God bless qual América?
Quando um símbolo como “America” é reconfigurado em rede global, o que está em jogo não é apenas linguagem, é poder narrativo
O mainstream sempre gostou de se apresentar como universal. Como um ponto de convergência no qual diferenças são refletidas, traduzidas e reorganizadas sob uma mesma linguagem dominante. Mas toda centralização cultural carrega idioma, ritmo, estética e hierarquias, ainda que se diga partir de um espaço comum.
O Super Bowl é um desses momentos simbólicos do mainstream. Não apenas pela audiência, mas pelo que representa. O show do intervalo não é somente entretenimento, é um ritual televisionado que projeta para o mundo aquilo que ocupa o coração da cultura pop estadunidense, apresentado como global. Quem sobe naquele palco não está ali apenas para performar, mas também ajuda a construir a narrativa cultural do momento. Por isso, o que aconteceu ali foi maior do que o show de um artista em um evento esportivo.
Quando Bad Bunny encerrou sua apresentação dizendo “God bless America” e, em seguida, começou a nomear países do continente, Chile, Argentina, Brasil, México, Canadá e tantos outros, ele não estava fazendo um gesto de inclusão. Estava redefinindo o significado de uma palavra, de um conceito.
Nos Estados Unidos, “America” costuma ser usado para se referir apenas àquele país. Na tradição e compreensão latino-americana, e geograficamente correta, América é o continente. Ou “as Américas”, se preferir. Ao reivindicar essa abrangência no palco mais simbólico da cultura pop dos Estados Unidos, em um momento político marcado por discursos e políticas extremas contra imigrantes, o gesto ganhou uma camada ainda mais potente. Não foi tradução. Foi reinterpretação pública de um símbolo histórico.
Diversidade é estar presente. Centralidade é definir o enquadramento.
Durante anos, diversidade operou como ampliação de elenco: mais vozes, mais rostos, mais sotaques, mais referências culturais refletidas. Um avanço necessário, sobretudo porque ainda existem espaços que sequer fazem o mínimo. Mas ampliar o elenco nem sempre é o mesmo que alterar o roteiro.
O que vimos foi outra coisa. Não houve suavização de idioma, não houve explicação didática de códigos e símbolos, não houve adaptação para facilitar a compreensão. Houve contexto inteiro, sustentado sem mediação para a audiência. E isso é possível porque algo já havia começado a mudar antes.
O público global não é mais espectador homogêneo de uma narrativa central exportada. É híbrido, composto por múltiplas referências, acostumado a, cada vez mais, consumir cultura de diferentes lugares. A música latina já dominava plataformas e estádios, com números e retornos financeiros extremamente expressivos. O show do intervalo não criou essa força, mas a legitimou no coração do sistema.
Grandes eventos culturais não inventam deslocamentos, eles os oficializam, os solidificam. Quando um símbolo como “America” é reconfigurado em rede global, o que
está em jogo não é apenas linguagem, é poder narrativo. Quem define o significado das palavras, dos conceitos, também define os contornos da identidade coletiva.
Esse é um dos pontos que achei mais relevantes: não se tratou de ser aceito pelo centro, mas de operar por dentro dele, de usar as regras já estabelecidas do jogo, transmissão global, espetáculo esportivo, ritual patriótico, para expandir o próprio conceito de pertencimento.
E, uma vez que o centro se desloca publicamente, a reversão se torna mais improvável. Sem dúvida haverá resistência, como sempre ocorre quando estruturas simbólicas são tensionadas. Mas o impacto já está feito, a audiência foi recorde, a conversa ultrapassou o entretenimento, e o debate semântico tornou-se debate político, cultural e identitário.
Talvez esse seja mais um capítulo de uma transformação mais ampla, a descentralização progressiva dos Estados Unidos como referência cultural dominante do Ocidente. Não um colapso, mas uma redistribuição. Não um fim, mas uma reconfiguração.
O que vimos no Super Bowl foi um artista porto-riquenho, cidadão americano, atuando dentro da maior vitrine da cultura dos Estados Unidos e expandindo o significado de “América” e união para além de suas fronteiras nacionais. Não como concessão, mas como afirmação. A discussão já não é apenas sobre quem participa da narrativa global, mas quem define seus limites. Quando esses limites se expandem ao vivo, diante de milhões, algo se torna irreversível. Quando o centro se desloca em público, torna-se mais difícil retornar ao que antes era dominante, que passa a ser apenas uma entre as forças dessa disputa de narrativas.
Ignorar ou desmerecer isso não preserva poder. Apenas revela quem já ficou para trás. O efeito está feito. E muita gente ainda vai falhar tentando lutar contra um princípio básico da humanidade: a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor. E fim. Ou, melhor, e começo.