Confiança em tempos de incertezas

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Confiança em tempos de incertezas

Uma cultura forte une pessoas diferentes e esse é o real papel dos líderes: dar suporte para que esse grande grupo se organize, pense e responda rápido a mudanças


24 de junho de 2019 - 12h03

(Crédito: g-stockstudio/ iStock)

Em tempos de transformações e instabilidade, confiança é moeda de ouro. E confiança, no mundo das empresas, tem, na minha opinião, muito a ver com cultura.

Longe das definições teóricas, a cultura de um grupo nada mais é do que um consenso sobre o que cada um deveria pensar e fazer para ser “um de nós”. Menos sobre discurso e mais sobre comportamento. Cultura organizacional é o que você vê nos pequenos rituais do dia a dia de uma empresa. Eu, em posição de estrategista e, nos últimos anos, de líder de uma agência, tenho tido a oportunidade de assistir e interagir com as mais diferentes culturas, considerando certamente as mais de 80 empresas com as quais já convivi ou convivo diariamente.

É, no mínimo, curioso. Tem empresa cuja cultura é tão forte que, se você colocar um de seus funcionários no meio de um grande grupo pedindo que cada um fale dez minutos, nos primeiros dois minutos de fala você já facilmente identifica de que planeta ele veio. A cultura está na ordem das falas, no que acontece em um momento de crise e nas comemorações. A cultura se entrega sem medo de passar vergonha na atitude de alguém do time quando o líder não está presente. Cultura está também nos tabus.

Sim, tem palavra que é proibida de ser usada e ninguém sabe muito bem por que e nem desde quando. Mas a regra está ali, clara para todo mundo, escrita em lugar nenhum.

Uma cultura forte une pessoas diferentes, faz aqueles que jamais seriam amigos na escola vestirem a camiseta da empresa como se fossem de um mesmo time de futebol. E esse é o real papel dos líderes, criar essa “cola”. Dar suporte para que esse grande grupo se organize, pense e responda rápido a mudanças, todos com o mesmo sentido de “essa é a coisa certa a ser feita”.

É a cultura que nos dá aquela sensação de nos sentirmos em casa, de sabermos que podemos confiar. No livro Confiança: as Virtudes Sociais e a Criação da Prosperidade, Francis Fukuyama afirma: “O bem-estar de uma nação assim como sua habilidade de competir estão condicionados por uma única característica dominante: o nível de confiança”. O autor comenta que a falta de confiança imprime uma espécie de taxa, que empresas com alto nível de confiança não precisam pagar, conceito tratado já há muitos anos por Richard Barret como “entropia cultural”. Ou seja, a quantidade de energia consumida em trabalhos desnecessários ou improdutivos, a quantidade de conflito ou frustração que impede que uma empresa opere no seu melhor nível de desempenho. Parece familiar para você, de alguma forma?

Qual seria o custo dessa alta entropia para as empresas que passam por ela por um tempo ou vivem décadas assim? Há muitos anos, a Gallup realiza pesquisas de comportamento econômico com mais de 35 milhões de funcionários em centenas de empresas pelos Estados Unidos. Por essas pesquisas, 30% das pessoas se sentem “ativamente comprometidas” com as empresas e outras 50% se dizem descomprometidas. As empresas com funcionários desconectados de seu propósito têm 50% mais acidentes, são responsáveis por 60% dos defeitos de qualidade e gastam muito mais com plano de saúde. Parece que o preço é alto.

Construir confiança é, para mim, a tarefa central de um líder. Só assim se pode navegar com certa tranquilidade e (por que não?) diversão, no meio de tantas incertezas. Para isso, cabe ao líder viver intensamente a cultura da organização da qual faz parte, que precisa fazer sentido com seus valores pessoais. Só assim a conexão entre as pessoas e as empresas será de verdade.

*Crédito da foto no topo: Rawpixel-Pixabay

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