Cannes, muito além da criatividade
O olhar de negócios para quem vive sua primeira experiência no maior festival de criatividade do mundo
Se me perguntassem qual era a minha expectativa sobre o festival, a resposta seria simples: um banho de criatividade.
Voltei descobrindo que Cannes vai muito além disso.
É sobre pessoas. É sobre conexões. E é nessa união que os negócios acontecem.
Um dos maiores ativos do festival não está somente nos palcos, nos Leões ou nos cases premiados. Está também nos encontros, nas conversas e nas oportunidades que surgem entre uma palestra e outra.
Como estreante, uma das primeiras surpresas foi a organização impecável do evento. O festival acolhe quem está chegando pela primeira vez, promove sessões exclusivas para iniciantes, oferece orientações e cria um ambiente onde é fácil se sentir parte daquela comunidade desde o primeiro dia.
Depois vem o segundo impacto: a intensidade.
Dentro do Palais acontecem palestras praticamente ininterruptas. Do lado de fora, Meta, Google, TikTok, Spotify e tantas outras empresas transformam casas, praias, hotéis e espaços temporários em verdadeiros hubs de conhecimento. Até os barcos atracados na marina se tornam palco para reuniões, networking e geração de negócios.
É impossível fazer tudo. E então o FOMO toma conta.
A cada esquina há uma palestra imperdível, uma conversa interessante, um encontro, marcado ou não, uma ativação ou um evento. Dorme-se pouco, anda-se muito e a sensação é de que Cannes simplesmente não para durante aquela semana.
No meio dessa intensidade, comecei a identificar alguns padrões.
A inteligência artificial ainda dominou praticamente todas as discussões. Uma das novidades desta edição foi a criação da subcategoria AI Craft, que reconhece trabalhos capazes de potencializar a união entre criatividade humana e inteligência artificial. Mas, as falas reforçavam, quanto mais a tecnologia avança, mais valiosas se tornam as capacidades humanas como diferencial competitivo. Como resumiu Tessa Lyons, VP do Instagram na Meta: “A IA não é o fim da história da criatividade humana. É o capítulo mais recente. Novas ferramentas nunca substituíram a criatividade; elas a amplificam”.
Outro tema recorrente foi a necessidade de substituir a obsessão por escala pela busca por significado. Menos volume, mais qualidade; menos eficiência pela eficiência; mais relevância, profundidade e capacidade de construir conexões duradouras com as pessoas. Como provocou Leandro Barreto, CMO da Unilever Beauty & Wellbeing: “Como indústria, confundimos movimento com significado. Ficamos muito eficientes em criar coisas que as pessoas ignoram”.
Esses aprendizados não se aplicam somente às marcas, mas também a quem tem a oportunidade de viver o festival. Por mais que a tecnologia avance, ela continua incapaz de substituir o olho no olho, a confiança construída em uma conversa e as conexões genuínas entre pessoas. É justamente nesse contexto que Cannes se revela um ambiente poderoso para o desenvolvimento de negócios.
Durante a semana, além de ouvir relatos de iniciativas que estavam travadas ou pareciam improváveis, e encontraram um caminho ali, o ambiente amplia significativamente o repertório, desafia certezas e apresenta formas diferentes de enxergar os mesmos problemas.
Foi aí que percebi que Cannes faz tanto sentido para profissionais de negócios quanto para criativos.
Estar presente é entender, em primeira mão, quais conversas estão moldando o futuro da indústria, quais temas passaram a fazer parte da agenda dos clientes e quais conexões podem impulsionar novas oportunidades.
Os cases premiados inspiram. As palestras ampliam repertório. A tecnologia aponta caminhos. Mas são as conversas entre CEOs, CMOs, líderes da indústria e parceiros que transformam inspiração em negócios.
É por isso que o festival vai muito além da criatividade. Só entende Cannes quem vive Cannes.