Women to Watch

Mulheres no audiovisual transformam desafios em narrativas

Minoria na direção, lideranças da publicidade e do cinema impulsionam novas linguagens e ainda relatam disputa de espaço

i 12 de fevereiro de 2026 - 10h01

Um levantamento da ONU Mulheres Brasil, apresentado em 2025 durante o Marché du Film, em Cannes, revelou que 39% das mulheres e 45% das pessoas negras se sentem menos satisfeitas com os créditos que receberam nos filmes de que participaram. A falta de representatividade e reconhecimento feminino no audiovisual não é recente, e ainda reflete estruturas patriarcais da sociedade, relegando-as a posições fora da direção criativa.

Outros dados que complementam este cenário são do Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro de 2024, do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA): apesar das mulheres serem maioria nas atividades de exibição (58%) e distribuição (54%), elas representam apenas 17% da direção de séries e filmes brasileiros.

Na publicidade, o cenário se repete. Uma pesquisa da Free the Work Brasil de 2024 revelou que as mulheres têm maior representatividade em alguns segmentos específicos, como beleza e moda, onde são 54,7% das diretoras; lifestyle, que aparece em segundo, com 39,6%; e storytelling, em terceiro, com 32,1%.

Os percalços da carreira

“Os desafios que enfrentei em minha trajetória profissional ainda são os mesmos que as diretoras passam hoje em dia”, afirma Mariana Youssef, cineasta, diretora de cena e sócia da Ask the Rabbit Films. Ela tem uma longa trajetória no audiovisual. “Dificuldade de orçar filmes, verbas menores, filmes de gênero (produtos femininos) como premissa. Tudo isso é parte da minha história e desacelerou muito a minha carreira. O que vejo é que hoje, os problemas continuam os mesmos.”

Mariana Youssef, cineasta, diretora de cena e sócia da Ask the Rabbit Films (Crédito: Divulgação)

Mariana Youssef, cineasta, diretora de cena e sócia da Ask the Rabbit Films (Crédito: Divulgação)

Com mais de 15 anos de experiência, Mariana já passou por agências como F/Nazca e Lew’Lara, além de ter dirigido campanhas para Ford, Natura, Coca-cola, Samsung, Rolling Stone Magazine e outras marcas. Ela é embaixadora do movimento que fomenta a participação feminina e de grupos diversos no audiovisual, o Free The Work, e foi sócia fundadora da Barry Company e da ATR, sua antiga produtora de entretenimento.

Para além de sua trajetória na publicidade, Mariana também tem obras de ficção, incluindo a direção de três episódios da série “Lov3”, da Amazon, a direção geral da série “As seguidoras”, para a Paramount +, e o filme “O Beijo Adolescente”, para HBO Max. Em 2026, a diretora estreia dois longas-metragem autorais, “Viúvos” e “Nico”.

Já para Rafaela Carvalho, diretora de cena da Primo Content, foi a paixão pelo set de filmagem que a levou para esta carreira, mas não sem enfrentar obstáculos. “Esse percurso veio acompanhado de muitos altos e baixos”, relata. “Um dos primeiros grandes desafios no começo de carreira foi convencer uma equipe inteira a acreditar em um projeto que não tinha recurso algum, e fazer com que as pessoas embarcassem movidas por desejo, entrega e confiança”, lembra.

“Com o tempo, surgiram novos desafios, como lidar com a responsabilidade de ter orçamento. A cobrança externa foi aumentando, mas a minha própria cobrança também. Aprender a administrar essa vontade constante de ir além, de esticar os limites e querer fazer mais do que parecia possível foi, e ainda é, um desafio contínuo”, diz.

A trajetória de Rafaela começou como atriz. Depois, migrou para os bastidores, como assistente e diretora de fotografia, até se consolidar na direção. Hoje, ela tem mais de 15 anos de atuação no mercado publicitário brasileiro e internacional. Assim como muitas diretoras, também enfrentou o desafio de alcançar o mesmo patamar de reconhecimento que outros diretores.

“Isso exigiu clareza sobre os caminhos que eu não queria seguir. Muitas vezes, apareceram convites mais cômodos, mas dizer não, abrir mão do que não me movia e escolher projetos que realmente me interessavam foi essencial, mesmo quando vinham acompanhados de risco”, reflete. No fim, Carvalho afirma que o desafio foi sustentar suas escolhas, guiada pela criatividade e intuição.

Rafaela Carvalho, diretora da Primo Content (Crédito: Divulgação)

Rafaela Carvalho, diretora da Primo Content (Crédito: Divulgação)

Assim como Mariana, Aisha Mbikila, diretora de cena da Santeria, enfrentou desafios semelhantes relacionados a gênero e raça. “Trabalhamos sem orçamento e enfrentamos estruturas que inviabilizam nossa presença. Para permanecer nesse mercado, a persistência é muito importante”, destaca.

Aisha é brasiliense, modelo, diretora de audiovisual, atriz, performer, DJ, produtora e neta de Lydia Garcia, uma das precursoras do movimento negro em Brasília e grande inspiração para a multiartista. Desde 2018, tem construído uma carreira entre clipes e filmes publicitários. Em seu portfólio estão campanhas para grandes marcas como Natura, TikTok, Budweiser, 99, Nubank, Amstel e L’Oréal, e clipes para artistas como Karol Conka, Luedji Luna, Projota, Tasha e Tracie, Preta Gil, Don L, Melly e Attooxxa.

Asaph Luccas, diretora de cena da Miss Sunshine Films, aponta outro desafio de gênero que enfrentou em sua trajetória: “Ser uma diretora negra e trans no Brasil significa lidar constantemente com a dúvida alheia, antes mesmo de qualquer avaliação artística”, conta. “Muitas vezes, sou a única pessoa como eu em espaços de poder e decisão que frequento”, continua.

Asaph é diretora, roteirista e artista visual, e alterna entre as telas da pintura, do entretenimento e da publicidade. Cresceu na periferia da zona leste de São Paulo. “A vontade de contar histórias sobre as pessoas do meu cotidiano, corpos e vivências que eu nunca via representados na TV me levou a cofundar o Coletivo Gleba do Pêssego, um grupo de jovens LGBTQIA+ que existe há mais de dez anos e busca mudar a cara do audiovisual, tanto à frente quanto atrás das câmeras”, conta.

Asaph Luccas, diretora de cena da Miss Sunshine Films (Crédito: Divulgação)

Asaph Luccas, diretora de cena da Miss Sunshine Films (Crédito: Divulgação)

Esta falta de referências na área diminui e até inibe outras mulheres a seguirem na carreira. Este foi um dos obstáculos que Juliana Curi, diretora de cena da Barry Company, experienciou. “Eu vinha de um contexto econômico em que a direção parecia um espaço reservado a uma elite masculina. Eu simplesmente não conseguia me imaginar ocupando essa cadeira”, conta.

Juliana Curi tem 15 anos de carreira divididos entre publicidade e entretenimento. Já produziu peças para marcas como Visa, Coca-Cola, Sony, P&G, e Dove, incluindo o projeto global The Dove Code, que celebrou os 20 anos de Beleza Real da Dove. Recentemente, ela fundou um projeto de mentoria para jovens periféricos e encontrou os mesmos problemas que enfrentou no começo da carreira.

“Foi impactante perceber que, quase 15 anos depois da minha própria entrada no mercado, esses jovens carregavam a mesma sensação que eu tive no início: a impossibilidade de se imaginar na direção. Isso reforça a urgência de ampliar o acesso, a representatividade e o direito de sonhar”, destaca Curi.

Juliana Curi, diretora de cena da Barry Company (Crédito: Divulgação)

Juliana Curi, diretora de cena da Barry Company (Crédito: Divulgação)

Para sobreviver neste mercado, frequentemente as diretoras femininas precisam mostrar que têm capacidade de estar à frente de grandes projetos e roteiros. “A verdade é que já provamos nossa consistência inúmeras vezes e, ainda assim, frequentemente tentam nos enquadrar em lugares limitados, por conveniência ou por comodismo estrutural”, ressalta a dupla We are Magnolias, formada por Barbara Sassen e Nate Rabelo.

O duo surgiu há 12 anos, quando elas decidiram se juntar para fortalecer a presença de mulheres na indústria. “As temáticas femininas seguirão sendo uma das nossas formas naturais de expressão. Exaltamos mulheres campeãs de corrida, astronautas pioneiras, artistas ou cientista, e instigamos a transformação da visão das próprias mulheres sobre seu corpo, menstruação e nossos espaços”, afirmam.

A pauta da diversidade, na visão de Aisha, sofre um efeito sanfona, influenciada por movimentos culturais, como o episódio de George Floyd. “Após o caso, a pauta transformou muito o mercado, mas agora já percebemos um retorno ao formato hegemônico, masculino e branco. Isso não faz sentido quando pensamos na população brasileira. O racismo ainda persiste na ignorância e nas oportunidades do mercado”, avalia Mbikila.

Como a transformação começa

Segundo elas, a indústria publicitária tem o papel responsável de levantar novamente o tema frente ao retrocesso da pauta. “Mas os protestos e a contracultura vão se intensificando como resposta a tudo isso, e essa transformação precisa se refletir em todos os setores do mercado, para que a sua chama permaneça acesa: começando pela forma como criamos e por quem recebemos oportunidades”, pontua a dupla We are Magnolias.

Barbara Sassen e Nate Rabelo, da dupla We are Magnolias (Crédito: Divulgação)

Barbara Sassen e Nate Rabelo, da dupla We are Magnolias (Crédito: Divulgação)

Para Asaph, para fomentar essa transformação, é preciso que haja representatividade atrás das câmeras, principalmente na direção. “Quando isso acontece, as narrativas ganham profundidade. Ainda há muito a ser feito, principalmente na continuidade dessas trajetórias, que seguem resistindo no mercado em meio às diferentes fases de aceitação de nossas identidades.”

Mas, para isso acontecer, elas afirmam que as agências precisam dar oportunidade para novas diretoras mostrarem seu potencial. “Agências e clientes querem um perfil que seja bom em fazer um trabalho X, mas se nunca dão o trabalho para essas pessoas, como ela vai tê-lo no rolo? Por isso, valorizo os criativos que assumem riscos em filmar com novos diretores e diretoras, que apostam que um olhar diverso pode trazer um resultado diverso. Quem aí não está cansado de ver os mesmos filmes executados das mesmas maneiras ano após ano? Só eu?”, questiona Mariana Borga, diretora de cena da Prodigo Films.

Diferentemente das colegas, Mariana trilhou uma carreira de 17 anos dentro das agências, começando como estagiária até chegar ao posto de diretora de criação de lugares como Wieden+Kennedy São Paulo e JWT. Há quatro anos, ela mudou de lado do balcão e passou a atuar como diretora de cena da Prodigo Films, em busca de vivenciar a criatividade de outro modo e estar mais próxima de sua outra paixão: a atuação.

Mariana Borga, diretora de cena da Prodigo Films (Crédito: Divulgação)

Mariana Borga, diretora de cena da Prodigo Films (Crédito: Divulgação)

Mas não é somente Mariana que está cansada dos mesmos formatos e perspectivas retratados na publicidade. Roma Joana, diretora de cena e fotógrafa da My Mama e diretora de criação da Fatal, estúdio criativo com foco em craft, também compartilha do sentimento. “É fundamental convidarmos líderes e tomadores de decisão a pensarem como promovemos ambientes criativos mais sensíveis e plurais. Ideias relevantes raramente nascem do conforto ou da repetição, elas surgem quando existe espaço para troca, risco, escuta e experimentação real”, destaca Roma.

Roma acumula mais de dez anos de carreira entre filmes publicitários, em colaboração com agências como AlmapBBDO, Galeria, Soko, e marcas como Netflix, Boticário, Guaraná Antártica, Absolut e Instagram, e peças para artistas musicais como Anitta, Marina Senna, Pabllo Vittar, Tasha&Tracie e FKA Twigs. “Encaro os obstáculos não apenas como algo a ser superado, mas como matéria-prima para construção de linguagem, posicionamento e estratégia. Com o tempo, entendi que ocupar espaços é também moldá-los, e que muitas vezes as respostas mais interessantes surgem justamente das limitações”, reflete.

Roma Joana, diretora de cena da My Mama e diretora de criação da FATAL (Crédito: Divulgação)

Roma Joana, diretora de cena da My Mama e diretora de criação da Fatal (Crédito: Divulgação)

Para além da representatividade na direção, Roma também aponta a necessidade de investir em fornecedores de grupos diversos. “Atualizar estruturas, rever repertórios e ampliar fontes de fornecedores não é apenas uma questão ética, mas parte essencial do sucesso para o mundo contemporâneo”, reforça.

Esse é um compromisso das agências e produtoras, mas também dos próprios anunciantes. “Defendemos que as marcas escolham, de forma consistente, conhecer, contratar e apoiar a visão criativa de mulheres em produções de todos os formatos e escalas, com confiança, corresponsabilidade e reconhecimento pleno de sua capacidade de entrega, liderança e inovação. Para nós, apoiar mulheres na direção não é uma aposta, mas uma decisão estratégica, criativa e cultural que fortalece o presente e amplia o futuro da indústria”, acrescenta a dupla de diretoras Barbara Sassen e Nate Rabelo.

Resistência, coletividade e visão de futuro

Para crescerem na carreira, essas diretoras apostaram na força de suas redes de apoio para não desanimar e criar resiliência. “A melhor forma de se manter forte e resistente é se juntar com quem está na luta com você e tem operado nesse lugar da consciência. Porque a gente vai se sustentando, se emprestando e somando forças. A coletividade é sempre a parte mais bonita do audiovisual”, afirma Lu Villaça, diretora de cena da Anonymous Content.

A arte e o cinema sempre estiveram presentes desde quando Lu era pequena, enquanto praticava dança e artes cênicas. Após a faculdade, foi estagiária na equipe de um longa-metragem do seu tio, o também diretor Luiz Villaça. Como assistente de direção, atuou tanto na publicidade quanto na televisão, cinema e teatro. Desde 2018, é diretora de cena para o mercado publicitário e já dirigiu peças para marcas como Itaú, Johnnie Walker, Kimberly Clark, Nestlé e Amazon.

Lu Villaça, diretora de cena da Anonymous Content (Crédito: Divulgação)

Lu Villaça, diretora de cena da Anonymous Content (Crédito: Divulgação)

“Lidei com isso criando redes de apoio, fortalecendo alianças e insistindo na minha visão cinematográfica. Transformei muitas dessas barreiras em matéria-prima criativa e me esforço continuamente para construir um corpo de trabalho que fale por mim para além da minha identidade”, complementa Asaph.

Mesmo frente aos desafios constantes e ao retrocesso da pauta diante do panorama político-social do mundo, existem, e resistem, grupos e movimentos que sustentam uma visão de futuro inclusivo. Na visão de Juliana, as premiações internacionais também estão refletindo esse movimento de resistência.

“Temos Chloé Zhao quebrando recordes de premiações, uma mulher asiática fazendo um filme sobre Shakespeare. Temos Autumn Durald fotografando ‘Os Pecadores’ em 65mm. E, se ampliarmos a ótica para além das mulheres, temos o cinema brasileiro nordestino, o cinema iraniano e o tunisiano brilhando no cenário internacional”, reflete Curi.

Para 2026, Lu Villaça deseja que a diversidade brasileira seja celebrada e que se torne, por fim, um motor para a indústria criativa da publicidade. “O Brasil é cheio de gente incrível, em todas as instâncias da produção publicitária, mas nosso mercado está operando em um modelo que não permite que esses talentos exerçam suas capacidades. Torço para que em 2026 a gente veja mais liberdade para a criatividade no nosso mercado”, conclui.