Opinião

Criar com inteligência

Co-criando com a máquina: presença, intenção e discernimento

Pedro Garavaglia

Sócio do Radiográfico 7 de janeiro de 2026 - 14h00

Pensar em inteligência artificial (IA) é como caminhar sobre um terreno em constante mudança. Isso nos obriga a manter a mente aberta, prontos para rever nossos pontos de vista constantemente.

Acredito que existem formas criativas, inovadoras, artísticas — por que não? — e, principalmente, éticas de trabalhar com essas ferramentas. Quando surgiram as primeiras imagens criadas por ferramentas de IA tinha algo de estranhamente fascinante naquilo. Como assim criar imagens a partir de textos? Foi como entrar, da noite para o dia, num filme de ficção científica. E agora, o que vai ser da criação? E os direitos autorais das imagens que serviram de treinamento para a IA? Eram, e ainda são, tantos estranhamentos e dúvidas que, num primeiro momento, nem cheguei mais perto. Mas esse afastamento receoso durou pouco e a curiosidade falou mais alto, lá fui eu testar e buscar algumas respostas.

Minhas primeiras criações foram bem frustrantes: todos os resultados tinham um aspecto ridiculamente artificial, plastificado, frio. Bem parecido com que ainda vemos em larga escala nas redes sociais. Eram as típicas imagens feitas por IA. Só depois de muitos testes, comecei a entender melhor como as ferramentas operam e percebi a diferença entre imagens feita POR IA e imagens feita COM IA. Descobri, na prática, como funciona quando encaramos essas ferramentas como parceiras de cocriação. Seu uso exige presença e discernimento: é preciso julgar os resultados, fazer escolhas conscientes e orientar o rumo da criação. Só assim a IA será uma parceira criativa capaz de potencializar (e não substituir) o pensamento crítico humano.

Na prática, esse pensamento se traduz em uma busca constante por formas mais autênticas e éticas de cocriar com essas ferramentas. Da investigação e visualização de ideias até a criação de imagens que servirão de base para ilustrações e filmes animados, estou sempre buscando novas formas de incorporar a ferramenta no processo criativo. Entre a enorme quantidade de imagens que já criei, as que mais me interessam são as que trabalhei aos poucos, testando possibilidades, refinando, adicionando camadas e, principalmente, buscando estranhamentos — detalhes que quebram uma estética controlada e abrem caminho para a surpresa criativa.

Essa abordagem conecta-se diretamente com nossa forma de criar aqui no Radiográfico, onde unimos há 20 anos o design, arte e colaboração em nosso processo criativo. O design nos dá o método, a estrutura que guia as etapas da criação. A arte abre espaço para experimentar, descobrir e permanecer atento ao inesperado. E a colaboração é a nossa escuta: o diálogo aberto entre equipe, clientes e o próprio processo criativo. E mais recentemente, incluímos a IA nesse diálogo. Com ela, esses três pilares ganham novas dimensões: o processo estruturado nos ajuda a fazer as melhores perguntas às ferramentas, a experimentação nos permite explorar caminhos novos e surpreendentes e o diálogo conecta pontos de vista e expande nossas percepções. Nós imaginamos, ela oferece recursos; a gente escolhe, avalia e seleciona o que melhor se adequa ao projeto. Dessa troca viva, que pode até começar na IA mas sempre termina no corpo físico presente, surge um resultado final realmente autêntico.

Viver uma revolução cultural não é algo simples. O que parecia um futuro distante de repente meio à superfície e começou a influenciar nossa cultura visual. Por mais impressionante que seja a aparente “inteligência” dessas respostas visuais, elas são produto de processos lógicos e probabilísticos, que apesar de muito impressionantes, não devem ser aceitos sem uma análise crítica do seu valor e adequação. De outra forma, corremos o risco de nos afogarmos, ainda mais, em imagens vazias, superficiais, que no máximo impressionam e não comunicam – como num fast food visual, que não nos alimenta de fato.

A criatividade se reinventa nas condições mais extremas: é nesse limite que estratégias são testadas e novas soluções surgem. No momento, estamos descobrindo as melhores formas de incorporar essas ferramentas no nosso dia a dia, aprendendo a construir junto com elas. Nesse movimento, quem dominar a arte de combinar criatividade humana, capacidade tecnológica, e ética apontará os caminhos mais benéficos dessa revolução. A máquina expande e acelera as possibilidades, mas só a criatividade humana as transforma em cultura.