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Opinião

A importância de sonhar acordada

Talvez estejamos tão ocupadas com as mídias sociais e o celular que deixamos o mundo passar pela janela e nem percebemos


2 de julho de 2024 - 8h15

(Crédito: Adobe Stock)

Recentemente eu vi um vídeo da Patti Smith que me deixou presa. Fiquei pensando nele por dias, e ainda penso. E, como sempre faço quando esse tipo de coisa acontece, decidi trazer as reflexões que tive com a fala dela para cá. 

No vídeo, a Patti Smith diz que as mídias sociais e os smartphones estão fazendo com que a gente perca a capacidade de sonhar acordada. O que ela chama de sonhar acordada é basicamente prestar atenção no mundo, pensar consigo mesma, se permitir não fazer nada e se entregar à contemplação. Até mesmo, eu diria, se entregar ao ócio e se permitir sentir tédio. 

Para ela, o uso indiscriminado dos smartphones e das mídias sociais vicia e nos leva a perder a visão periférica e a ter apenas uma visão de túnel, como se o pensamento fosse em linha reta, sem espaço para divagação. E essa divagação, esse sonhar acordado é importante não só para crianças, mas também para adultos. 

Patti enxerga com consternação o fenômeno de as pessoas ficarem o tempo todo com o nariz enfiado no telefone e simplesmente se esquecerem de pensar, refletir, deixar a mente viajar. Em vez de sonhar acordadas ou prestar atenção nas folhas, no mundo ao redor, ficam trancadas em seus mundinhos particulares. Para a artista, isso é algo muito prejudicial. 

Na opinião da Patti Smith, com a qual eu concordo, nós precisamos sonhar mais acordadas, precisamos de mais tempo para pensar. Para ela, é por meio da divagação e da contemplação que temos muitos de nossos impulsos criativos. Novas ideias e maneiras criativas de solucionar os problemas podem surgir desse ato tão simples e do qual muitas vezes nos esquecemos. 

Ela até dá o exemplo de andar de metrô. Em um trajeto de 40 minutos, em vez de passar todo esse tempo rolando o feed ou vendo stories alheios, por que não pegar um livro? Ou, melhor ainda, simplesmente deixar a mente navegar à deriva e ver até onde ela vai? Patti argumenta que nós não devíamos perder esse momento à deriva, porque ele é importante para deixarmos que a imaginação ganhe asas e as ideias floresçam. 

Em inglês, existe o termo “awe” que poderia ser livremente traduzido como “admiração”, “assombro”, “deslumbramento”. E eu acho que, de certa forma, esse ato de admirar a vida e se deslumbrar com ela e com o mundo está intimamente ligado à contemplação que Patti tanto prega. Maravilhar-se com as coisas ao nosso redor fomenta a inovação, alimenta e enriquece a nossa vida. 

Há pouco tempo, li uma matéria na BBC sobre como a busca incessante por produtividade e o utilitarismo esgotam nossa capacidade de se deslumbrar com as coisas, de acordo com uma filósofa, a belga Helen de Cruz. E, de fato, eu tenho a impressão de que é justamente nos momentos de ócio que o deslumbramento vem e as ideias mais incríveis surgem! 

Quem é que nunca teve aquela ideia brilhante durante uma corrida ou mesmo durante uma prática de yoga, justo ao tentar esvaziar a mente? Eu já tive ideias muito boas e resolvi vários problemas correndo ou fazendo qualquer coisa tão banal quanto tomar um banho. 

Outro link que eu acho que dá para fazer com essa fala da Patti Smith e com a ideia do deslumbramento é o filme Dias Perfeitos, do Wim Wenders. Nele, a gente acompanha a rotina de um homem cujo ofício é limpar banheiros públicos em Tóquio. Só essa premissa já seria muito interessante, mas a grande questão do filme é o jeito como o personagem principal encara o mundo. 

O protagonista de Dias perfeitos não só passa pelo mundo, mas se deixa maravilhar por ele. Ele se dedica à contemplação, à admiração da banalidade e do cotidiano, mesmo em meio a uma rotina atribulada, de banheiro público em banheiro público. 

Um hábito interessante que ele cultiva é todos os dias tirar uma foto da maneira como a luz incide sobre as folhas de uma mesma árvore, já que cada dia proporciona uma iluminação distinta e é preciso ter olhos atentos para perceber essas nuances.  

E não coincidentemente, o personagem é totalmente analógico: não tem smartphone, não usa uma câmera digital, ouve música no carro em fitas gravadas e ama uma boa leitura em livros físicos. 

Tudo isso me levou a algumas reflexões. A primeira é que, de fato, a gente precisa se dar ao luxo de ter momentos de contemplação, de sonhar acordada e deixar a mente divagar. Principalmente a gente, que trabalha em funções criativas, precisa cultivar o terreno para que as boas ideias brotem. Caso contrário, elas nascem mirradas e não dão frutos. 

A segunda é que, embora a produtividade seja muito importante, nós não devíamos nos tornar reféns dela. Deixar um espaço em branco para o ócio na agenda talvez seja uma saída interessante para sermos mais criativas no dia a dia, tanto em relação ao trabalho quanto às demandas da vida pessoal. 

E a terceira é que talvez estejamos tão ocupadas com as mídias sociais e o celular que deixamos o mundo passar pela janela e nem percebemos. Nesse sentido, limitar o período passado no Instagram e monitorar o tempo de tela podem ser alternativas eficazes não só para melhorar nossa saúde mental como também para alimentar nossa criatividade. Será que esse é um desafio que conseguimos ultrapassar?  

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