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Opinião

Olho na pressão

Se as agências não cuidarem de melhorar seus ambientes de trabalho, correm o risco de agravar ainda mais a crise de perda de talentos que a atividade enfrenta


29 de agosto de 2016 - 14h01

Salários baixos, carga de trabalho excessiva e atividades maçantes. Ambientes insalubres, competitividade desleal e protecionismo. Gestões burocráticas, falta de comunicação e líderes autoritários. Esse cenário nada agradável é descrito por centenas de posts que alimentaram a chamada “lista das agências”, uma planilha online criada no dia 17 pelo publicitário Caio Andrade, palestrante da Hyper Island.

Com a aparentemente inofensiva pergunta “Como é trabalhar aí?”, ele pretendia ajudar um amigo a procurar estágio em agências. O problema é que, como ocorre com diversas outras iniciativas bem intencionadas, ao cair no ambiente incontrolável e movediço da internet, a lista virou também escape para anônimos difamarem pessoas e empresas. A impossibilidade de separar opiniões sinceras do gosto pela zoeira levou o próprio autor a retirar a planilha do ar poucos dias depois, alegando incômodo com a quantidade de comentários fora de contexto (“teve gente que perdeu a mão em alguns feedbacks”, reconhece).

“Apesar de não valer como prova contra as empresas criticadas, a lista é mais um alerta da intolerância atual em relação a hostilidades e abusos no ambiente de trabalho das agências, um universo ainda dominado pela gestão masculina e, muitas vezes, com carga de trabalho estressante”

Em artigo publicado aqui no site de Meio & Mensagem, Caio disse acreditar que sua iniciativa fez as “pessoas refletirem sobre como trabalham, lideram e gerenciam suas equipes” — o que, se de fato ocorreu, é algo positivo. Entretanto, ele mesmo admite que essa reflexão não é fácil e teme o risco de, no fim, “sobrar mais trevas do que luz dessa discussão”. A sua ideia, saudada na internet até com exageros como “WikiLeaks das agências brasileiras”, acabou gerando outras listas semelhantes e páginas dedicadas ao tema no Facebook.

Apesar de não valer como prova contra as empresas criticadas, a lista é mais um alerta da intolerância atual em relação a hostilidades e abusos no ambiente de trabalho das agências, um universo ainda dominado pela gestão masculina e com carga de trabalho estressante — ainda mais em época de crise, quando as equipes encolhem e a cobrança por resultados aumenta.

Como mostra o texto da repórter Isabella Lessa, publicado na edição impressa de Meio & Mensagem desta semana, o mercado e a sociedade estão cada vez mais dispostos a rejeitar e reagir frente a comportamentos que antes passavam batido, mas hoje são inadmissíveis. Nunca antes o mercado global de agências havia perdido três líderes de grandes redes em um espaço de tempo tão curto por polêmicas relacionadas à intolerância à diversidade, como ocorreu nos últimos meses com Kevin Roberts (Saatchi & Saatchi), Gustavo Martinez (J. Walter Thompson) e Alexei Orlov (Rapp).

Por outro lado, é fato que as grandes agências de publicidade brasileiras não gostam muito de discutir seus ambientes de trabalho. Prova disso é a ínfima adesão à pesquisa Melhores Agências Para Trabalhar, do Great Place to Work, cujo resultado foi revelado na semana passada por Meio & Mensagem. Entre as 90 agências que se inscreveram gratuitamente e foram avaliadas por seus funcionários, estão apenas quatro das 50 listadas no ranking Agências & Anunciantes das maiores compradoras de mídia do País. A maioria prefere não aderir por temer — ou antever — má classificação nos critérios internacionais, aplicados há 20 anos em mais de sete mil companhias de todo o mundo, que avaliam não só planos de carreira e benefícios, mas a qualidade do ambiente de trabalho e a valorização das funções que cada profissional exerce. “As agências precisam aprimorar seus gestores para cuidar das pessoas. Em diversos segmentos da indústria, profissionais assumem funções de liderança sem estarem preparados para gerir seus colegas de trabalho”, diz Ruy Shiozawa, presidente do Great Place to Work Brasil.

Além de abrir espaço para reflexões sobre esse tema, outra contribuição que Meio & Mensagem dá ao mercado na difícil tarefa de repensar suas práticas é o projeto Women to Watch, que homenageia nesta semana as seis selecionadas de 2016. Conhecendo melhor os perfis das escolhidas nesta quarta edição brasileira, comprova-se que ambientes mais plurais e diversos são importante caminho para a evolução dos negócios.

Evolução que não virá para os profissionais só com a disseminação de amargura pelas redes sociais — o que pode até ser uma catarse pessoal, mas não resolve o problema. Os funcionários de agências — especialmente os insatisfeitos — terão de buscar formas de mobilização mais efetivas. Em contrapartida, se as agências não cuidarem de melhorar seus ambientes de trabalho, correm o risco de agravar ainda mais a crise de perda de talentos que a atividade enfrenta. Se deixarem a panela na fervura, o caldo vai entornar — o que não é bom para nenhuma das partes.

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