Percepções sobre o primeiro SXSW Sydney

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Opinião

Percepções sobre o primeiro SXSW Sydney

Atravessei o mundo para participar da primeira edição do evento original de Austin na Austrália e vim aqui compartilhar o que aprendi

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24 de outubro de 2023 - 16h35

Pela primeira vez desde 1987, o South By Southwest (SXSW), um dos maiores festivais de inovação e criatividade dos EUA, foi realizado fora de sua casa, no Texas. O SXSW Sydney aconteceu entre os dias 15 e 22 de outubro, anunciado como “a edição oficial e anual do SXSW para a região Ásia-Pacífico“.

Ao longo de uma semana, mais de 1.000 experiências diferentes fizeram parte da programação do festival. Organizado em quatro pilares (Tech/Inovação, Games, Música e Filmes), o megaevento contou com mais de 700 palestrantes, mais de 300 apresentações musicais, 75 filmes e produções para a TV, dezenas de casas, ativações de marcas e eventos de happy hour e uma feira de produtos tecnológicos, onde também aconteceu uma exposição de projetos de Realidade Estendida (XR Exhibition).

Minha sócia, Carol Soares, e eu demos uma volta ao mundo para participar do SXSW Sydney. Ainda com a cabeça cheia de tanta informação, compartilho a seguir um pouco das nossas percepções, experiências e insights direto do futuro (ainda estamos na Austrália e treze horas à frente do Brasil).

“Cara de um, focinho de outro”

O velho ditado resume bem o primeiro South By Sydney. Frequentamos a edição original do festival em Austin desde 2012. É inevitável compará-los.

Palestrantes já famosos entre os brasileiros como a futurista Amy Webb e o pesquisador de tendências Rohit Bhargava se apresentaram em Sydney, assim como estrelas de Hollywood – as atrizes Nicole Kidman e Naomi Watts, o diretor Baz Luhrmann (Moulin Rouge, Romeu e Julieta) e o roteirista e criador da série Black Mirror Charlie Brooker. Chance The Rapper e Paul Tollet, co-fundador do festival Coachella, foram também alguns dos destaques da conferência de música do South By.

À primeira vista, o lineup do SXSW Sydney parecia mais uma edição norte-americana que da região Ásia Pacífico. Porém, ao observar a programação do festival, chamou a atenção a diversidade de representantes de povos originários em palestras e produções audiovisuais, além da presença maciça de artistas do sudeste ásiatico na programação musical do festival ou de palestras interessantíssimas, como a intitulada “Como a Indústria de Conteúdo Coreana Conquistou o Mundo”.

O SXSW Sydney importou a marca, alguns palestrantes e o espírito criativo e inovador que Austin vem aprimorando nos últimos 37 anos. Mas conseguiu também impor a sua personalidade, surpreendendo em seus conteúdos e mostrando o que o ocidente pode e tem a aprender com a criatividade e inovação do eixo Ásia-Pacífico (APAC).

Inteligência Artificial: inevitável e irreprimível

Para a surpresa de ninguém, a Inteligência Artificial foi o assunto dominante do início ao fim do festival.

Uma das lendas vivas da publicidade mundial, David Droga, afirmou que essa é uma “tecnologia irreprimível”. Ele acredita que não adianta tentar impedir seu avanço, mas sim procurar entender para onde ela está indo e como usá-la para tornar ideias e soluções mais impactantes.

Por outro lado, ele foi enfático em dizer que embora a IA possa eliminar a “mediocridade mediana da criatividade”, sempre haverá espaço para a criatividade humana que traz nuances, imperfeições e conexões emocionais que as máquinas não conseguem replicar. Ele acredita que a IA pode “amplificar parte do trabalho criativo, mas nunca substituirá totalmente a capacidade humana de imaginar coisas nunca antes vistas”.

O mesmo ponto de vista foi compartilhado por Charlie Brooker, um dos keynote mais esperados e lotados do SXSW Sydney. O comediante, roteirista e criador da série Black Mirror, contou que quando experimentou inteligência artificial pela primeira vez, ao pedir para um sistema gerar uma ideia para um episódio de Black Mirror, percebeu que o sistema não era realmente capaz de criar uma ideia original “apenas estava repetindo e vomitando de volta descrições de episódios anteriores que já havia lido na internet”. Brooker concluiu que a IA na verdade não era capaz de criar conteúdo original por conta própria, e estava apenas fingindo e emulando o que já havia aprendido, em vez de ser realmente criativo.

A verdadeira ameaça, segundo Charlie Brooker, é a desinformação e o fim do que entendemos como verdade: “Tenho medo da ideia de imagens falsas sendo usadas como desinformação, especialmente se forem criadas para fins militares, porque já estamos em um período em que as pessoas estão se dividindo em grupos e escolhendo suas próprias versões dos fatos. E como diabos vamos conseguir resolver os problemas que enfrentamos se não pudermos concordar sobre o que é a realidade e o que é a verdade? O fato de que poderíamos ser atacados de forma ainda mais sofisticada dessa maneira é realmente assustador.”

A futurista quântica Amy Webb também foi uma das palestrantes a evidenciar o lado mais sombrio da IA: “Quando se trata de deep fakes, levanto preocupações éticas, especialmente no campo da medicina. Já é possível hoje criar exames médicos falsos, inserindo ou removendo tumores digitalmente. Isso coloca em risco a precisão do diagnóstico e tratamento. Além disso, à medida que avançamos na reconstrução de memórias cerebrais, surge o questionamento sobre a privacidade mental e até mesmo a possibilidade de manipulação de evidências forenses. Isso afeta toda a confiança da indústria médica, por exemplo.”

Tão distantes e tão próximos

Em 2022, poucos dias antes do SXSW Austin iniciar, o estado do Texas aprovou uma lei restringindo os direitos de pessoas trans.

Na primeira edição do Web Summit Rio, a ativista amazônica Txai Suruí subiu ao palco ao lado do global Luciano Huck para fazer um apelo em defesa da Amazônia e contra a lei do marco temporal.

E dois dias antes do SXSW Sydney começar, 60% dos australianos rejeitaram em referendo uma emenda à Constituição que propunha reconhecer os aborígines como os primeiros habitantes do território, incluindo a criação de um órgão consultivo para lidar com temas relacionados aos povos originários no Parlamento.

A organização do South By posicionou-se contra o referendo, reconhecendo a participação e contribuição de uma cultura que permanece ativa por mais de 65 mil anos. Um manifesto foi apresentado antes de todas as palestras e exibições de filmes. Antes das principais sessões do festival, representantes de Gadigal (nome original da região onde hoje situa-se Sydney) foram convidados para contar histórias e curiosidades de sua tradição para os participantes do festival.

“Sempre foi, sempre será” foi provavelmente a frase mais escutada em todo o SXSW Sydney. Um mantra que é ao mesmo tempo um exemplo de resistência e perseverança de uma nação com um passado sujo, e que ainda procura escondê-lo debaixo do tapete, sem perceber que quanto mais faz isso, mais visível fica o seu preconceito para o resto do mundo.

E o Brasil no SXSW Sydney?

Diferente de Austin, ainda não se escuta o português para cima e para baixo nos corredores do seu centro de convenções. Não houve uma palestra ou eventos promovidos por brasileiros. Mas eles (e nós) marcamos presença nos lounges de marcas e eventos de happy hour.

Acabei me conectando com parte da comunidade local, mas nenhum dos Brasileiros que encontrei lá viajou para a Austrália. Todos já residiam no país e ganharam convite, trabalhavam como voluntários ou pagaram do próprio bolso para participarem do festival.

Eles (e nós) saíram muito bem impressionados com o South By Sydney e foi um privilégio nos conectarmos e escutar suas histórias. O lounge da Seven, grupo de mídia local e um dos mais animados happy hours do festival, virou o ponto de encontro dos brasileiros (tal como o Pete’s é em Austin, mas sem o duelo de pianos). Quase entrei para o grupo de mídia dos Brasileiros de Sydney, mas como não moro lá, acabei mesmo trocando contatos e aprendendo sobre as dores e delícias de viver no outro lado do mundo.

Se depender da comunidade brasileira, o SXSW Sydney daqui a pouco será como o de Austin, onde a delegação verde e amarela já é a maior internacional do festival.

Será? Não sei. Acho que volto em 2024 para descobrir. Se topar vir junto, me manda uma mensagem no LinkedIn. Já estou com roupa de ir começar a organizar essa missão.

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