Violência doméstica lidera desafios das mulheres na favela
Pesquisa do Data Favela mostra que violência, dificuldade de acesso ao trabalho e sobrecarga moldam a experiência feminina nas comunidades
O Data Favela acaba de lançar a pesquisa”Sonhos da Favela 2026″, realizada em parceria com a Data Goal. Nela, a violência doméstica e o feminicídio são apontados como o maior desafio enfrentado pelas mulheres que vivem em favelas brasileiras. Segundo o estudo, 66% das respondentes indicam esse tipo de violência como o principal problema que afeta a vida delas nessas comunidades. O dado aparece com ampla vantagem em relação a outros desafios citados e se mantém consistente em todas as regiões do país.
A dificuldade de acesso a emprego e renda surge como o segundo maior obstáculo, mencionada por 43% dos entrevistados, o que reforça a relação direta entre vulnerabilidade econômica e permanência em contextos de violência. O estudo destaca que, embora a independência financeira não seja a única variável capaz de romper ciclos abusivos, ela amplia as possibilidades de escolha e deslocamento das mulheres em situação de risco.
Violência em casa e trabalho de cuidado
No recorte estadual de Rio de Janeiro e São Paulo, os resultados acompanham a média nacional no que se refere à centralidade da violência doméstica e do feminicídio como principal desafio. No entanto, surgem diferenças relevantes quando o tema é o trabalho do cuidado.
No Rio de Janeiro, 3 em cada 10 respondentes apontam a falta de apoio no cuidado com os filhos como um dos maiores desafios enfrentados pelas mulheres. Em São Paulo, esse percentual é ainda maior: 4 em cada 10 entrevistados colocam a sobrecarga do cuidado como o segundo principal obstáculo na vida das mulheres da favela, logo após a violência doméstica.
Os dados indicam que a responsabilização quase exclusiva das mulheres pelo cuidado com crianças e pela manutenção da vida doméstica segue um fator estruturante de desigualdade de gênero nos territórios.
Necessidades urgentes
Quando questionados sobre quais políticas públicas deveriam ser priorizadas para as mulheres, os respondentes apontam, em primeiro lugar, programas de inserção no mercado de trabalho, citados por 62%. A geração de renda aparece como base para a autonomia e a estabilidade financeira, especialmente para as mães solo.
Na sequência, surgem as campanhas de educação contra o machismo (44%), seguidas pela ampliação de delegacias e serviços de atendimento 24 horas para mulheres vítimas de violência (43%) e pelo cuidado com a saúde da mulher (39%). No recorte estadual, São Paulo se destaca ao enfatizar a urgência de serviços de atendimento contínuo, enquanto Rio de Janeiro e São Paulo convergem na defesa da inserção de mães solo no mercado de trabalho como política estruturante.
“A pesquisa deixa nítido que a violência contra a mulher é a barreira mais cruel nos territórios. Garantir que 62% das mulheres tenham inserção digna no mercado de trabalho é dar a elas a chave para romper ciclos de abuso e protagonizar suas próprias histórias. O sonho da favela para 2026 passa, obrigatoriamente, pela segurança e autonomia das mulheres”, diz Cléo Santana, copresidente Data Favela.
Ascensão da negritude
De acordo com a pesquisa, 82% dos respondentes são negros, incluindo pretos e pardos. Quando perguntados se a cor da pele impacta as oportunidades, 5 em cada 10 afirmam que sim, na média nacional. Entretanto, a barreira racial se apresenta como obstáculo na inserção no mercado de trabalho.
3 em cada 10 respondentes afirmaram ter um trabalho com a carteira assinada (ocupados), enquanto 34% estão informais (entre aqueles que não têm a carteira assinada e os que fazem bicos), 17% estão desempregados (desocupados), 8% estão fora da força de trabalho (entre aposentados e estudantes). Tal contexto contribui para a falta de estabilidade econômica desta população, já que 6 em cada 10 entrevistados afirmam não contar com uma renda fixa.
A fim de mitigar a desigualdade racial, os entrevistados destacam a criação de programas de emprego para a população negra como uma das principais ações (40%). Em seguida, os respondentes destacam ações afirmativas na educação (32%), campanhas de educação antirracistas (30%), mais representatividade em posições de poder (26%), apoio e crédito para negócios de pessoas negras (23%) e combate à violência policial (20%).
Desafio estrutural
O capítulo “Mulheridade” da pesquisa, que envolve outros recortes e temas, aponta que a violência contra as mulheres não é um fenômeno isolado ou restrito ao espaço doméstico, mas resultado de estruturas sociais marcadas pelo machismo e pela desigualdade.
O relatório ressalta que a redução dos índices de violência exige ações coordenadas entre poder público e sociedade civil, com foco na educação de homens e meninos e na construção de relações baseadas em respeito e igualdade.
A pesquisa “Sonhos da Favela 2026” foi realizada entre os dias 11 e 16 de dezembro, por meio de questionário estruturado aplicado online. Foram realizadas 4.471 entrevistas, com moradores de favelas de todas as cinco regiões do Brasil, maiores de 18 anos.