As marcas serão lembradas pelo que fazem sentir
Acredito que as marcas mais relevantes serão aquelas capazes de unir emoção, criatividade e resultado de negócio
Já estive em Cannes acompanhando trabalhos do Grupo Boticário como marca concorrente em diferentes categorias. Agora, como jurada da categoria Creative Commerce, vou também com a missão de avaliar ideias vindas de diferentes mercados, contextos e culturas e, assim, entender o que a criatividade global está apontando para marcas, negócios e consumidores.
É desse lugar que uma reflexão tem ficado cada vez mais forte. Não é novidade que as marcas não são lembradas pelo que dizem, mas pelo que fazem sentir. Entretanto, em um mundo cada vez mais fragmentado, moderado por inteligência artificial e com excesso de conteúdo, me pergunto: Como ser memorável em meio a tanto ruído?
Construir confiança aliada à autenticidade nunca foi um ativo tão valioso para o negócio
Foi-se o tempo em que um bom plano de comunicação com a mensagem certa, para o público certo, no formato e no canal certo era garantia de resultado. O contexto está mais difícil.
Somado a isso temos a complexidade da personalização em escala, dos múltiplos agentes influenciadores, da era da comunicação conectada à cultura, do SEO que virou GEO e da conversão que nunca foi tão amarrada à jornada do cliente. Hoje, qualquer ponto de contato é shoppable, e as campanhas se tornaram pontos de checkout.
Se reagirmos a tudo isso apenas entregando mais volume de conteúdo e mídia, corremos o risco de ficar barulhentos, sem alma e entregarmos estratégias formatadas para falar mais alto e vender mais rápido – mas nada autênticas.
Além disso, também sabemos que as pessoas não querem apenas receber uma mensagem. Querem se reconhecer, participar, responder, compartilhar e sentir verdade. O consumidor deixou de ser apenas audiência para se tornar parte ativa da construção de sentido das marcas. E aí entra a necessidade de estratégias que, sim, falam mais alto e vendem mais rápido – mas porque se relacionam melhor.
O desafio, então, passa a ser como escalar a humanidade e como dar volume ao relacionamento. E se não bastasse isso, como fazê-lo encontrando o equilíbrio, ou melhor, a simbiose entre o marketing de performance e a construção de marca, que não deveriam ser duas esteiras separadas?
A criatividade continua com o poder de levar originalidade, autenticidade e histórias potentes para o que é transacional e massificado. Além de ajudar a resolver problemas reais e criar experiências mais relevantes, serve para despertar desejo via narrativas potentes o suficiente para que aquilo que está sendo vendido seja incomparável a qualquer outra coisa, e queira ser visto, compartilhado, discutido. Ainda é um ativo indispensável para sustentar marcas fortes.
Fazer sentir também é estratégia
Quando quase tudo passa na velocidade de um scroll, conseguir emocionar, envolver e permear a vida das pessoas é uma busca profunda. É uma arte que precisa de método e planejamento para transformar a escuta em experiências que ressignificam atritos comuns, respondem a lacunas sociais, criam ambientes que ativam os sentidos ou apresentam narrativas em que as pessoas reconhecem partes da própria vida – transformando tudo isso em negócio.
No Grupo Boticário, aprendemos isso em diferentes contextos. O Centro de Pesquisa da Mulher, por exemplo, partiu de um problema real para criar uma resposta que extrapola a comunicação e gera impacto social. A ação da “Taxa de Beleza”, do Boticário com a Eventim, ressignificou um atrito da jornada de consumo. E as nossas campanhas nas datas especiais, como Dia das Mães e Natal, mostram como histórias de despedidas, reencontros e relações familiares podem gerar identificação, memória e pertencimento e tornar nossas marcas mais amadas ao mesmo tempo em que alavancam o potencial de desejo pela conversão, porque se tornam memoráveis.
O principal aprendizado nessas e em outras ações é que despertar sentimentos e sensações no público nasce da coerência entre o que uma marca diz, o que entrega e o espaço que escolhe ocupar.
Embarco nos próximos dias para Cannes com a admiração de quem acompanha o festival há muitos anos e a curiosidade para conhecer os cases que farão história e definirão a régua para os próximos anos. Vou com a expectativa de encontrar nos painéis e nas conversas com vários parceiros do mercado respostas e inspiração para todos estes novos dilemas e desafios do mercado.
Mas também estarei lá como jurada de Creative Commerce, com a responsabilidade de avaliar ideias que provam que narrativa potente, criatividade e resultado andam juntos. Espero encontrar trabalhos capazes de unir sensibilidade, emoção e cultura com resultado de negócio. Afinal, uma marca pode até se tornar conhecida pelo que diz. Mas as que permanecem são aquelas lembradas e amadas por fazerem os consumidores sentirem, lembrarem e se identificarem, da captura da atenção à conversão.