O legado da confiança

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O legado da confiança

Entre as dúvidas do que ficará de positivo após a Rio 2016, podemos adicionar mais uma: o sopro de otimismo destes dias será combustível para a arrancada que o Brasil precisa?


15 de agosto de 2016 - 14h42

Foto: Ezra Shaw/ Getty Images

Foto: Ezra Shaw/Getty Images

Desde que o Rio de Janeiro foi escolhido como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, inúmeros questionamentos foram feitos sobre a capacidade de o Brasil sediar o maior evento esportivo do planeta. Nos últimos meses, as dúvidas aumentaram, alimentadas especialmente por atrasos em obras e pela deterioração da situação econômica e política do País.

Entretanto, mesmo sem responder a contento a muitas dessas cobranças, desde a noite do dia 5, quando foi aberta oficialmente a 31a Olimpíada da Era Moderna, o Brasil vem mostrando ao mundo, como já fez em outras ocasiões, que é um país impressionante. Seja pela sua própria história como nação — contada em parte na bela cerimônia —, seja pelas histórias de superação individual de muitos dos nossos atletas.

Em particular, o show do dia 5, até pelo fato de a abertura dos Jogos Olímpicos ser um dos poucos eventos assistidos ao vivo pelo mundo todo, contribuiu para responder a uma dúvida que incomodava muitos brasileiros: somos capazes?

O que aconteceu no Maracanã foi um daqueles momentos mágicos que têm efeitos muito mais intangíveis que os ótimos números de audiência e engajamento conquistados pelo evento. Criado com foco na transmissão pela TV, o espetáculo comprovou o jogo de cintura brasileiro capaz de viabilizar a abertura mais barata das últimas décadas (um quarto do dinheiro de Londres 2012) e reafirmou o talento audiovisual que a publicidade e o cinema nacionais já reconhecem em profissionais como Fernando Meirelles, Andrucha Waddington e Fabião Soares — alguns dos diretores que lideraram a equipe de centenas de envolvidos. Em entrevista ao Meio & Mensagem, Meirelles fez um paralelo sobre o que a história contada no show de abertura — considerado o mais politizado dos últimos tempos pela abordagem de questões como a do aquecimento global e a da diversidade — tem a ensinar ao marketing: “a verdade é libertadora e engaja”.

A reação positiva da mídia internacional e do público ajudou a reverter o clima de incertezas que rondava a realização da Olimpíada no Rio, mas talvez algo muito mais importante tenha acontecido a partir dali: uma retomada na confiança dos brasileiros no nosso país. É claro que o sucesso da cerimônia de abertura e a torcida por medalhas não alteram a dura realidade da maioria da população. Mas confiança é uma moeda invisível — difícil de conquistar e fácil de perder, como acertadamente sempre se diz — que interfere no ciclo produtivo da economia e baliza planos de negócios de muitas empresas. E, isso sim, ajuda a mudar a vida das pessoas.

“O que aconteceu no Maracanã na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos foi um daqueles momentos mágicos que têm efeitos muito mais intangíveis que os ótimos números de audiência e engajamento conquistados pelo evento”

É certamente um alívio especial para os anunciantes que aliaram suas marcas à Rio 2016 e têm nestas semanas de Jogos o período mais importante de ativações, como mostra a quarta reportagem especial da série de seis que Meio & Mensagem vem publicando e você, caro leitor, lê nesta edição. O editor Fernando Murad e a repórter Teresa Levin circularam pelos principais espaços do evento no Rio de Janeiro: do Parque Olímpico ao Maracanãzinho, da Arena de Copacabana ao Boulevard no centro.

Conferiram desde o esmero das casas temáticas aos problemas de filas e alimentação. Experimentaram as novas alternativas de transporte público e entrevistaram diversos executivos de comunicação, marketing e mídia — dos quais colheram percepções majoritariamente otimistas em relação aos Jogos. E acompanharam os preparativos ainda secretos para a festa de encerramento ao lado do cenógrafo Abel Gomes, diretor-geral artístico das cerimônias da Rio 2016.

Essa constante busca jornalística pelos “dois lados da moeda”, também conduz o artigo do colunista Marcos Caetano, que, após presenciar in loco o espetáculo de abertura no Maracanã, divide em seu texto desta edição a pertinente análise de que o visto ali é obra dos nossos “melhores dos melhores”, e que a inevitável constatação de que esses melhores são poucos deve ser um impulso para o País olhar mais para os “médios dos médios”.

Ainda não é possível saber se o sopro de confiança e otimismo destes dias será, de fato, parte do combustível para a arrancada que o Brasil precisa. Seria bom que o País aproveitasse esse momento, a atenção do mundo e o espírito positivo do esporte para impulsionar mudanças capazes de aproximar a realidade da média da população brasileira da excelência de Gisele Bündchen desfilando sobre os traços de Niemeyer ao som de Garota de Ipanema.

 

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