96% dos brasileiros apoiam campanhas contra o assédio no Carnaval
Pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que medo ainda marca a experiência de milhões de mulheres e encontra amplo apoio social
O Carnaval, frequentemente retratado como sinônimo de liberdade e celebração, é vivido de forma desigual no espaço público brasileiro. Um novo levantamento nacional do Instituto Locomotiva revela que 47% das mulheres no Brasil já passaram por situações de assédio no período, o equivalente a cerca de 40 milhões. Além disso, 79% afirmam temer enfrentar o episódio na festividade, o que representa aproximadamente 68 milhões de brasileiras.
Apesar da persistência do problema, a pesquisa mostra um alto nível de consenso social sobre a gravidade do problema. 86% da população brasileira concordam que o assédio ainda existe no Carnaval e que combatê-lo é responsabilidade de todos, índice que chega a 89% entre mulheres e 82% entre homens.
Além disso, 96% dos brasileiros consideram importantes as campanhas de combate ao assédio durante o período carnavalesco, tornando esse tema praticamente unânime no debate público.
Os dados escancaram uma contradição central da maior festa popular do país: enquanto a narrativa pública exalta a diversão leve, para milhões de mulheres a experiência é marcada pelo medo, pela vigilância constante e pela necessidade de estratégias de autoproteção.
Já para as marcas, o dado é direto: o engajamento em campanhas de prevenção ao assédio não enfrenta resistência social relevante. Ao contrário, encontra respaldo amplo da população. Exemplo recente é a nova campanha da Itaipava, que no Carnaval 2026 trocará “beba com moderação” pelo alerta contra o assédio, iniciativa criada pela WMcCann.
O medo que molda comportamentos
Segundo a pesquisa, o receio do assédio não é abstrato, mas resultado de vivências concretas. Metade das mulheres entrevistadas já foi assediada no Carnaval, o que ajuda a explicar por que tantas relatam evitar circular sozinhas, planejar rotas mais seguras ou restringir horários de saída durante a festa.
Essa percepção também aparece de forma clara no discurso institucional do estudo, que aponta que “festejar no espaço público não é um direito vivido de forma igual por homens e mulheres”, justamente porque o medo condiciona a liberdade feminina no Carnaval.
Relativização persiste
O estudo também revela que, embora minoritárias, crenças que naturalizam ou relativizam o assédio ainda são frequentes. Enquanto 22% dos brasileiros concordam que quem está pulando Carnaval sozinho “quer ficar com alguém”, 18% acreditam que, se uma mulher usa pouca roupa no bloco, é porque “quer beijar”. Além disso, 10% concordam que não há problema em um homem “roubar” um beijo de uma mulher bêbada e com pouca roupa .
Esses percentuais ajudam a explicar por que o assédio ainda é realidade no Brasil, mesmo diante do reconhecimento coletivo de que se trata de um problema.
A pesquisa do Instituto Locomotiva realizou 1.503 entrevistas digitais com pessoas de 18 anos ou mais, ponderadas por gênero, faixa etária, escolaridade, classe social e região, com base na PNAD Anual 2024 (IBGE).