Excesso de informações versus educação profissional

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Opinião

Excesso de informações versus educação profissional

A importância de sermos lifelong learners e focarmos no que faz sentido ao nosso individual em meio a um mar de informações coletivas

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29 de setembro de 2023 - 6h00

Na semana passada, me encontrei lendo um artigo do Alex Bretas, de título “A história não contada da inteligência artificial generativa”. Sim, eu estava lendo sobre IA (quem não?) até que me deparei com o seguinte trecho: “O psicólogo americano Barry Schwartz, em sua fala no TED de 2005 (…), provoca dizendo que, em um supermercado perto de sua casa, ele encontrou 285 variações de biscoito, 230 tipos de sopa e 40 pastas de dente diferentes. Num cenário como esse – que se tornou global –, as tomadas de decisão se tornam cada vez mais extenuantes e geradoras de ansiedade”. Ele desenvolve o seu ponto de fala a partir daqui, complementando com uma info importante para quem trabalha com publicidade: “O YouTube, embora conte com mais de 100 milhões de canais ativos, recebe por volta de 90% de suas visualizações nos vídeos dos 3% maiores canais”. E conclui: “A pasteurização de conteúdos aumentou”.

Ele segue daqui para sua análise de IA, mas eu já estava completamente “sequestrada” pelo insight que tinha acabado de ter: essa conclusão do Alex foi exatamente o meu turning point de pensamento quando eu percebi que, para seguir trabalhando com comunicação ao longo da minha carreira, eu precisaria investir em educação. Em uma era de conteúdo líquido, abundante, disponível, pasteurizado, como um profissional consegue se manter atualizado sem se perder? Ou em termos modernos: como lidar com o volume absurdo de novidades e não ter um burnout, se achando o profissional mais desatualizado do mundo?

Como uma pessoa de memória muito ruim desde pequena, sempre fui prejudicada pelas provas “decorebas”. Me sentia pouco inspirada por professores que passavam horas na frente da sala em um monólogo infinito sobre a forma deles de ver o mundo. E o quanto me senti acalentada quando recorri aos mestres e me deparei com os argumentos límpidos de Paulo Freire, Frei Betto e bell hooks ao defenderem o pensamento crítico como ponto de partida para uma educação verdadeiramente transformadora. Décadas atrás e eles falando de engajamento, muito antes de o Mark inventar o botão de curtir. Ah! E dando o caminho das pedras, tá?

É curioso perceber que a fala deles antecipou uma necessidade que grita hoje no nosso mundo: o respeito à diversidade de pensamentos e vivências. Hoje possuímos recursos de percepção mais claros sobre viés, lugar de fala, narrativas únicas e excludentes, e estamos todos batendo cabeça para tentar aplicar isso no nosso cotidiano. Nas palavras dos especialistas em educação: tirar do espectro de repertório e transformar em conhecimento para, aí sim, virar ação. A gente sabe o que fazer, só não sabe como.

O que isso tem a ver com os conteúdos abundantes e pasteurizados? Como podemos esperar que adultos saibam lidar com o excesso de conteúdo e informações se eles nunca foram ensinados a se autocapacitar nem a pensar criticamente sobre os conteúdos recebidos? Nosso pensamento educacional é extremamente cartesiano e tende a acompanhar o sentimento tradicional de evolução de carreira: do mesmo jeito que eu cresço para virar um diretor, C-level etc. minha educação vai evoluir da escola para a faculdade, quem sabe, para uma pós e assim por diante… Olhe a gente delegando para o outro o que precisamos para crescer como indivíduos produtivos. E, sim, isso na geração do TikTok.

O peso da educação informal, do artigo lido recentemente, daquela série do Netflix que fala sobre tecnologia, da conversa de bar com alguém que ama arte, o hobby com música, o tempo de rolagem no feed do Instagram, tudo isso impacta nas nossas decisões de autoeducação. Onde escolhemos dedicar o nosso tempo é onde estamos fazendo a descida “repertório < conhecimento < ação” e isso deveria ser aplicado ao nosso ambiente profissional do mesmo jeito. Não é sobre produzir mais conteúdo. É sobre aprender a gerenciar o próprio tempo e os próprios desejos e curiosidades. E, convenhamos, nosso percurso educacional, somado à era do algoritmo, das ferramentas extensivas de produtividade e do conteúdo exponencial, não ajuda em nada nesse processo.

Sinto que é o momento de “trocar a roda do carro andando”. Ninguém vai (nem deve) frear a velocidade do mundo. É lindo ver como é mais fácil ter acesso a ferramentas que permitam que mais vozes se coloquem em escala exponencial. Mas estamos mais do que atrasados em organizar o pensamento educacional à luz dessa nova realidade. Não só no correspondente ao volume de conteúdos, formatos e produtores – aqui caminhamos muito bem, obrigada –, mas, sim, com o olhar de consumidor: ensinar quem produz a consumir certo, direcionado, com autorresponsabilização. Estimular o pensamento crítico, a troca, a autonomia, o saber em cadeia. É sobre criar a cultura do lifelong learner, o serzinho moderno que se percebe parte desse mar de informação coletiva, mas sabe colocar seu leme na direção que faz sentido individual. Nada poderia impactar mais em motivação no seu ambiente de trabalho do que isso.

E, se alguém tem dúvida da importância disso para o futuro do trabalho, entre os dez skills reconhecidos pelo World Economic Forum 2023 diante da nova economia, temos “curiosidade e aprendizagem contínua” na quinta posição, antecedida por “motivação, autoconhecimento e resiliência”, e “flexibilidade e agilidade” logo antes. Ah, e claro, em primeiro lugar, um pomposo “pensamento analítico”. Entender de dados, novas tecnologias e inteligência artificial é urgente, todos concordam. Para onde temos que olhar, está claro. Talvez seja a hora de a gente se perguntar “como” e criar ferramentas direcionadas para isso.

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