Gênero, raça e clima: as camadas invisíveis das tragédias ambientais 

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Gênero, raça e clima: as camadas invisíveis das tragédias ambientais 

Como empresas e agências podem combater a crise climática sem esquecer o lado social 


23 de janeiro de 2024 - 14h48

As tragédias climáticas estão nas primeiras páginas da imprensa ultimamente. Em 2023, 5,8 milhões de brasileiros foram afetados pelas chuvas e secas, segundo levantamento da Confederação Nacional dos Municípios. São pessoas que perderam a vida, bens materiais e até mesmo o teto sob o qual viviam.  

A realidade, entretanto, é que grande parte da população mais vulnerável a essas perdas decorrentes de eventos climáticos extremos são mulheres e negros. Entre os desalojados por tragédias climáticas, 80% são mulheres, segundo o presidente da COP 26, Alok Sharma. Hoje, 1 a cada 10 mulheres vivem abaixo da linha da pobreza no mundo, cerca de 10% da população feminina mundial, de acordo com o relatório de 2023 da ONU sobre o progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). 

Visto que as mulheres enfrentam desigualdades salariais, obstáculos no progresso da carreira profissional, são as chefes de famílias e responsáveis pelos trabalhos de cuidado, os impactos das mudanças climáticas são ainda mais devastadores para este grupo. 

A pesquisa da ONU ressalta outros dados alarmantes sobre o impacto das crises climáticas e econômicas sobre as mulheres. Até 2050, cerca de 160 milhões de mulheres em todo o mundo poderão ser empurradas para a pobreza como resultado direto das alterações climáticas. Além disso, 240 milhões de mulheres poderão sofrer de insegurança alimentar, em comparação com mais 131 milhões de homens. 

Partindo desses dados, ativistas e líderes começaram a defender o movimento de justiça climática. “Por que a transição para a economia verde deve ser realizada de maneira justa? Porque precisamos proteger as mulheres e a população mais pobre, que no Brasil é majoritariamente negra, em situações de risco”, explica Camila Valverde, diretora de impacto da Rede Brasil do Pacto Global da ONU. 

Camila Valverde, diretora de impacto da Rede Brasil do Pacto Global da ONU: “Precisamos proteger as mulheres e a população mais pobre, que no Brasil é majoritariamente negra, em situações de risco” (Crédito: Divulgação)

“Não estou me referindo apenas aos efeitos climáticos extremos, mas também a situações como perdas agrícolas devido a crises climáticas, que levam a um aumento nos preços dos alimentos. Quem será mais prejudicado pela falta de recursos para comprar alimentos? Novamente, é a população mais vulnerável, com menor renda e frequentemente residindo em áreas menos privilegiadas e seguras”, avalia Camila. “A interseção entre gênero e raça é constante nesse tema, e cidades, empresas e governos precisam considerar essa agenda de adaptação de maneira integral.” 

Os investimentos em ações de sustentabilidade ambiental aliadas à ótica de gênero e raça podem beneficiar as populações mais vulneráveis às crises climáticas, de acordo com o relatório da ONU Mulheres. Segundo o texto, recursos destinados a energia renovável, produção agrícola e mobilidade urbana sustentáveis podem criar oportunidades de emprego e renda, se combinados com políticas de inserção dessas populações no mercado de trabalho.  

“Antes de tudo, vale dizer que estamos todos no mesmo barco: sociedade civil organizada, setor corporativo e cidadãos. Acredito que o setor como um todo também tem muito a contribuir, se tivermos uma atuação colaborativa com foco na elaboração de planos de transição energética e de adaptação para uma economia de baixo carbono”, argumenta Fabiana de Freitas, vice-presidente de assuntos corporativos do Grupo Boticário. 

“O setor tem muito a contribuir, se tivermos uma atuação colaborativa com foco na elaboração de planos de transição energética e de adaptação para uma economia de baixo carbono”, diz Fabiana de Freitas, VP de assuntos corporativos do Grupo Boticário (Crédito: Divulgação)

Papel das Empresas

Como farol para a mudança, o Pacto Global da ONU completou vinte anos no Brasil, sendo a segunda maior rede em escala global, totalizando duas mil organizações signatárias. Com o propósito de orientar as empresas rumo aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, o Pacto oferece diferentes recursos de apoio para os membros e sugere diretrizes de conduta para que as companhias contribuam para a mudança desse cenário.

Lideranças engajadas 

Para Camila Valverde, o envolvimento das lideranças é a peça-chave para o avanço da pauta no setor privado. “A convicção e o comprometimento da alta liderança são essenciais, representando o que chamamos de “tone of the top” ou o poder da caneta. A liderança serve como espelho para a organização, refletindo seu comportamento e decisões, seja em relação à ODS 5, que aborda gênero, à ODS 13, sobre clima, e todas as outras”, afirma. 

Letramento e difusão de conhecimento 

Em segundo lugar, a diretora de impacto destaca a importância da disseminação de informações dentro da organização como propulsor da mudança. “As empresas desempenham um papel formativo na vida dos profissionais, que passam a maior parte do tempo útil dentro delas. Assim, uma companhia tem a responsabilidade fundamental de educar as pessoas sobre questões-chave para o desenvolvimento sustentável: social, ambiental e de governança”. Nesse ponto, a influência da liderança e a comunicação interna são os meios principais para promover a educação sobre a agenda ESG. 

Parcerias 

Por fim, a colaboração é outro ponto fundamental para a transformação, seja entre departamentos da mesma empresa, seja com outros organismos sociais. “Essas parcerias são fundamentais para o avanço real dessas agendas, tornando o ODS 17 um elemento crucial como articulador dessas iniciativas”, diz Camila. O Objetivo Sustentável 17 diz respeito à importância das parcerias e meios de implementação. 

Foco na cadeia produtiva 

As lideranças entrevistadas ainda destacam a importância de se disseminar conhecimento para sua cadeia produtiva. A influência de uma grande organização que prioriza a pauta ambiental incentiva e cascateia a transformação para seus fornecedores e clientes. 

“Enxergamos nosso papel como um catalisador para essa mudança, buscando oferecer produtos cada vez mais saudáveis e sustentáveis aos clientes. Isso envolve uma transformação conjunta com nossos fornecedores, visando o respeito ao meio ambiente, às pessoas envolvidas e ao bem-estar animal”, afirma Renata Amaral, gerente de sustentabilidade do Grupo Pão de Açúcar. 

O Grupo Boticário também ressalta sua atuação como educador para a cadeia de valor. “Para engajarmos nossas complexas cadeias de ponta a ponta, é importante debater e compartilhar informações. Aqui no Grupo, já impactamos mais de 1.200 colaboradores com treinamentos sobre o tema, além de disponibilizar conteúdo e apoio à nossa cadeia fornecedora”, relata Fabiana. 

Renata Amaral, gerente de sustentabilidade do Grupo Pão de Açúcar: “Enxergamos nosso papel como um catalisador para essa mudança” (Crédito: Divulgação)

Alocação de recursos e planejamento estratégico 

Recentemente, a Rede Brasil lançou o primeiro relatório de um ano da Ambição 2030, no qual realiza um raio-x dos avanços nos oito grandes movimentos que compõem a Agenda 2030. De modo geral, existem dois grandes desafios que as organizações brasileiras disseram enfrentar: a falta de recursos financeiros alocados para a pauta e a falta de um plano estratégico eficaz. “A simples assinatura do compromisso e a boa vontade da liderança não são suficientes”, alerta Camila Valverde.  

A questão orçamentária é um dos principais temas de debate até mesmo nas mesas das edições das COP. “Outro desafio relevante é o da tecnologia, que implica na transformação dos negócios em direção a uma economia de baixo carbono, sem negligenciar o impacto nas pessoas”, afirma a diretora de impacto. O próprio Pacto Global oferece recursos como cursos sobre financiamento sustentável e também um banco de soluções de baixo carbono para consulta.  

O papel da comunicação e das agências

 “É importante reconhecer que toda comunicação gera impacto, querendo ou não”, afirma Gabriela Rodrigues, vice-presidente de impacto da Soko. Logo, segundo ela, é imprescindível que as marcas repensem suas ações, métodos de produção e resíduos gerados. Mesmo que o propósito da marca seja em outra área, ela precisa demonstrar que está conectada com o mundo atual, onde impacto influencia sua reputação e até mesmo resultados financeiros. 

“A transformação de impacto negativo para positivo pode parecer utópica para muitas empresas em termos de volume, mas iniciar com a redução gradual e implementar um plano de longo prazo para mapear e diminuir o impacto negativo é um caminho viável. Cada marca está em um estágio diferente de maturidade, e conscientização é o primeiro passo para todas elas”, diz Gabriela. 

Essa transformação não se resume apenas aos anunciantes, mas também deve englobar as agências. Mesmo que, como prestadores de serviços, sua influência e atuação tenham limites, também cabe a elas avaliar seus fornecedores, os resíduos gerados durante a produção de uma campanha e a composição de seus times. 

“A transformação de impacto negativo para positivo pode parecer utópica, mas iniciar com a redução gradual e implementar um plano de longo prazo é um caminho viável”, diz Gabriela Rodrigues, vice-presidente de impacto da Soko (Crédito: Divulgação)

O letramento sobre as questões ambientais também é importante no contexto das agências, não se limitando apenas às lideranças. Um time bem letrado pode identificar problemas em briefings e propor soluções sustentáveis. Por fim, a VP de impacto ainda destaca a importância da transparência entre cliente e agência, onde conversas difíceis não sejam tabus e possam ocorrer de forma mais natural. 

Como agência, Gabriela diz que um dos papeis da Soko é identificar qual território cada marca atua e qual Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) ela pode trabalhar. Para marcas que já sabem quais são seus territórios, seu objetivo é atualizar o discurso e inovar na mensagem. Assim, a agência precisa assumir a responsabilidade de abordar temas importantes para a agenda ESG e comunicá-los de maneira eficaz. “Por meio do nosso trabalho, das campanhas que criamos e das conversas desafiadoras com nossos clientes e parceiros, podemos desempenhar um papel ativo nesse processo”, afirma Gabriela. 

Mulheres na vanguarda

Da mesma maneira que a população feminina é a mais afetada globalmente pelas mudanças climáticas, são elas que alavancam a pauta no setor privado. Na Rede Brasil do Pacto Global da ONU, a presença delas é forte: a rede é liderada por 13 gerentes mulheres e 4 homens. O time de Renata Amaral, gerente de sustentabilidade do Grupo Pão de Açúcar, é formado 100% por mulheres. “No GPA, as lideranças que historicamente estiveram à frente dessas questões foram mulheres, e vejo muitos exemplos de lideranças femininas bem-sucedidas na pauta não só aqui, mas também em outras empresas”, relata. 

Um estudo conduzido pela mestre em gestão para competitividade Monique Cardoso, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), comprova que em empresas brasileiras com alto desempenho ESG, 72% têm uma ou mais mulheres em seus conselhos administrativos e 52% contam com diretoras femininas. 

De acordo com a pesquisa, as lideranças femininas de empresas com alto índice em ESG têm algumas características em comum. Elas costumam valorizar a liderança democrática e a abertura ao diálogo, a capacidade de se adaptarem e serem resilientes, além da necessidade de serem políticas. Para essas executivas e diretoras, a sustentabilidade faz parte do propósito da empresa e orienta a estratégia do negócio. Além disso, elas ressaltam os compromissos com a agenda ESG em toda a sua cadeia, com foco em investimentos sociais e relacionamento com a comunidade em que estão inseridas. 

Entretanto, o avanço da agenda sustentável deve acompanhar o recorte social, não apenas em relação a gênero, mas incluindo, também, a intersecção com a raça. No setor publicitário, por exemplo, Gabriela Rodrigues pontua: “A liderança feminina em nosso mercado é predominantemente branca, conforme indicado por recortes do Observatório da Diversidade”, diz. “Assim como aconteceu com a pauta da diversidade, onde o foco inicial foi em mulheres brancas, é vital que, ao abordarmos a questão ambiental, evitemos tomar atalhos fáceis que atendam apenas a uma camada mais privilegiada da sociedade”, adverte. 

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