Cannes

O que o Brasil trouxe de Cannes, não cabe em um troféu

A edição de 2026 mostrou que criatividade, relacionamento e experiência caminham juntas na nova indústria

Heloísa Santana

Presidente Executiva da AMPRO, associação de marketing promocional 2 de julho de 2026 - 14h53

Todos os anos, quando o Cannes Lions termina, sempre tem uma pergunta recorrente: quais foram os melhores cases? Quem ganhou mais leões? Qual foi a principal tendência? Qual o desempenho do Brasil?

São perguntas importantes. Mas, desta vez, voltei convencida de que a principal resposta estava em outro lugar. Voltei de Cannes com a convicção de que o festival vive uma transformação importante. O Palais continua sendo o lugar onde, do início ao fim do dia, jovens talentos, líderes globais e grandes agências apresentam, debatem e celebram a criatividade.

Mas o verdadeiro laboratório da indústria criativa acontece do lado de fora.

As ativações continuam existindo. Mas evoluíram para ambientes de relacionamento, comunidades, hospitalidade, vencendo o “check” apenas da exposição de marcas, para construção delas.

Uma das mensagens mais fortes veio do próprio conteúdo do festival. O brasileiro Leandro Barreto resumiu bem esse momento ao falar sobre a convivência entre “poesia” e “encanamento”: criatividade continua sendo indispensável, mas hoje depende de plataformas, tecnologia e infraestrutura para gerar impacto. Ao mesmo tempo, o protagonismo dos creators deixou de ser uma tendência para se consolidar como parte estrutural da comunicação. A distribuição mudou, a confiança mudou e a forma de construir relevância também mudou.

Outro movimento chamou atenção: Cannes Lions já não acontece apenas dentro do Palais; o festival está em toda cidade: nos restaurantes com placas de “evento privado”, nas casas das marcas, os espaços das plataformas, os encontros paralelos e as agendas de relacionamento passaram a ocupar um papel tão estratégico quanto a programação oficial.

Para quem atua com Marketing de Experiência, esse talvez tenha sido o principal aprendizado da semana:

As experiências deixaram de ocupar um papel tático para assumir uma função estratégica na construção de marcas, reputação e relacionamento.

Essa percepção dialoga diretamente com outro aspecto observado durante o festival: a criatividade continua sendo o ativo mais valioso da indústria, mas ela já não se sustenta sozinha: depende de relações de confiança, colaboração entre diferentes atores, compromisso de longo prazo e ambientes capazes de transformar boas ideias em resultados concretos. Talvez por isso tenham ganhado força discussões sobre autenticidade, creators, comunidades, inteligência artificial, dados e colaboração entre marcas.

Para a AMPRO, essa leitura também orientou nossa atuação em Cannes. Realizamos, pela primeira vez, um encontro institucional durante o festival, reunindo agências associadas, anunciantes, parceiros de negócios, entidades da indústria criativa e imprensa. O objetivo foi celebrar a força do Brand Experience brasileiro, fortalecer conexões e lançar internacionalmente o movimento Culturas Evoluem, iniciativa que propõe ampliar o diálogo sobre práticas comerciais mais equilibradas e relações sustentáveis para toda a cadeia do Marketing de Experiência.

A indústria criativa brasileira é referência mundial em criatividade. Agora, temos a oportunidade de também liderar uma agenda de brand Experience, baseada em colaboração, confiança e experiências que gerem valor para pessoas, marcas e negócios.

Os Leões são importantes. Os rankings também. Mas o maior legado de Cannes talvez seja outro: lembrar que grandes ideias só prosperam quando existem relações capazes de sustentá-las.

E esse legado vale muito mais do que uma semana na Riviera Francesa. Viva o Brand Experience brasileiro.