Contrate um atleta
Em um mundo corporativo cada vez mais definido por volatilidade e competição, essa experiência pode ser um ativo raro e valioso
Nos últimos anos, empresas, organizações esportivas e até governos passaram a olhar para ex-atletas profissionais como uma nova fonte de talentos para preencher seus cargos de liderança e gestão. Embora o esporte de elite e a gestão corporativa pareçam mundos distantes, a transição dos campos, piscinas e quadras para as salas de reuniões deixou de ser incomum e, em muitos casos, tem se mostrado bastante eficaz.
Contratar ex-atletas para cargos de administração oferece vantagens únicas, mas também apresenta limitações claras. Compreender ambos os lados é essencial para as organizações que consideram essa opção.
O esporte de alta performance exige um nível extraordinário de disciplina, foco e compromisso de longo prazo. Esses são comportamentos vividos e reforçados diariamente ao longo de anos de competição. Para os empregadores, isso se traduz em diversos benefícios concretos.
Primeiro, ex-atletas têm muita familiaridade em estabelecer metas e trabalhar para atingi-las. Suas carreiras são construídas em longos ciclos de planejamento com uso de métricas de desempenho e melhoria contínua. Essa mentalidade não é muito diferente dos processos de planejamento estratégico e gestão de projetos nos ambientes corporativos.
Em segundo lugar, saber lidar com a pressão é uma realidade constante para sua sobrevivência e sucesso. Suas carreiras são sucessões de vitórias e fracassos, lesões, exposição pública e competição intensa, muitas vezes nos maiores palcos do mundo. Com esse nível de preparação para lidar com a pressão do dia a dia, tendem a manter a calma sob estresse e a lidar melhor com crises ou períodos de incerteza.
Terceiro, eles tendem a ter bom desempenho em funções que exigem motivação, desenvolvimento de talentos e gestão de mudanças. Tendo passado anos otimizando seu próprio desempenho, frequentemente se destacam ao treinar outras pessoas, construir culturas positivas e alinhar objetivos individuais com metas organizacionais.
Apesar de todas essas vantagens, contratar ex-atletas não está livre de desafios.
A limitação mais evidente é a falta de experiência técnica ou específica do setor. Excelência esportiva não se traduz automaticamente em conhecimento financeiro, regulatório, de marketing ou operacional. Sem um processo adequado de integração, treinamento e mentoria, alguns atletas podem ter dificuldades em cargos de gestão que requeiram conhecimentos específicos.
Outro fator que merece atenção é a adaptação desses novos profissionais, geralmente competitivos por natureza, a ambientes em que colaboração, consenso e gestão de diferentes opiniões são importantes para o sucesso coletivo.
Por fim, alguns ex-atletas enfrentam transições de identidade que podem afetar a confiança no início de suas segundas carreiras. A passagem de um mundo claramente definido e orientado por performance para estruturas corporativas mais ambíguas exige adaptação, paciência e apoio psicológico.
Organizações que têm sucesso com ex-atletas costumam seguir algumas boas práticas. Contratam pelo potencial e pela mentalidade, não pelo conhecimento. Investem em educação, seja por meio de MBAs, programas executivos ou treinamentos internos. Posicionam os atletas em funções nas quais liderança, comunicação e cultura de performance são centrais, e não em cargos puramente técnicos.
Quando essas condições são atendidas, os resultados podem ser poderosos para indivíduos e organizações.
Ex-atletas não são soluções universais para desafios de gestão, mas, quando contratados de forma criteriosa, podem se tornar líderes excepcionais. Suas carreiras são a prova de como se constrói excelência sustentada sob pressão. Em um mundo corporativo cada vez mais definido por volatilidade e competição, essa experiência pode ser um ativo raro e valioso.
Preste atenção nas Olimpíadas de Inverno de Milano-Cortina, que acontecem este mês. Quem sabe a sua próxima contratação não estará nas pistas e montanhas geladas italianas?