Opinião

Do laboratório ao branding

IA, dados e propósito redefinem P&D e aproximam pesquisadores e marketing na criação de valor ao consumidor

Elvis Barreto

20 de janeiro de 2026 - 17h55

A inovação sempre foi um dos pilares mais determinantes na construção de marcas fortes. Mas, nos últimos anos, o papel da área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) passou por uma transformação silenciosa e profunda.

O avanço da inteligência artificial (IA) e da automação está mudando não apenas a forma como desenvolvemos produtos, mas também a maneira como traduzimos ciência em experiência de marca.

Hoje, a inovação acontece em um ritmo sem precedentes. Projetos que antes levavam meses para serem testados e validados, agora podem ser formulados em metade do tempo, graças à aplicação de modelos de machine learning.

Esse ganho de velocidade tem um efeito direto na estratégia de negócios: encurta o ciclo entre insight, produto e mensagem, permitindo que as marcas respondam mais rapidamente a mudanças de comportamento e a novas demandas do consumidor.

Mas a verdadeira revolução não está na tecnologia e sim nas pessoas que a operam. O avanço da IA exige um novo perfil de profissional: o cientista híbrido, que combina o rigor da química com a lógica dos dados e a sensibilidade para entender tendências de consumo.

É esse perfil que vem conectando os laboratórios às áreas de marketing, acelerando o diálogo entre inovação e propósito.

De acordo com estudo do McKinsey Global Institute, metade das atividades realizadas globalmente por pessoas poderia, em teoria, ser automatizada com tecnologias já disponíveis. Em aproximadamente 60% dos postos de trabalho, pelo menos um terço das tarefas pode ser automatizada.

Considerando diferentes cenários de adoção, estima-se que pouco mais de 30% das horas trabalhadas no mundo poderão estar sujeitas à automação até 2030.

Com isso, pesquisadores e profissionais podem se dedicar mais a atividades estratégicas, como interpretação de dados e formulação de hipóteses orientadas por comportamento.

Quando essa transformação ocorre, a ciência deixa de ser apenas um ponto de partida técnico, passando a ser um pilar de construção e sustentação de marca. A escolha de um ativo, fragrância ou formulação sustentável, assim, expressa não somente eficiência, mas também valores e posicionamento.

A transformação digital está exigindo uma requalificação intensa dos profissionais de P&D no Brasil, com foco em competências como análise de dados, automação, machine learning, programação, design de soluções inovadoras e integração com áreas de marketing e finanças.

Um outro estudo da McKinsey mostra que as empresas líderes estão formando talentos cada vez mais multidisciplinares, ou seja, pessoas que sabem trabalhar em equipe, interpretar grandes volumes de dados e usar algoritmos preditivos e recursos de IA para

acelerar inovação. Com isso, a aprendizagem contínua e a capacidade de adaptação se tornam diferenciais essenciais no novo perfil profissional dessa área.

No fim, o que está em jogo é uma mudança de paradigma. A inovação deixou de ser apenas sobre o “o que” e o “como” — e passou a ser também sobre o “para quem”.

O pesquisador que entende de dados e o marqueteiro que entende de ciência se encontram no mesmo objetivo: criar soluções que façam sentido na vida das pessoas.

Em um mercado cada vez mais orientado por propósito, a ciência se torna o elo invisível entre produto, marca e consumidor.

E talvez essa seja a transformação mais importante do nosso tempo: compreender que o futuro do P&D não está apenas em descobrir novas fórmulas, mas em traduzir conhecimento em relevância cultural.