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Tati Machado: “Não abrir mão de quem sou virou inegociável”

Apresentadora une entretenimento, credibilidade e visão multiplataforma em uma carreira em ascensão

i 9 de fevereiro de 2026 - 16h12

(Crédito: Divulgação)

Tati Machado no programa Mais Você, da Globo (Crédito: Divulgação)

Formada em jornalismo, Tati Machado construiu sua trajetória longe dos atalhos. Desde cedo, queria estar na TV. Fez teatro dos seis aos 14 anos, mas deixou o sonho de lado e migrou para os bastidores. Começou na produção de reportagem, no jornalismo do SBT, em 2012. Em seguida, passou pelo conteúdo digital, no futuro GShow, da Globo, e só depois chegou à frente das câmeras.  

Essa vivência múltipla explica a leitura afiada que tem da televisão como produto editorial, cultural e multiplataforma. Na Globo, ganhou projeção nacional ao transitar com naturalidade entre o entretenimento do Encontro, o debate do Saia Justa e grandes transmissões ao vivo. Mais recentemente, frente ao desafio de substituir Ana Maria Braga no Mais Você, Tati conseguiu manter os índices de audiência do programa e teve uma boa resposta do mercado publicitário. 

Em 2025, a apresentadora perdeu o filho, Rael, no oitavo mês de gravidez, e a maneira transparente como encarou o luto no seu retorno à TV fez dela uma referência de saúde mental para muitas mulheres, que passaram a se identificar ainda mais com ela. 

Confira nossa conversa com Tati Machado, que ao longo da carreira tem se firmado como um nome influente da nova geração da TV por construir, aos poucos, uma imagem de credibilidade e identidade. 

Meio & Mensagem — Você é muito querida pelos seus colegas e pelo público. O quanto seu humor e jeito espontâneo foram uma construção de marca pessoal?

Tati Machado — Uma vez, no Saia Justa, fizemos uma pauta sobre infância e falamos sobre se reconhecer ou não quando a gente era pequena. Foi muito curioso, porque a Eliana e eu falamos o quanto sentimos que, de alguma maneira, somos aquelas crianças. Não no sentido de ser moleca ou de gostar de brincadeiras apenas. Sou uma adulta hoje em dia, formada, com a experiência que a vida tem trazido, com a maturidade. Mas ainda me reconheço muito naquela pré-adolescente de 13, 12 anos. Também tenho uma associação direta à minha mãe, que sempre teve um espírito muito livre e um jeito leve de levar a vida. Mesmo com os perrengues, encontrar humor, graça e leveza. 

Não foi algo construído. Claro, quando comecei a trabalhar na televisão, percebi que as pessoas iam gostando desse jeito. Algumas, na rua, diziam: “nossa, mas você é igualzinha na TV”. Esse é o melhor elogio que posso receber, porque virou uma regra para mim. Sabemos que tentam moldar as pessoas, ou que nós mesmos tentamos entregar algo que não somos, mas eu ia vender uma mentira. Por isso, não abrir mão desse jeito que vem comigo desde que me conheço como gente virou inegociável para mim. O resultado fica melhor quando falo com a verdade que está no meu coração, mesmo que eu gagueje, troque uma palavra e corrija. Prefiro ser essa pessoa do que uma outra, moldada. 

M&M — Você fala disso com leveza, mas essa postura exige coragem profissional. Na TV, há muitas cobranças, sobretudo para as mulheres, além de exigências de formato e tempo. Como equilibrar tudo isso e manter a essência? 

Tati — Sou uma pessoa muito adaptável, aos ambientes e na vida. Faço entretenimento, que é a minha cara, mas consigo virar uma chave para falar sério ou dar uma notícia urgente. O Encontro, por exemplo, sempre teve muito entretenimento e muito factual. Então, quando eu substituía a Patrícia Poeta, precisava trazer isso. Mas aí, onde entra o meu jeito? Falar sério sem me preocupar em ser uma jornalista de jornal. Tratar assuntos delicados com simplicidade, num lugar mais coloquial, menos formal, com a minha própria fala. Assim, imprimo minha identidade, impacto pessoas e sigo transitando no entretenimento. Acho que tenho esse poder de adaptação para noticiar o que precisar. 

Construí isso aos poucos. Na primeira vez que substituí a Patrícia Poeta, senti a responsabilidade de tocar um programa que já tem nome e muitos anos no ar, e me achei um pouco dura nas primeiras notícias. Existe uma linha tênue de postura para não causar estranheza: as pessoas nos veem dançando, rindo, falando de novela e de Big Brother Brasil, e de repente noticiamos um acidente. Isso causa estranheza no público e na gente também. No início, trabalhei no SBT com jornalismo mais sério e formal e achei que esse seria meu caminho, mas o entretenimento me puxou. Como mulher, com um corpo fora do padrão, existe uma associação grande com o humor. A Fabiana Carla, uma das maiores humoristas do Brasil, sofreu muito com isso. É como se sempre esperassem sua próxima piada. Ao longo dos anos, consegui desconstruir um pouco isso, mostrando outras versões minhas. 

M&M — No SBT, você também trabalhava nos bastidores. Como foi a transição para a frente das câmeras? 

Tati — Sabia que queria trabalhar com televisão. Quando deixei o teatro, ainda adolescente, escolhi o jornalismo. Inicialmente, achei que seria jornalista esportiva, porque minha mãe trabalhava com futebol, mas descobri que só gostava do esporte e não o dominava. Fiz processo seletivo para o Esporte Interativo e para o Lance, assistia muitos jornalistas esportivos e via ali uma pegada de entretenimento interessante. Enquanto isso, procurei outros estágios e fui para o SBT do Rio, na produção de programas de notícias. Era muito engraçado porque eu ia para tudo quanto era lugar apurar pautas. Fazia plantão em delegacia, IML, polícia. E eu gostava, mesmo assim. 

No processo de estágio da Globo, passei por várias etapas e fiz entrevista para a GloboNews. Arrasei no papo e saí achando que esse era meu destino: trabalhar com Maria Beltrão e fazer o Estúdio i. Só que passei para o que viria a ser o Gshow. Lembro que comprei uma roupa social e estava toda pronta para o trabalho formal, mas, quando cheguei, a menina que me recebeu estava com uma saia balonê, de rasteirinha, blusinha sem manga. Pensei: “gente, é nesse lugar que vou trabalhar”. E foi a melhor coisa que podia ter acontecido, porque consegui unir o jornalismo, que sempre foi uma certeza para mim, ao entretenimento. Sempre fui viciada em televisão e penso na minha vida a partir de novelas e programas da Globo, então tudo fez sentido. Com o tempo, ainda nos bastidores, escrevendo matérias e entrevistando famosos, achei que viraria diretora de um programa, até porque já tinha deixado o sonho de aparecer na televisão de escanteio. Até que veio a oportunidade de aparecer na internet, no Gshow. E, mais uma vez, pensei que aquilo era óbvio e tinha que acontecer. Foi assim, degrau por degrau, que cheguei até aqui. 

M&M — Em que momento da sua carreira você sente que está? 

Tati — Costumo dizer que ainda sou a pessoa do “sim”, sabe? Sei que, ao longo de uma carreira, os “não” passam a ser tão importantes quanto os “sim”. Mas ainda vejo o carro passando como uma oportunidade. Sou muito do “vambora”. Até porque é uma construção e acaba sendo, também, experimentação. Claro, hoje em dia consigo fazer mais escolhas, porque meu caminho foi trilhado para um lado. Mas, por exemplo, no último ano, experimentei trabalhar em festivais de música, algo que adoro e não tinha feito muito na Globo. Começou com o show da virada no Rio de Janeiro, no ano passado. Depois, apresentei o Rock The Mountain, e no dia 18 de fevereiro vai ao ar um especial do Alexandre Pires que apresentei também. Então, ainda estou fazendo experimentações, e isso é uma maravilha. E se os meus chefes estão me chamando, é porque eles acreditam no meu trabalho. A certeza que tenho é: amo trabalhar com entretenimento e pretendo seguir com isso ao longo da minha carreira. 

M&M — Quais são seus planos para 2026 e para o futuro?  

Tati — Desde que comecei a trabalhar na Globo, todo ano foi melhor do que o outro. Nunca teve calmaria e estabilidade. Sempre teve um “toma essa aqui, que vai virar a tua vida de cabeça para baixo e vai ser maravilhoso”. Ano passado estava grávida e tinha certeza que seria mais tranquilo, mas passei a virada de 2024 para 2025 apresentando o Show da Virada. Depois, quando voltei da licença-maternidade, recebi a maior honraria que poderia, que foi substituir a Ana Maria Braga. Então, até quando achava que estava tudo de boa, me surpreendi. Não dá para dizer que não quero apresentar um programa meu um dia, mas a vida tem me mostrado que a gente realmente não tem controle de nada. É claro que a gente pode sonhar e planejar, e não apenas ficar esperando as coisas caírem do céu. Muitas vezes, precisamos dar o primeiro passo, e é isso que tenho feito internamente. Estou indo para minha terceira temporada no Saia Justa. É algo que para minha imagem é muito legal, porque as pessoas estão acompanhando o meu crescimento enquanto estou, de fato, amadurecendo. Então, para esse ano, quero momentos mais respiráveis. Só quero respirar, ir para o Saia Justa e o Big Brother, que aliás é algo que paralisa a minha vida até abril. E estou sempre pronta para o próximo. 

M&M –– Como apresentadora da nova geração, você também se enxerga como influenciadora? Como é a sua relação com as redes sociais? 

Tati — Sinto que sou um pouco das duas coisas. O influenciador virou uma profissão levada a sério, que constrói relações verdadeiras e reais nas redes. A diferença é que, com a minha rotina de apresentadora, não consigo ter a mesma entrega, já que esse é um trabalho específico. Mas não fujo disso, porque também quero atrair marcas. Hoje, não dá para esperar atrair publicidade nas redes só por estar na televisão: o trabalho é diferente. A TV dá notoriedade e credibilidade, é um tiro de canhão, mas não posso esperar que uma publicidade digital caia do céu sem atuar como influenciadora. 

Para 2026, quero estar mais presente nas redes sociais. No Instagram, sou muito focada no trabalho e publico pouco da vida pessoal. Não por não querer, mas por achar que, muitas vezes, ela não tem tanta graça. Ainda assim, percebo que o cotidiano interessa às pessoas. Por isso, minha meta é ser uma influenciadora melhor nas minhas redes. 

M&M –– Você tem uma visão de carreira multiplataforma. Como acha que chegou a esse olhar? 

Tati — Sou quase uma nativa digital. Vivi o “não ter”, mas minha geração teve computador e celular muito jovem, e isso muda as coisas. E confesso que o fato de não ter estado na televisão desde sempre e de ter passado por processos até chegar lá também muda tudo. Trabalhei por trás das câmeras, num site, vi a chegada do Instagram e do Facebook e como integrá-los ao trabalho. Quando fui para a frente das câmeras, já entendia a importância dessa visão integrada. No Gshow, muitas vezes era uma humilhação convencer famosos de que estar numa plataforma era importante para reverberar o nome deles. Passei por todos esses processos com a mídia e a televisão. Eu era a que dizia: “se você fizer esse videozinho, que está viralizado, isso também vai ser importante para você”. Hoje, quando alguém diz que é do digital, faço o conteúdo na hora, porque não é só para um arroba famoso, é o meu nome que circula ali. Se posto a foto de alguém na porta de um evento, é a minha imagem que reverbera. É um jogo de mão dupla: eu ganho e você ganha. Por já ter trabalhado por trás das câmeras, agora, na frente delas, entendo que há muito a ser pensado para além da TV. 

M&M — Que tipo de narrativas sobre mulheres você acha que ainda precisam ser atualizadas na TV? 

Tati — Tivemos um grande declínio nos trabalhos de marcas quando o assunto são corpos. Houve um movimento de diversidade interessante há alguns anos, muitas marcas abraçaram essa pauta, mas as coisas mudaram. Algumas mantiveram isso, outras não. Houve oportunidades, mesmo que às vezes com um olhar de status, mas, para mim, pelo menos isso estava acontecendo. No último ano, isso se intensificou. Vamos ver como fica em 2026. 

Na televisão, temos falado mais sobre o tema. Mas quero ver mais do que narrativa, quero ver a ocupação dessas mulheres, com histórias diferentes e de regiões diversas. Isso é fundamental em um país continental. 

Também me marcou uma pesquisa que mostrou que, no último ano, as pessoas me associaram muito à saúde mental. Isso é louco, porque estou amadurecendo junto com elas e elas estão comigo no processo. Com a vida exposta e ao falar da gravidez, falei sobre como ser feliz não é esquecer a dor, mas entender o quanto sobrevivi a ela. Não consigo não estar aliada a esse tema, que tem sido cada vez mais discutido, sobretudo diante das demandas que recaem sobre as mulheres. A surpresa foi perceber que não me associavam a dancinhas, mas à saúde mental.