Opinião WW

Soberania cultural latina

O mundo consome cada vez mais cultura latino-americana, mas está preparado para respeitar quem a produz?

Juliana Leite

VP de Projetos Especiais e Conteúdo Criativo da Africa Creative 19 de janeiro de 2026 - 8h04

Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo na América Latina. Em 2025, vivemos um movimento que a WGSN (líder mundial em previsões de tendências) chamou de Renascimento Latino: um momento em que nossa região passou a ser tratada como referência estética, repertório cultural e energia criativa.

As instabilidades e incertezas do mundo fizeram crescer a demanda por sensações de pertencimento, propósito e por narrativas autênticas o que vem catapultando nossa cultura e nossos talentos mundo afora. Dos filmes brasileiros reverberando além das fronteiras a artistas da região ocupando o centro do entretenimento mundial, como Bad Bunny no Super Bowl, a produção latino-americana deixou de ser periférica para se tornar central.

Uma expressão sintetiza essa onda: orgulho identitário. A própria WGSN cita dados de pesquisa da Ipsos segundo os quais 84% da Geração Z latina dizem sentir orgulho de sua origem, e 76% afirmam que ser latino diz muito sobre quem são. Esses números mostram que identidade cultural não é retórica: é sentimento vivido e compartilhado em toda a região.

As projeções apontavam para a consolidação da América Latina como polo criativo global nos próximos anos. Mas o mundo é dinâmico. Em 3 de janeiro de 2026, a escalada das tensões entre Estados Unidos e Venezuela voltou a direcionar os olhos da comunidade internacional para cá por motivos alheios à indústria criativa.

É simbólico que justamente quando as narrativas regionais inspiram o planeta, nossas soberanias culturais, políticas e criativas sigam sendo testadas precisamente pelos americanos, que são a referência dominante em produção cultural massificada. Enfim, o mundo consome cada vez mais cultura latino-americana, mas está preparado para respeitar quem a produz?

O verdadeiro teste do chamado Renascimento Latino será garantir que nossa autenticidade cultural se sustente apesar das oscilações geopolíticas. Isso implica preservar autoria, proteção e dignidade para quem cria.

Que esse momento de orgulho identitário, afirmação cultural e atenção global não termine em mais uma apropriação sem retorno. Renascimentos culturais sempre encantam o mundo, mas só se tornam história quando também transformam as condições de quem cria.