SXSW: O potente encontro entre Brené Brown e Esther Perel

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Blog da Regina

SXSW: O potente encontro entre Brené Brown e Esther Perel

Duas das grandes pensadoras contemporâneas sobre relações humanas comovem a audiência do SXSW ao falar sobre conexão e vulnerabilidade


11 de março de 2024 - 6h31

Brené Brown, professora da Universidade de Houston e pesquisadora, e a psicoterapeuta Esther Perel em painel do SXSW 2024 (Crédito: Arquivo pessoal)

Um dos auditórios mais repletos de mulheres dentre todos que estou vendo aqui no SXSW foi sem dúvida o que reuniu lado a lado Brené Brown, professora da Universidade de Houston e pesquisadora de temas como coragem, vulnerabilidade, vergonha e empatia; e Esther Perel, psicoterapeuta reconhecida como uma das vozes mais perspicazes e originais da atualidade sobre relacionamentos modernos.

Além de serem comunicadoras fenomenais, Brené e Esther sabem traduzir como poucas as grandes mazelas do que é ser da espécie humana neste momento da história diante dos impactos da tecnologia nas interações entre as pessoas, seja no âmbito pessoal ou profissional. O painel, oferecido pela Vox Media, produtora do podcast “Unlocking Us”, de Brené Brown, foi uma gravação ao vivo do próximo episódio do programa.

“A qualidade de sua vida está diretamente ligada à qualidade de seus relacionamentos”, diz enfaticamente Esther ao contar que uma das questões que mais escuta na sua clínica são queixas sobre solidão e busca por conexão. E diz que quanto mais conectadas as pessoas estão por conta da tecnologia literalmente na mão, mais distantes de relações com significado elas parecem estar.

Ela comentou sobre um conceito que já tinha trazido ao palco do SXSW, no ano passado: “o outro AI deste tempo é o surgimento da intimidade artificial, que se refere às experiências que temos atualmente, que são, na verdade, pseudoexperiências. Elas deveriam nos dar a sensação de algo real, mas não o fazem. Quando você fala comigo sobre algo profundamente pessoal e eu respondo com um simples ‘entendi’, isso pode parecer insatisfatório e frio e distanciar ainda mais essas pessoas”.

E ressaltou que a preocupação com a crescente falta de experiências não mediadas, onde as pessoas estão cada vez mais preocupadas em capturar momentos com os seus smartphones em vez de vivenciá-los plenamente, podem funcionar como uma barreira para a vulnerabilidade e a autenticidade nas interações humanas.

Ao comentar esse fenômeno, Brené enfatizou que o telefone pode ser um “escudo de vulnerabilidade” em algumas situações. “Podemos explorar a dualidade das interações sociais mediadas pelo celular. Por um lado, ele pode ser uma ferramenta que nos desconecta do mundo ao nosso redor, limitando as interações cara a cara e prejudicando nossas habilidades sociais. Por outro lado, ele também pode ser uma fonte de conexão, permitindo-nos interagir com pessoas em diferentes circunstâncias ao redor do mundo e proporcionando um senso de comunidade.

Ambas destacaram que o uso excessivo dos smartphones pode transmitir uma mensagem de que a pessoa com quem estamos interagindo não é tão importante, o que pode levar a sentimentos de solidão e falta de valor. Isso pode contribuir para a ansiedade e outras questões de saúde mental que são frequentemente discutidas atualmente.

Neste aspecto, Esther levanta um importante questionamento. “A crise de saúde mental que todos falamos atualmente é realmente uma crise ou simplesmente uma resposta normal a situações de crise? “Durante momentos de sofrimento ou luta, às vezes, as pessoas não precisam ser consertadas, porque algumas coisas não podem ser consertadas, pelo menos não imediatamente. Elas simplesmente precisam de alguém que as veja, que as reconheça em sua dor e que esteja presente ao lado delas. Isso proporciona uma sensação de não estar sozinho, de não estar isolado em seu sofrimento”. Mas reconhece, no entanto, que muitas vezes as pessoas ao nosso redor podem não suportar nosso sofrimento por muito tempo, desejando que melhoremos rapidamente, “não porque não se importam, mas porque também sofrem com a nossa dor”.

Brené Brown ficou mundialmente conhecida, há alguns anos, por seus livros, alguns deles traduzidos em português, como A arte da imperfeição (2010), A coragem de ser imperfeito (2012), e Mais forte que nunca (2015). Mas alcançou o patamar de estrela pop ao ser autora de uma palestra na plataforma TED sobre o poder da vulnerabilidade que figura como uma das cinco palestras TED mais vistas do mundo, com mais de 60 milhões de visualizações. Tal popularidade a levou a ser a primeira pesquisadora a ter uma palestra filmada na Netflix.

E por ter a vulnerabilidade como objeto de seu trabalho, costuma fechar o podcast convidando seus convidados para completarem a sentença: vulnerabilidade é… A resposta de Esther foi dupla. A primeira, bastante intuitiva: “Vulnerabilidade é como ficar com o peito congestionado, sentir as lágrimas brotando, mas sem a certeza se elas já vão escorrer, e se perguntar aonde essa abertura vai levar”. Após alguns segundos, pediu para Brené fazer a mesma pergunta novamente. E, na segunda vez, sua resposta foi: “fui ensinada pelos mais pais, que tiveram que fugir de campos de concentração, que ser vulnerável significa a morte”.

Brené Brown, então, reconheceu que falar sobre vulnerabilidade num mundo cheio de tantas iniquidades é realmente um privilégio. “Vulnerabilidade, para mim, também significa reconhecer que, embora todos precisemos dela, o mundo pode ser hostil à vulnerabilidade para algumas pessoas. Não deveria ser um privilégio ser vulnerável, pois é essencial para se conectar com experiências como amor, alegria, pertencimento e arte. No entanto, num mundo com racismo e homofobia sistêmicos, a vulnerabilidade pode ser perigosa e roubar as liberdades dos indivíduos.”

Confesso que sai do painel com lágrimas nos olhos. O poder fenomenal de comunicação que Brené e Esther têm toca fundo. Ambas combinam uma habilidade rara de falar sobre temas complexos de forma simples e direta, chamando a atenção para questões essenciais destes tempos bicudos que vivemos.

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