação. Outras automatizam comunicações como recuperação de carrinho ou envio de cupons, mas fazem isso com linguagem própria e conteúdo relevante — o que transforma automação em proximidade. No D2C, cada ponto de contato carrega a marca da identidade, seja por meio da loja online, do conteúdo ou das interações pós-venda.

Segundo estudo da Deloitte, 92% dos varejistas acreditam oferecer experiências personalizadas, mas apenas 48% dos consumidores dizem perceber isso. Esse descompasso revela onde muitas marcas estão perdendo conversão, recompra e lealdade — e evidencia a diferença entre automatizar interações e, de fato, criar relevância percebida.

Na Nuvemshop, acreditamos que personalização de verdade é aquela que o cliente reconhece como útil, relevante e no momento certo. Isso envolve entender os dados, interpretar o comportamento de compra, adequar a sua personalidade para ajustar a comunicação e integrar tudo isso a uma estratégia de relacionamento contínuo. Desde canais como e-mail e Whatsapp até o uso de dados para criar promoções contextuais, personalizar é mostrar que a marca está prestando atenção. E o cliente sente quando isso é real.

Foco não é sobre limitar ambição, é sobre aumentar clareza. Ser estratégico, hoje, é saber onde não estar, o que não dizer, o que não escalar. Marcas que simplificam com inteligência, priorizam o que importa e mantêm a experiência humana são as que constroem relevância de verdade.

No cenário atual, fazer menos — com mais intenção — pode ser a melhor forma de crescer.