O que Oprah me lembrou sobre pertencimento em Cannes
Em um festival dominado por tecnologia, a conversa volta ao essencial: escuta, intenção e conexão humana
Depois de um primeiro dia acompanhando a programação oficial de Cannes Lions, entre palestras, ativações, encontros e inúmeras discussões sobre inteligência artificial, criatividade e o futuro dos negócios, uma sensação já começava a ganhar forma pra mim.
Apesar dos assuntos serem completamente diferentes, quase todos pareciam apontar para a mesma direção: a necessidade humana de conexão.
Foi nesse contexto que o segundo dia do festival começou com Oprah Winfrey no LionHeart Seminar.
E talvez não pudesse haver uma personagem melhor para sintetizar essa conversa.
Confesso que havia uma emoção adicional em assistir esse painel.
Como mulher preta, ouvir Oprah ao vivo inevitavelmente toca um lugar muito especial. Não apenas pela dimensão da sua trajetória, mas pelo que ela representa. Uma mulher negra, nascida em circunstâncias improváveis no Mississippi dos anos 50, que construiu uma das maiores plataformas de influência do mundo sem abrir mão da própria essência.
Curiosamente, a conversa não era sobre influência.
Era sobre humanidade, era sobre intenção, era sobre pertencimento.
Em determinado momento, Oprah disse uma frase que ficou ecoando em mim:
“My heart is my brand.”
“O meu coração é a minha marca.”
A mulher que ajudou a construir uma das maiores audiências da história passou boa parte da conversa explicando que, durante muito tempo, resistiu a ser chamada de marca. Ela não queria construir uma marca. Queria ser autêntica.
Parece um detalhe semântico, porém, talvez, seja justamente esse o ponto.
Durante anos, o mercado ensinou que precisávamos construir audiências, ampliar alcance, acumular seguidores e ocupar espaços de relevância. Mas, ouvindo Oprah, fiquei com a sensação de que estamos entrando em uma nova fase.
Uma fase em que as pessoas já não buscam apenas influência. Buscam significado.
Uma fase em que a escuta volta a ocupar um lugar central.
Ela contou que, a partir de 1989, transformou completamente a dinâmica do seu programa. Antes de cada entrevista, passou a fazer uma pergunta simples: “Qual é a intenção desta conversa?”.
O questionamento era tão importante que passou a orientar toda pauta. Antes de cada programa, sua equipe se reunia para discutir o propósito daquela história. E, depois da exibição, avaliavam se a intenção havia sido cumprida.
Enquanto ouvia aquilo, pensei em como raramente fazemos essa pergunta hoje.
Nos acostumamos a discutir formatos, plataformas, métricas e algoritmos. Debatemos incessantemente o que fazer, como fazer e para quem fazer.
Mas esquecemos de perguntar por quê.
Talvez seja justamente essa ausência que explique uma certa fadiga coletiva que atravessa a comunicação contemporânea.
Produzimos muito. Publicamos muito. Performamos muito.
Nem sempre nos conectamos.
E Oprah trouxe outro aprendizado poderoso.
Depois de milhares de entrevistas realizadas ao longo da vida, ela percebeu que todas as pessoas carregam a mesma necessidade.
“Você está me ouvindo?”
No fundo, ela diz, essa é a grande pergunta da experiência humana.
Quando alguém discute conosco, quando alguém se expõe, quando alguém compartilha uma ideia ou até quando alguém publica alguma coisa nas redes sociais, existe uma pergunta silenciosa por trás de tudo isso.
“Eu importo?”
Achei particularmente bonito ouvi-la dizer que a forma mais rápida de desarmar um conflito não é necessariamente concordar com alguém, mas validar a sua existência.
Talvez seja justamente essa a conversa em Cannes este ano.
Em um ambiente dominado por discussões sobre inteligência artificial, automação e tecnologia, a principal provocação que em destaque nos palcos é que o futuro parece estar nos levando de volta às pessoas.
Desde o primeiro dia, esse tema aparece de diferentes maneiras. Na importância das comunidades, na valorização da cultura local, na construção de experiências e, agora, na fala de Oprah, na necessidade de fazer as pessoas se sentirem vistas.
Porque pertencimento, no fim das contas, não é sobre criar comunidades.
É sobre criar a sensação de que ninguém está sozinho.
Esse pode ser o novo desafio das marcas: não disputar atenção, não acumular audiência, mas construir significado.
Cannes parece nos lembrar de algo muito mais fundamental, além de uma década dominada por alcance, algoritmos e viralização,
Não estamos construindo audiências, estamos construindo relações – esse sempre deveria ser o verdadeiro trabalho das grandes marcas, dos grandes criadores e, principalmente, das grandes lideranças: fazer com que as pessoas sintam que importam.