Como a verdade deixou de importar

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Como a verdade deixou de importar

O mundo vem atravessando um processo de embotamento de raciocínio alimentado por uma onda irracional de ódio entre os que defendem de forma inflexível o pensamento de esquerda ou de direita


23 de outubro de 2018 - 17h12

Crédito: emojoez/iStock

Uma das primeiras pessoas a prever — de forma racional, sem fanatismos — a vitória de Donald Trump nas eleições norte-americanas foi o cartunista e agora analista político Scott Adams. Se você nunca ouviu falar dele, provavelmente já deve ter tropeçado em sua mais famosa criação: as tirinhas do Dilbert, um personagem tragicamente divertido, cujas desventuras permitem que o autor faça críticas à insanidade do mundo corporativo. Lançado originalmente no formato de quadrinhos em dezenas de jornais dos Estados Unidos, Dilbert e sua turma acabaram chegando ao Brasil e sendo divulgados também em outros formatos, como livros e mídias digitais. Com o prestígio conquistado pela denúncia das mais lamentáveis práticas de gestão, Adams tornou- se palestrante e consultor e, mais tarde, um famoso blogueiro. No entanto, ao apostar em Trump e defender com unhas e dentes as virtudes de comunicador persuasivo do futuro presidente, ele logo se tornou uma espécie de persona non grata no meio empresarial, deixando de receber convites para cursos e palestras. Como alternativa, acabou se reinventando como um bem- sucedido analista político. Produto dessa nova fase da carreira, seu novo livro, Win Bigly (que, numa tradução livre da famosa expressão trumpiana, poderia receber no Brasil o título de “Ganhar pra Caramba”), não é apenas um tratado sobre a comunicação em tempos loucos, mas, como diz seu subtítulo, uma obra sobre a “persuasão em uma época em que fatos não importam”. Poucas coisas que li recentemente são mais esclarecedoras, não apenas sobre a vitória de Trump, mas também sobre a presente eleição brasileira.

Pode parecer exagero ou até mesmo um sintoma de loucura alguém imaginar que os fatos não importam mais. No entanto, não há outra forma de descrever o processo de embotamento de raciocínio que o mundo vem atravessando, alimentado por uma onda irracional de ódio entre os que defendem de forma inflexível o pensamento de esquerda ou de direita. Como escrevi na coluna do mês passado, trata-se de um debate profundamente inútil, já que sabemos que o mal é ambidestro e pode se manifestar travestido de direita ou de esquerda. Hitler e Stálin estão (ou estiveram) aí para não me deixar mentir. A grande questão é que os fatos — e a verdade em si — deixaram de ser relevantes. E a frase que melhor resume esse sentimento foi dita pelo próprio Trump: “Se eu der um tiro em alguém na 5a Avenida, ainda assim vencerei a eleição”. Ele estava certíssimo. Dezenas de denúncias das mais cabeludas surgiram sobre seu passado, algumas assustadoras e registradas em vídeo. No entanto, apesar de todas essas denúncias, além de declarações infelizes, tuítes escabrosos e atitudes espantosas, o bilionário apresentador de reality shows ganhou seu passe para a Casa Branca. Os fatos não importaram para Trump, da mesma maneira que não importaram para levar Haddad e Bolsonaro ao segundo turno da eleição brasileira. Na sequência deste texto, tentarei explicar o porquê.

Pensa no seguinte: até os anos 1980, a responsabilidade pela interpretação qualificada dos fatos de maior repercussão repousava sobre os ombros de umas poucas figuras. A história nos era contada por três ou quatro canais de televisão, umas poucas rádios de abrangência nacional, uma dúzia de jornais regionais relevantes e meia dúzia de jornais de maior abrangência. Os comentaristas de política, economia, cultura e comportamento ocupavam essas grandes tribunas depois de longos anos de aprendizado, e costumavam ficar décadas na mesma função. Lembro-me dos tempos da minha infância, quando o futebol chegava pelas ondas do rádio e tinha seus gols narrados por lendas como Waldyr Amaral e Jorge Curi, da Rádio Globo do Rio de Janeiro. Naqueles tempos, o gol só era considerado legítimo se Mário Vianna, o precursor dos comentaristas de arbitragem, com seu gigantesco binóculo, analisasse a jogada e gritasse: “Goooooool Legaaaaaal!”. Se o velhinho bradasse “Banheira!”, “La mano!”, ou simplesmente “Ilegal!”, o gol tinha sido roubado e ponto. A autoridade de Mário Vianna era tão grande que, muito antes do tira-teima, ninguém discutia arbitragem. O que ele dizia tinha o peso de mil escrituras. Pois bem: o que valia para as transmissões de futebol, valia também para outros assuntos. A opinião de Bárbara Heliodora sobre uma peça de teatro podia decretar a diferença entre o sucesso ou o fracasso da montagem, da mesma forma que a cobertura eleitoral para valer era na TV Bandeirantes, onde se reuniam caciques políticos das mais diferentes plumagens. E assim fomos vivendo, orientados por esses renomados especialistas — até que a opinião começou a se pulverizar, virando o mundo de cabeça para baixo.

Tudo começou com o surgimento da TV a cabo. Dezenas, e logo centenas de canais permitiam que as pessoas tivessem muito mais opções de escolha e buscassem o conteúdo (essa palavra ainda nem estava na moda) mais próximo do seu jeito de pensar. Assim, os jovens passaram a curtir música pela MTV, em vez de assistirem ao Globo de Ouro junto com a vovó e o vovô. Já os amantes do esporte não precisavam mais esperar o dia inteiro para ver o Globo Esporte ou a semana inteira para acompanhar a Faixa Nobre do Esporte da Band. Elas agora tinham canais com 24 horas de programação esportiva — e chegaria o tempo em que poderiam ver um canal exclusivamente dedicado às notícias dos seus times. Com a revolução digital, milhares e milhares de blogs, podcasts, web rádios, vídeo blogs, canais de TV online e toda sorte de formatos utilizados para a geração de conteúdos invadiram as nossas vidas. Hoje, se eu quiser passar o dia inteiro consumindo notícias sobre o Fluminense, os discos voadores, a Cientologia, a extrema direita, a extrema esquerda, o feminismo ou o pansexualismo, em croata, russo ou mandarim, no celular, na TV ou no computador, pode ter certeza de que conseguirei. Deve haver um sem-número de sites e canais sobre gafanhotos, charutos, charlatanismo, cultos macabros, vida em outros planetas, seres do centro da terra, cachalotes, cosplays e o que mais eu consiga imaginar. Por esse mesmo raciocínio, se eu quiser viver em um mundo em que tudo o que o Bolsonaro diz ou faz é nazista ou no qual tudo o que se refere ao PT não passa de partes de um plano para transformar o Brasil numa Venezuela maior e mais detonada, eu consigo.

A verdade não importa mais. E não importa porque, mesmo aqui, nos Estados Unidos, o grosso da audiência se divide entre republicanos que assistem Fox News, leem The New Republic e ouvem os apresentadores conservadores de talk rádios, todos garantindo que Trump é a oitava maravilha; e democratas que assistem a CNN e CNBC, leem a New Yorker e o New York Times e se divertem com comediantes de stand-up de esquerda, todos dedicados a desconstruir The Donald. No Brasil, fomos ainda mais longe. Pulamos a parte das mídias, digamos, segmentadas — e passamos diretamente ao WhatsApp. Conheço um monte de gente que diz que não assiste mais ao noticiário da Globo e prefere acompanhar as eleições pelos canais oficiais dos candidatos e grupos de WhatsApp das pessoas fanáticas por ele. Chega a ser divertido notar que os dois grupos radicais, de esquerda e de direita, se unem para jurar de pés juntos que a Globo está vendida para o outro lado e que as urnas eletrônicas são fraudadas pelo partido rival, essa organização monstruosa que vai transformar o país em uma ditadura vil e corrupta.

Tudo isso me leva a duas conclusões: que Scott Adams não poderia estar mais certo sobre a irrelevância da verdade para os milhões que decidiram simplesmente desprezá-la; e que algo de certo a Globo e as urnas eletrônicas devem estar produzindo. O fato é que cada vez mais me torno torcedor das coisas e pessoas que desagradam igualmente os radicais de ambos os lados. Talvez porque eu ainda tenha essa mania antiquada de me importar com a verdade.

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